Movimentos lutam por mais negros nos bastidores dos museus e das galerias

CLARA BALBI
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nos últimos anos, os holofotes das artes plásticas parecem ter se voltado de vez para a representatividade -e as questões dos negros, junto com as das mulheres, dos indígenas e outros, passaram a pautar boa parte das exposições do circuito. Mas enquanto os debates sobre racismo só fizeram ganhar força nas paredes de museus e galerias, nos seus bastidores a ausência de profissionais negros é visível. Um levantamento realizado pelo artista, curador e pesquisador Alan Ariê no ano passado mostrou que, dos mais de 600 artistas representados por galerias em São Paulo, só 5% são pretos ou pardos. Um mapeamento que está sendo realizado via redes sociais pela educadora, curadora e pesquisadora Luciara Ribeiro identificou até agora 76 curadores pretos ou pardos de um total de 300 que atuam na área no país, ou cerca de 25%. Entre esses curadores, são poucos os que chegaram a cargos de direção artística de grandes museus brasileiros. Ribeiro calcula que eles sejam três hoje. Keyna Eleison, que acaba de assumir o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, o MAM-Rio, ao lado do espanhol Pablo Lafuente; Emanoel Araujo, do Museu Afro-Brasil, em São Paulo; e Cristiane Mabel Medeiros, do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, o Mamam, no Recife. Ribeiro ainda afirma que a pandemia pode ter dificultado o acesso de negros a cargos em museus e espaços culturais. Isso porque uma das áreas mais atingidas por demissões nesses locais foi a educativa, porta de entrada mais comum para aqueles que não estão inseridos no sistema da arte, segundo a pesquisadora. Como, então, transformar esse contexto? Aqui e lá fora, algumas iniciativas têm surgido nesse sentido. Uma das frentes mais inusitadas dessa batalha é o mercado de arte. Ribeiro, por exemplo, trabalha na galeria Diáspora, especializada na questão racial. Eleison fundou com outros curadores e artistas a 0101, que organiza seminários, exposições, publicações e oferece consultorias para galerias e colecionadores sobre a produção de artistas negros. Até o poderoso marchand alemão David Zwirner aderiu à onda, anunciando um novo espaço em Nova York gerenciado por uma equipe negra. Outra frente são as plataformas de conteúdo, que buscam aprofundar e difundir conhecimento sobre artistas negros e o universo artístico em geral. É o caso do Projeto Afro, lançado em junho deste ano pelo jornalista e pesquisador Deri Andrade. Além de publicar artigos e pesquisas, como os de Ariê e Ribeiro citados no início do texto, a plataforma ainda abriga uma base de dados sobre artistas negros brasileiros, com 149 nomes históricos e contemporâneos. Por fim, no exterior surgiram projetos como o Museum Hue e o Museum Detox, que conectam instituições de arte a profissionais negros, latinos e asiáticos em busca de emprego. E canais de denúncia anônima de situações de racismo em museus, como o Change the Museum. Todas são faces de um movimento que só tende a ganhar espaço no futuro, segundo Ribeiro. "Não é que a gente está na moda. Isso é resultado de uma luta de anos", diz. "Acho que as instituições perceberam que não há outro caminho. Ou elas mudam, ou serão condenadas ao passado." Mesmo assim, continua a curadora e pesquisadora, é preciso implementar mudanças nas políticas públicas que regem museus e instituições de arte para que eles abandonem de vez práticas racistas. "O racismo é o crime perfeito, porque vai se adaptando e encontrando novas maneiras de se perpetuar. Ele só vai acabar quando fizermos uma revisão dessas posturas", conta. Ribeiro defende, por exemplo, a implementação de um órgão externo para fiscalizar casos de assédio moral nos museus. E também a adoção de cotas raciais no mercado de trabalho, a exemplo do que fez a África do Sul pós-apartheid --vale notar que, enquanto a renda per capita dos negros do país aumentou por causa da medida, a desigualdade econômica entre negros e brancos ainda persiste lá. À frente do MAM, Eleison também é a favor da adoção de ações afirmativas nos empregos, mas adianta não poder afirmar se elas estão ou não nos planos futuros do museu. "O que posso dizer, como diretora artística, é que minha linha de pensamento está voltada para os corpos em sua diversidade", diz. A curadora acrescenta que essa diversidade é vantajosa para as empresas, já que esses profissionais muitas vezes conseguem resolver problemas que indivíduos brancos nem sabem que existem. Eleison diz acreditar, porém, que uma das medidas mais urgentes para acolher profissionais negros nos museus e espaços culturais é construir a autoestima deles. Ela conta que teve dificuldade de se assumir como curadora. "Foi só trabalhando muito que entendi que o que estava fazendo se chamava curadoria." "Essa autoestima não é uma questão individual, mas é dada coletivamente", prossegue ela. "Acho que o que posso fazer como diretora artística do MAM é fomentar a imaginação das pessoas nesse sentido. Quanto mais gente preta temos nesses locais, mais as colocamos num caráter cotidiano. Não nasci exótica, nasci eu. Quem me tornou exótica foi a estrutura." O mesmo raciocínio valeria para as próprias obras de arte, segundo a curadora. Ela diz que mesmo expressões como "arte negra" e "arte indígena" têm uma estrutura racista, já que opõem essas produções a um modelo universal de arte --que é, no fundo, europeu. "Não quero negar essa pintura, mas existem outros parâmetros, éticos e estéticos." Andrade, do Projeto Afro, tem uma avaliação semelhante. Ele diz que é preciso começar a incluir artistas negros em mostras que não focam a questão racial. "Eles têm um trabalho plural, que sempre pôde fazer parte de qualquer coleção, sob qualquer tema." Seja como for, Eleison diz ter pressa. "Não vim para ser um bibelô. Agora estou num lugar extraordinário, mas a ideia é que isso seja ordinário. E espero estar viva e não tão grisalha para comemorar."