Mostra de São Paulo reflete clima de incerteza com programação mais enxuta e 'DNA brasileiro'

CLARA BALBI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Resistência foi a palavra de ordem na apresentação da 43ª Mostra de Cinema de São Paulo, que aconteceu na manhã deste sábado (5), no Espaço Itaú Augusta.

As falas da diretora do evento, Renata de Almeida, do secretário de Cultura de São Paulo, Alê Youssef, do presidente do Sesc-SP, Danilo Santos de Miranda, e da presidente da Spcine, Laís Bodanzky, ecoaram o clima de incerteza financeira e de censura enfrentada pela cultura no país nos últimos tempos.

"Pareceu muito importante marcar uma espécie de resistência pró-ativa", disse Youssef. "É uma maneira de apostar na civilização contra a barbárie, e de levantar uma bandeira contra a censura, contra esses 'filtros' que estamos vendo em todas as áreas", afirmou. "Realizar essa mostra é acreditar em uma São Paulo muito mais modernista do que bandeirante."

Apesar da atmosfera pessimista e do corte de cerca de 20% do orçamento, com a retirada do patrocínio da Petrobras, Almeida afirma que conseguiu montar uma programação "surpreendentemente forte" nesta edição.

O total de 304 títulos -número que ainda pode aumentar até o início da mostra- é cerca de 10% menor que o de 336 do ano passado.

Mas filmes aclamados em Cannes integram a programação, como "O Paraíso Deve Ser Aqui", de Elia Suleiman, e "O Farol", de Robert Eggers (de "A Bruxa"), exibido no Auditório Ibirapuera com direito a masterclass, além da exibição do ganhador da Palma de Ouro, "Parasita", informação adiantada pela Folha.

Outros destaques incluem a vinda do israelense Amos Gitai ao país e uma retrospectiva do francês Olivier Assayas. O crítico Rubens Ewald Filho, morto em junho deste ano, ganha uma homenagem com a exibição de "O Mágico de Oz", um de seus filmes favoritos, no Vão do Masp.

Os conflitos entre o governo e o setor cultural ainda se refletiram em uma seleção de filmes que, segundo Almeida, priorizou o  "DNA brasileiro".

Daí a escolha de duas produções com nomes brasileiros em suas equipes, "Wasp Network", de Olivier Assayas, e "Dois Papas", de Fernando Meirelles, para abrir e fechar a mostra, nesta ordem. Outros títulos nacionais protagonizam pela primeira vez "noites de gala" no Theatro Municipal, "Abe", "Babenco - Alguém tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou", "Três Verões" e "A Vida Invisível", indicação do Brasil para o Oscar de filme em língua estrangeira. 

Além disso, quase 90 filmes exibidos são produções ou coproduções brasileiras.

A 43ª edição da Mostra acontece de 17 a 30 de outubro.