Muito amor e pé na porta: Quilombo Periférico quer levar representatividade e luta para a Câmara de Vereadores de São Paulo

Anita Efraim
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Da esquerda para a direita, os membros do Quilombo Periférico: Alex Barcellos, Samantha Sosthenes, Elaine Mineiro, Débora Dias, Julio Cezar e Erick Ovelha (Foto: Divulgação)
Da esquerda para a direita, os membros do Quilombo Periférico: Alex Barcellos, Samantha Sosthenes, Elaine Mineiro, Débora Dias, Julio Cezar e Erick Ovelha (Foto: Divulgação)

Muito amor e pé na porta. É assim que Alex Barcellos, co-vereador pelo Quilombo Periférico, define o mandato coletivo, que assumirá um posto na Câmara dos Vereadores de São Paulo a partir de 2021.

Alex é um dos seis integrantes do mandato coletivo, formado também por Erick Ovelha, Samara Sosthenes, Elaine Mineiro, Débora Dias e Julio Cezar. Na urna, quem aparecia era Elaine, que é também quem representará o Quilombo Periférico nas sessões da plenária da Câmara.

Os outros cinco membros do mandato trabalham, na prática, como assessores parlamentares, que vivem o dia a dia da Câmara. Alex também explica que, por serem muitos, querem atuar de forma itinerante, pela cidade de São Paulo.

Mesmo antes de optarem por entrar na política institucional, no poder legislativo municipal, todos os membros do Quilombo Periférico já atuavam politicamente nas regiões onde vivem. “Há anos a gente constrói coletivamente dentro dos territórios. Esse senso de trabalhar colaborativamente já é algo que pulsa no nosso sangue”, coloca. “Quando a gente faz essa opção de ocupar a Câmara Municipal de São Paulo com nossos corpos e com as nossas vidas, é muito no sentido de ser provocado pelo movimento negro, periférico e LGBTQIAP+.”

Como já diz o nome, todos os membros do mandato têm como pauta central a atuação na periferia. Sobre o termo Quilombo, Alex Barcellos explica: “Quando a gente diz ‘aquilombe-se’ é num sentido organizativo, ancestral, dos povos que vieram antes e mantiveram a resistência nesse país, é muito de a gente estar junto.”

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Ele ainda lembra da música “Antigamente Quilombo Hoje Periferia”, do grupo Z’África Brasil. “É um nome também referente a uma reparação história nunca feita antes à população negra, pobre e periférica. A gente acha que faria total sentido a gente se aquilombar e ser da periferia”, afirma.

Cada um dos membros do mandato coletivo é de uma parte diferente da cidade. Alex Barcellos viva no Campo Limpo, Elaine Mineiro de Cidade Tiradentes, Débora Dias é moradora de Sapopemba, Julio Cesar, de Guaianases e Lajeado, Erick Ovelha é do Jardim Ibirapuera, enquanto Samara nasceu no Jardim Ângela e, atualmente, vive na Ocupação Prestes Maia, no Centro.

A diversidade de origens, para Alex, é um fator positivo e mostra que eles estão preparados.

Entre as pautas principais do Quilombo Periférico está a luta contra o racismo. Faz parte dessa luta a quebra da hegemonia de pessoas brancas nos espaços de poder. “A gente fala ‘nada sobre nós sem nós’. Durante muitos anos, a gente acabou fazendo muita política dentro da quebrada, mas acabou sendo muito pautado dentro da esfera da política legislativa”, opina.

Entre as propostas do Quilombo Periférico estão a lei da Educação Popular, para fomentar cursinhos populares, fomento a cultura na periferia, proteção à mulher preta, educação antirracista, mais trabalho e renda da quebrada, entre outros.

“Acho que agora se faz o momento necessário pela conjuntura que a gente ocupe esses espaços do legislativo. É um projeto para ocupar o executivo, ocupar o judiciário, conseguir fazer uma mudança na estrutura racista que ainda permanece na cidade de São Paulo”, aponta Alex Barcellos. Ele ainda aponta que o movimento negro sempre esteve organizado para fazer política.

Alex avalia o grupo tem uma relação afetiva que facilita os processos de decisão de forma democrática. Para ele, o processo envolve muito amor, mas sem fugir da necessidade de mudanças. Daí o “muito amor e pé na porta”.

Para o co-vereador, o caminho ainda é longo, mas já se pode notar uma melhora no cenário, com o aumento do número de cadeiras ocupadas por pessoas negras, periféricas e LGBTQIAP+.

QUEM VOTOU

Alex ressalta que o Quilombo Periférico recebeu muitos votos da periferia, o que representa uma grande vitória para eles. Eles receberam mais de 22 mil votos no último dia 15. “No levantamento que a gente tem dos territórios que a gente teve mais voto, surpreende. Porque, na grande maioria das vezes, quando a gente tem candidaturas de mulheres pretas ou de pessoas periféricas, a gente tem um volume muito grande de votos no centro de São Paulo. A nossa candidatura conseguiu ter uma expressão maior na periferia, na Zona Leste e na Zona Sul”, afirma. Ele ainda avalia que o feito é muito difícil, já que as periferias são muito disputadas pela chamada “velha política”.

Por outro lado, Alex não diminui a importância dos votos recebidos em região privilegiadas da cidade. “Tem um levante do senso crítico de cidadania, de reparação história, que muitas pessoas colocaram no seu voto”, pondera.