Mulheres pretas no comando: Selminha Sorriso e Evelyn Bastos estreiam como apresentadoras de TV nas tardes de sábado

Elas são puro poder na Marquês de Sapucaí. E agora, Selminha Sorriso, porta-bandeira da Beija-Flor, e Evelyn Bastos, rainha de bateria da Mangueira, vão brilhar também como apresentadoras de um programa na TV aberta dedicado ao carnaval carioca, com direito a quadro comandado por Tia Surica, baluarte e presidente de honra da Portela. A estreia do "Samba Coração", na Band, está marcada para as 16h do próximo dia 3 de dezembro, com convidados como Jorge Aragão e Pocah. E levará às tardes de sábado na telinha duas mulheres pretas, oriundas das favelas do Rio, que sempre se destacaram não só por sua arte nas quadras e no sambódromo, mas ainda como vozes de importantes bandeiras sociais, como a pauta antirracista.

- Eu sou de Parada de Lucas. A Evelyn, da Mangueira. E essas duas meninas que cresceram com os pés no chão em comunidades vão parar na TV. Vamos representar a história da mulher preta, por muito tempo invisibilizada, e do samba, perseguido no passado. Reafirmaremos que o negro pode estar à frente de qualquer projeto. Aos 52 anos, vou me tornar apresentadora, e espero inspirar muitas crianças e jovens - afirma Selminha, que não segura o choro ao contar sobre os preparativos para sua nova empreitada.

Selminha debutou como porta-bandeira em 1991. Só com o pavilhão da azul e branca de Nilópolis, no ano passado ela completou 30 carnavais. Dona de muitas facetas, ela ainda é bombeira militar do Rio, formada em Direito e, há 16 anos, conduz o projeto social "Sonho do Beija-Flor", para formação de mestres-salas, porta-bandeiras e passistas. Evelyn, por sua vez, aos 11 anos de idade já desfilava entre as passistas adultas da verde e rosa e, em 2014, assumiu o trono de soberana dos ritmistas da escola. Cria do morro, no último mês de junho ela acumulou mais um desafio, como presidente da agremiação mirim Mangueira do Amanhã.

Idealizador e um dos diretores gerais do "Samba Coração", o empresário Gabriel David conta que, desde o início, pensou no programa para as duas apresentadoras, mirando na capacidade de comunicação de ambas as sambistas. Ele adianta que, nesta primeira temporada, serão 16 episódios. O carnaval das escolas do Rio será o foco. Mas, além das personalidades ligadas à manifestação cultural, serão convidados artistas de outros segmentos, só que para falar de folia.

- Haverá histórias dos bastidores da festa, cobriremos todos os eventos das agremiações e será um mix de entrevistas com uma pegada musical muito forte - afirma Gabriel, ao ressaltar que outra característica do programa será a gamificação, com o uso de estratégias dos jogos para aumentar o engajamento. - Haverá muita interação, ações nas redes sociais, brincadeiras... Tia Surica, por exemplo, dará dicas sobre o samba, com a experiência e a generosidade dela.

Seguindo esse rumo, Gabriel diz que, em seu contato com a nova geração de sambistas, as conversas muitas vezes abordam a necessidade de formar um novo público para as escolas. O "Samba Coração", diz ele, deve dialogar com quem já é apaixonado pelo carnaval. Mas ele projeta outros programas, mais voltados à atração dos jovens.

Selminha, que por 22 anos foi assistente de palco do programa "Samba de Primeira", apresentado por Jorge Perlingeiro, lembra que, durante a pandemia, descobriu isso, que podia se conectar com um número muito maior de pessoas, inclusive fora da bolha da festa. Como uma forma de amenizar o isolamento social, começou a fazer lives, inicialmente, sobre a arte do mestre-sala e da porta-bandeira. Surgiram, então, convites para apresentar outras lives, como a solidária realizada por Milton Cunha.

Nesses programas on-line, ela também percebeu onde podia melhorar, seja na dicção ou na interação com as câmeras. O aperfeiçoamento a que Selminha se dispôs, ela aplicou, este ano, como apresentadora do concurso que escolheu a nova rainha de bateria da Beija-Flor e nas lives da disputa de samba-enredo da agremiação.

- Eu vou sempre na janela de manhã. E um dia vislumbrei que poderia fazer algo maior. Nas lives que participei, vi que não era fácil. Mas como costumo dizer: comigo, missão dada é missão cumprida. E chegou a hora - afirma Selminha, dizendo que encarou as primeiras gravações com a mesma força de quando está na Sapucaí.