Mulheres exibem filmes preciosos durante últimos dias da Mostra de Tiradentes

INÁCIO ARAUJO

FOLHAPRESS - Dois filmes políticos, ainda que bem diferentes entre si, se destacaram nos últimos dias da Mostra de Tiradentes de 2020. Primeiro, a brasiliense Dácia Ibiapina veio com "Cadê Edson?", documentário sobre movimentos der moradia centrados na figura de Edson Ferreira da Silva, coordenador de ocupações. Na quinta-feira (30), Helena Ignez apresentou seu surpreendente "Fakir".

"Cadê Edson?" se vale de documentação preciosa sobre a ocupação pacífica e a desocupação do antigo Hotel Torre Palace, em Brasília, ou seja, de imagens feitas pela própria polícia da desocupação. Há helicópteros com membros da polícia descendo sobre o prédio e drones fazendo o registro. São os próprios policiais que filmam a ação no local. Acredite: não foi nada pacífico. E não que houvesse resistência dos ocupantes, que saíram de lá algemados.

Essas imagens, Dácia montou com pessoas de verde-amarelo, camisas e/ou bandeiras que aplaudiam a ação policial. O efeito de montagem é um pouco abusivo: essas pessoas não estavam ali em 1916, quando se deu o fato. Mas o espírito era esse: toda força foi jogada contra um grupo de despossuídos que ousaram tomar conta do que já era o esqueleto de um prédio.

O filme não começa e nem termina aí: acompanha Edson desde uma ocupação de 2012 nos arredores de Brasília e vai até as decorrências da desocupação do Torre Palace, que não são nada delicadas.

Para resumir: Ibiapina consegue deixar o espectador perplexo ao registrar a maneira como o Estado lida com os despossuídos e tornar incontornável a percepção de que o Brasil parece não ter saído do lugar, da revolta de Canudos até hoje. A maneira como são vistas e tratadas as pessoas pobres parece ser a mesma que Euclides da Cunha percebe em "Os Sertões". Isto é, estamos bem longe daquela "choramingação" de "Democracia em Vertigem".

Se parece bem difícil "Cadê Edson?" sair de Tiradentes sem algum prêmio da mostra Aurora, "Fakir", de Helena Ignez, chega forte à no geral ótima mostra Olhos Livres. Não se trata bem de um documentário, antes de um filme-ensaio que começa por uma busca etimológica: a palavra, de origem árabe, significa pobre.

A partir disso, somos introduzidos ao mundo do faquirismo, que há algumas décadas foi um tipo de espetáculo altamente popular (entre as décadas de 1950 e 1960, sobretudo) e, a rigor, uma derivação do circo. O tema é rico.

A moda dos faquires e faquirezas fez da atividade uma espécie de esporte radical, baseado em uma rígida disciplina corporal que levava a uma extrema resistência em face da fome e da dor.

O Brasil se destacou nessa atividade e diversos recordes foram trazidos para o país, consagrado na manchete de um jornal da época como campeão mundial da fome. Talvez haja um tanto de ironia aí, o fato é que nossos faquires, o famoso Silki à frente, aniquilaram os recordes mundiais anteriores (os franceses foram os grandes concorrentes) e estabeleceram uma supremacia incontestável no ramo.

Helena Ignez deriva disto para outras atividades em que o preconceito e a perseguição policial se revezavam (ou se somavam) para infernizar a vida de nudistas, criadoras de cobras, lutadoras de luta livre e cantoras. Mulheres, sobretudo, pobres, sempre, vítimas de violências, como o caso de uma faquireza que foi assassinada pelo marido, o faquir Lookan, que a suspeitava de traição.

Se Dácia Ibiapina busca com "Cadê Edson" denunciar um tipo de olhar (o oficial) contra ocupantes, Helena Ignez faz de "Fakir" um ensaio libertário em que a evocação de uma época ecoa o humor das chanchadas, a seleção musical (primorosa) corresponde a uma pesquisa iconográfica exemplar.

Esses dois filmes servem como fecho memorável de uma mostra que desde o início afirmou a paradoxal vitalidade do cinema brasileiro atual, capaz de produzir belos filmes, mas enfrenta dificuldades enormes para fazê-los exibidos e vistos com regularidade.