Mulher da casa abandonada teria se irritado por nome de seu cachorro em podcast

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Foi numa noite em que passeava com seu cachorro que Chico Felitti se deparou pela primeira vez com a mansão que, tempos depois, desembocaria num marco do podcast brasileiro. Caindo aos pedaços, o casarão roubou a atenção do jornalista, que ficou curioso para entender como um imóvel num dos bairros mais ricos de São Paulo chegou àquele estado decadente.

Meses depois, Felitti não só teria essa resposta, como também contaria a uma legião de pessoas detalhes do casarão e, sobretudo, da pessoa que até poucas semanas atrás vivia nela, Margarida Bonetti.

E, se antes a casa era só um mais um imóvel abandonado na capital paulista que passava despercebido por muitos, agora ele se tornou um símbolo da herança escravocrata do Brasil e, ao mesmo tempo, um point para selfies descontraídas, dancinhas de TikTok e passeios entre amigos.

"Está tendo de tudo, de pichação na casa [xingando a moradora] a cosplays imitando Margarida Bonetti", diz Felitti, ao comentar algumas das reações que tem visto pelas redes desde desde a viralização de "A Mulher da Casa Abandonada", podcast investigativo da Folha de S.Paulo, lançado no mês passado e apresentado por ele.

Dividido em sete episódios, o podcast investiga o passado de Bonetti, uma mulher que esconde o rosto com uma camada pastosa de pomada branca e, em 2000, foi condenada pelo FBI por submeter alguém a trabalhos domésticos análogos à escravidão nos Estados Unidos. A pena, no entanto, nunca foi cumprida, porque a criminosa fugiu para o Brasil e ficou morando na tal mansão, que era de sua família.

Felitti diz que sempre soube do potencial do podcast, mas afirma estar até agora surpreso com o tamanho da repercussão e, sobretudo, do que tem acompanhado nas últimas semanas.

"Eu não estou produzindo mais nada. Parei até de escrever meu próximo livro [que lança em novembro], porque simplesmente não consigo. Agora, fico o dia inteiro falando sobre o caso, respondendo mensagens nas redes sociais e atendendo ligações", conta. "Meus últimos 15 dias têm sido um balcão de 'A Mulher da Casa Abandonada'."

Essas conversas que não param de chegar, segundo ele, vêm de cantos —e com propósitos— bem diferentes. Tem quem diz ter convivido com Bonetti e quer contar tudo o que sabe, interessados em transformar a investigação em livro, ou série de TV, parentes da mulher e até mesmo gente ligada ao poder público, como um delegado com quem ele havia conversado minutos antes desta entrevista.

"Esse delegado diz que [desde o lançamento do podcast] está surgindo muita denúncia contra trabalho análogo à escravidão. Vários inquéritos estão sendo abertos. É algo que me interessa ouvir, por pura curiosidade mesmo. Não vou escrever nada sobre isso, ou pelo menos não agora. O podcast já está feito."

Enquanto Felitti ouve novas histórias relacionadas ao caso e troca conversas sobre o assunto, há quem esteja surfando na onda do sucesso de "A Mulher da Casa Abandonada" publicando conteúdos de entretenimento, se distanciando do ar pesado do crime hediondo envolvendo Bonetti e ganhando milhares de curtidas nas redes.

No TikTok, há dezenas de vídeos que mostram jovens reunidos em frente à mansão, da qual Bonetti parece ter saído dias após a movimentação em frente à casa virar rotina. Empurra-empurra e invasões ao imóvel já são cenas frequentes por ali.

Tem quem vá ao local para postar vídeos com trilha sonora de terror, xingar Bonetti, vandalizar a casa, dançar em frente à fachada para divulgar música nova, narrar partes do caso e até mesmo "trollar" os visitantes, fingindo ter visto a mulher.

"O que é nosso é o podcast. É por ele que eu o jornal respondemos. Só isso", diz Felitti. Vale ressaltar que a Folha de S.Paulo repudia qualquer forma de perseguição.

"Nós incluímos depois um disclaimer [aviso legal] nos episódios, reforçando que se trata de um podcast investigativo. Não é ficção. E também não é um trabalho da Justiça, ou de polícia. É jornalismo. Demos espaço para todo mundo se pronunciar, inclusive a própria Margarida Bonetti."

O último episódio, que vai ao ar no dia 20, traz a gravação da conversa do jornalista com a mulher que, ao lado do então marido, René, submeteu alguém a agressões físicas, verbais e trabalhos análogos à escravidão por mais de 20 anos.

"A série não sairia se eu não tivesse documentado que Margarida estava ciente de que um podcast sobre a vida dela seria publicado e de que ela tinha espaço para dar sua versão", conta Felitti. "Mas como oferecer isso para alguém que está trancafiado numa casa, não sai para nada e não atende ao telefone?"

Foi aí que o jornalista, depois de meses imerso na apuração, decidiu acampar em frente à mansão. Era preciso trocar esse papo com Bonetti. Ele conta que foram três dias na barraca até que, enfim, conseguisse a atenção da moradora, que ao ver o jornalista admitiu ser quem realmente era, algo que negava a muitos.

"Ela disse que é um caso horroroso e que ia falar comigo, mas aí se trancou novamente. Pensei que a entrevista não fosse acontecer, mas já estava feliz de ter gravado que ela estava ciente do podcast", conta Felitti.

Para a surpresa do jornalista, porém, naquele mesmo dia, Bonetti telefonou a ele e cedeu uma entrevista de quase duas horas e meia. "Nenhum tópico ficou de fora da conversa." Depois da entrevista, Bonetti ainda trocou rápidas mensagens com o jornalista, mas nunca mais se falaram desde então.

Ainda que o podcast venha causando indignação nas pessoas, Bonetti dificilmente será presa, diz Felitti. "No sexto episódio, que sai nesta semana, a gente esmiúça o que houve juridicamente no caso, na herança da família dela e o por que não existem grandes possibilidades de Margarida responder por esse crime."

Uma das poucas pessoas com quem Bonetti mantém certo contato, o porteiro Francisco, que aparece num dos episódios, contou a Felitti que a mulher do casarão detonado ouviu os dois primeiros episódios do podcast e ficou chateada porque o jornalista, segundo ele, errou um dos nomes de seus cachorros.

"Talvez eu dê um 'Erramos', porque, aparentemente, falei o nome do cachorro que já tinha morrido."

Autor dos livros "Elke: Mulher Maravilha", "A Casa: A História da Seita de João de Deus" e "Ricardo e Vânia" —este finalista do prêmio Jabuti de 2020—, Felitti se prepara agora para lançar, em novembro, "As Rainhas da Noite", que conta a história de três travestis que comandaram uma máfia no centro de São Paulo entre as décadas de 1970 e 2000, Andréa de Mayo, Cris Negão e Jacqueline Blábláblá.

"Minha maior gana é descobrir uma história notável", diz o jornalista, ao comentar a sua fama de ter bom faro para grandes reportagens. "Outro dia, estava num elevador, conheci alguém e comecei uma conversa que, talvez, seja o tema do meu próximo podcast. Minhas histórias nascem na mesa de bar, na rua, no dia a dia, quase sempre fora das situações profissionais. Esse é meu tesão desde sempre."

A MULHER DA CASA ABANDONADA

Quando Todas as quartas-feiras, às 7h , um novo episódio vai ao ar, até 20 de julho

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