Mourão, Dilma e general Heleno viram sátira em peça sobre o Exército brasileiro

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Encapuzados com máscaras que remetem à aparência de velhos homens brancos, os atores de "Verdade", nova peça de Alexandre Dal Farra, que estreia nesta quinta-feira, na Oficina Cultural Oswald de Andrade, na capital paulista, resgatam alguns dos momentos mais marcantes da política brasileira das duas últimas décadas e imaginam o que, de fato, aconteceu por trás das manchetes de jornais, noticiários de TV, entrevistas coletivas e protestos nas ruas atrelados a esses eventos.

Logo na primeira cena, a peça nos transporta para 2005, mais especificamente para um quartel haitiano em que está o general Augusto Heleno --hoje, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência-- pouco depois de saber que será exonerado de seu então comando dos esforços de paz no Haiti.

Reflexivo, Heleno tenta fingir que não se importa com a exoneração, fala de sua paixão pelas regalias do cargo --que incluem fins de semana em Miami e jantares com ricaços americanos-- e se prepara para uma operação que pouco depois entraria para a história, a chacina que matou dezenas de haitianos na favela Cité Soleil, numa ação da Minustah, a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti.

Mas Heleno é só mais uma das figurinhas do Exército brasileiro a compor o grupo de personagens que conduz "Verdade", espetáculo encenado pela companhia Tablado SP que traça uma relação entre alguns dos presidentes dos últimos 20 anos e o militarismo brasileiro.

Na peça, os militares são retratados como um conjunto homogêneo de velhotes brancos. Num tira e põe de máscara --de látex e ares bem realistas, que remetem a rostos brancos envelhecidos e masculinos--, os atores se revezam para assumir o papel de nomes como os dos generais Hamilton Mourão, Eduardo Villas-Boas, Enzo Peri, Maynard Santa Rosa, Sérgio Etchegoyen, Carlos Alberto Santos Cruz, Edson Pujol e do coronel Paulo Malhães.

A origem da produção do texto, no entanto, está mesmo atrelada ao governo de Bolsonaro, afirma Dal Farra.

"No começo, queria entender a relação do Bolsonaro com o militarismo, sobretudo com a milícia, que não deixa de ser um braço dos militares", diz ele. "Mas, num certo momento, percebemos que há uma situação tautológica acontecendo. Estamos sempre dizendo que o Bolsonaro é ruim, e sempre entre nós mesmos. No campo da linguagem, isso se torna irrelevante."

Além disso, Dal Farra acredita que atribuir a vitória de Bolsonaro em 2018 exclusivamente a disparos em massa de fake news no WhatsApp ou a grupos de extrema direita é uma leitura binária do contexto, que diria pouco sobre outros laços que são amarrados há anos nos bastidores dos palanques da democracia brasileira.

Segundo o diretor, seria mais interessante, então, esmiuçar o que liga Bolsonaro a outros tantos presidentes do país nas últimas décadas --ainda no campo do militarismo.

"Os militares, no Brasil, agem como um conjunto", diz Dal Farra, que passou os últimos dois anos estudando pesquisas de Piero Leirner, especialista no militarismo brasileiro. "Existe uma ideia de que os militares são velhinhos saudosistas da ditadura, mas a questão vai bem além disso. Nos anos Lula, especialmente nos da Minustah, já havia uma guerra híbrida, em que tudo é estratégia de guerra para o Exército."

Além de militares famosos, "Verdade" satiriza nomes como os da ex-presidente Dilma Rousseff, do PT, e do ex-ministro Aloizio Mercadante, da Educação. Os dois aparecem juntos numa cena em que ela assina a lei da delação premiada, que, anos mais tarde, levaria à prisão de Lula.

"Bolsonaro estava no plano do Exército há algum tempo, com a anuência do comando da instituição, que queria retomar alguns cargos", afirma o diretor. "Agora, se o Lula vencer, em outubro, terá que negociar com os militares de uma maneira diferente da que fez lá atrás, quando deu força ao Exército, mas negou vários interesses. É lidar com esse poder."

VERDADE

Quando: 14 a 31/7 (qui., sex. e sáb., às 21h, e dom., às 19h)

Onde: Centro Cultural São Paulo (r. Vergueiro, 1000, São Paulo

Preço: Gratuitos (retirada de ingressos na bilheteria, 1h antes da sessão)

Classificação: 14 anos

Direção: Alexandre Dal Farra

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