Mulher ordenou levante militar para tentar salvar Inconfidência

PRADOS, MG (FOLHAPRESS) - Uma avenida chamada Tiradentes conduz até o centro de Prados, cidade do interior de Minas Gerais localizada aos pés da serra de São José, a 185 km de Belo Horizonte.

Por mais que a história do protagonista da Inconfidência Mineira esteja presente na memória do município, é, na verdade, um nome feminino que se destaca por lá. Trata-se de Hipólita Jacinta Teixeira de Mello, a inconfidente nascida na localidade e que ordenou o início da rebelião armada que tentaria tirar do plano das ideias a revolução contra a Coroa portuguesa.

Também chamada de Conjuração Mineira, a Inconfidência foi uma conspiração de membros da elite de Minas Gerais que pretendiam promover a independência de uma porção do território (abrangendo Minas, Rio de Janeiro e São Paulo) e instituir uma nova forma de governo na região, inspirada pelos ideais de liberdade e soberania.

Em maio de 1789, Hipólita recebeu a notícia de que a Coroa Portuguesa havia descoberto o movimento e prendido na Tiradentes no Rio de Janeiro. A esta altura, ela estava na fazenda da Ponta do Morro, localizada nos arredores do então arraial de Prados.

É nesse momento que Hipólita se deu conta de que a conjuração seria massacrada, como lembra a historiadora Heloisa Starling, coordenadora do Projeto República (núcleo de pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG). A única possibilidade de salvação do movimento estaria, portanto, na deflagração de um levante militar.

"A ordem de dar início a uma resistência armada nas Minas saiu da fazenda da Ponta do Morro e foi assinada pela Hipólita", conta a historiadora, que escreveu um capítulo sobre a personagem no livro "Independência do Brasil: As Mulheres que Estavam lá", cujo lançamento está previsto para agosto.

"Quando a conjuração estava indo a pique, uma pessoa queria resistir, e era uma mulher", diz Starling.

Hipólita nasceu no arraial de Prados em 1748, período em que o ciclo do ouro ainda movimentava a economia da região. Neta de portugueses, recebeu uma boa educação e cresceu num ambiente de luxo. Ajudava financeiramente as pessoas mais pobres e apadrinhava, ainda que informalmente, jovens e crianças do arraial.

Casou-se com o coronel Francisco Antônio de Oliveira Lopes e não teve filhos, mas criou e educou duas crianças. Uma delas era o jovem Antônio Francisco, sobrinho dos também inconfidentes Alvarenga Peixoto e Bárbara Heliodora.

A fazenda da Ponta do Morro, propriedade da família de Hipólita, era um dos pontos de encontro daqueles que conspiravam contra a tirania do império português. "Ali se reuniam soldados, letrados e grandes proprietários de terra, inclusive aqueles que depois vão trair a conjuração", afirma Starling.

Segundo ela, essas reuniões foram importantes para a formação e a defesa de uma ideia de liberdade, "da ideia de que ser filha das Minas significa sonhar com um país independente" --isso 33 anos antes da proclamação da Independência do Brasil, que ocorreu em 1822.

Para garantir a realização desse sonho, Hipólita encaminhou dois bilhetes naquele 20 de maio de 1789: um para seu marido, que estava em Vila Rica, atual Ouro Preto, e outro para o inconfidente padre Toledo, vigário da Vila de São José, hoje Tiradentes.

A carta ao padre dizia:

Uma outra ordem foi encaminhada ao coronel Francisco de Paula Freire, que deveria deslocar uma tropa de soldados para a região do Serro (centro-nordeste de Minas Gerais) para iniciar a guerrilha.

A Coroa portuguesa indiretamente reconheceu a força de Hipólita no momento da repressão do movimento. O império desrespeitou o direito dela de permanecer com metade dos bens do marido, que havia sido exilado em Moçambique, e sequestrou toda a fortuna do casal.

"Assim, o Visconde de Barbacena [então governador da capitania] colocou a Hipólita no centro do acontecimento político", conta Starling, que enxerga nesse gesto uma tentativa de silenciamento da revolucionária.

Nos dez anos seguintes, contudo, Hipólita tiraria proveito da gestão corrupta do império português para reaver todo o seu patrimônio. Como conta a tradição pradense, ela chegou a enviar encarregados para o Rio de Janeiro, levando ouro em sacos de açúcar, para arrematar seus próprios bens em leilão.

Morreu em 1828, de icterícia, e foi sepultada na capela-mor da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, hoje localizada no centro de Prados. Em seu testamento, um último pedido: que fossem dadas esmolas aos que estivessem na sua missa de corpo presente.

Medalha da Inconfidência Aos poucos, Hipólita Jacinta passou para as notas de rodapé dos livros de história. Essa realidade começou a mudar quando, em abril de 1999, ela foi postumamente agraciada pelo então governador Itamar Franco com a Medalha da Inconfidência, maior honraria do Estado de Minas Gerais.

Em artigo publicado na Folha em março de 2022, Cármen Lúcia --procuradora do estado de Minas Gerais na época da entrega da medalha e hoje ministra do STF-- destacou sua importância: "Dona Hipólita segue como exemplo na 'doidice' de um mundo no qual a igualdade humanizadora ainda é luta contra tantas cruéis formas de desigualdade."

Atualmente, a história da inconfidente pode passar despercebida para quem visita Prados, mas está viva na memória de alguns habitantes.

O historiador Rafael José de Souza é uma dessas pessoas. Professor da escola estadual Doutor Viviano Caldas desde 2016, ele faz questão de apresentar a figura de Hipólita em sala de aula e relacionar sua história com questões contemporâneas de gênero e política.

"O nome dela é um ícone na cidade hoje em dia, principalmente por conta do trabalho de Paulo de Carvalho Vale", conta. Vale foi prefeito de Prados e organizou, em 2000, parte da história da cidade e de Hipólita no livro "De Prados, da 'Ponta do Morro' para a Liberdade".

Existem apenas ruínas da fazenda da Ponta do Morro, demolida por volta de 1929. Tinha 17 janelas, diz Roseni Pinheiro, ex-vereador da cidade. Hoje com 84 anos, ele conta que colaborou para o processo de tombamento da área. Contudo, cercas de arame farpado e uma placa de propriedade privada impedem o acesso de quaisquer visitantes.

A única homenagem pública a Hipólita na cidade é um monumento instalado em 2000 na praça Doutor Viviano Caldas. Tem formato de uma pirâmide e reproduz trechos da carta dela aos inconfidentes.

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