Mostra exibe obra de fotógrafo que registrou a alma da modernidade

GUSTAVO FIORATTI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Há uma fotografia da retrospectiva de Peter Scheier, agora no Instituto Moreira Salles paulistano, que nos oferece o retrato perfeito de como, entre os anos 1940 e hoje, profissionais das artes visuais mudaram, e muito, a forma como trabalham.

Numa série de imagens deste que é um dos grandes cronistas da construção moderna do país --que inclui registros da 1ª Bienal de São Paulo, de 1951--, há a imagem de homens pondo o dedo em uma tela, há artistas posando com o corpo apoiado em uma escultura. Há até quem fume muito próximo a um quadro.

Ainda muito jovens, os pintores Aldemir Martins e Marcelo Grassmann aparecem numa fotografia dormindo num canto do pavilhão provisório onde a Bienal foi realizada, na região da avenida Paulista. 

Scheier, que morreu em 1979, foi um dos fotógrafos mais atuantes de sua época, em especial nos anos 1940 e 1950, e a retrospectiva no IMS traz agora a público sobretudo uma dimensão desse olhar que é prolífico e astuto na forma como retrata a vida e a paisagem dos chamados anos dourados do país. 

Por meio da exposição, se reconhece a numerosa produção de quem se firmou como uma espécie de proletário das mídias de sua época.

Scheier produziu de forma extensa por uma simples razão --seu soldo vinha da fotografia. Ele foi contratado por periódicos nacionais e assumiu parcerias com governos e diversas instituições voltadas à produção cultural.

De origem alemã, aportou no Brasil em 1937 como refugiado do regime nazista e traçou uma trajetória "muito comum entre imigrantes", conta a organizadora da mostra, Heloisa Espada. "Ele estabelece uma empresa e tem a oportunidade de transformar um hobby [a fotografia] em profissão." 

Na Alemanha, Scheier havia trabalhado como comerciante e contador. Em São Paulo, no começo dos anos 1940, fotografou casamentos, formaturas, fez álbuns de família e abriu o Foto Studio Peter Scheier, que funcionou até 1975, quatro anos antes de sua morte.

Espada diz que quis mostrar a história "de um cara que tem muitas referências nas artes" e que é tecnicamente muito rigoroso". "A gente identifica isso na obra dele. Mas, por trás dessas qualidades, ele está atendendo a 'demandas comerciais'", afirma.

O primeiro emprego formal, ou ao menos o primeiro contemplado na exposição, foi na revista O Cruzeiro, para a qual ele trabalhou entre 1945 e 1951. Era uma das publicações mais lidas do país na época.

Scheier produziu ali cerca de cem reportagens sobre práticas esportivas, religião, saúde, a vida nas ruas da cidade de São Paulo, problemas sociais, entre outros temas.

As peças desse primeiro núcleo estão "na linha editorial de O Cruzeiro", mas "já se vê uma coisas característica, que é um apreço pelo movimento", diz a organizadora da mostra, apontando duas mulheres que lutam em um ringue.

A exposição tem cerca de 300 itens e é resultado de uma pesquisa no acervo do fotógrafo sob a guarda do IMS, com cerca de 35 mil negativos. Também foram consultadas coleções de outras instituições, entre elas o Instituto Peter Scheier, a Casa de Vidro, o Masp e a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

A inauguração de Brasília em 1960 é um ponto-chave da mostra, com as fachadas de vidro permitindo ao fotógrafo observar o interior dos edifícios, com o barro dos canteiros ainda aparecendo entre o maquinário e as construções de formas curvas e retas. 

Na parede oposta à que registra o nascimento da capital brasileira, há paisagens e a vida dos judeus recém-aportados em Israel. 

São imagens feitas para uma fotorreportagem produzida em 1959, quando o fotógrafo viajou ao país a convite do governo israelense e nas quais se notam estudantes, meninos brincando nas ruas, uma

mulher ao lado de um carrinho de bebê ao sol. 

Fazia pouco mais de dez anos que o Estado de Israel havia sido criado. Marcam suas paisagens edifícios que também exibem estilos de uma arquitetura moderna. Há alguma convivência entre judeus e árabes, sem que se torne explícito o conflito que resultaria na criação da Palestina 30 anos depois.

A ligação de Scheier com a arquitetura vem do início de sua carreira, quando ele passa a colaborar com arquitetos como Gregori Warchavchik, Rino Levi e Lina Bo Bardi.

A exposição traz fotografias pouco conhecidas da arquitetura moderna de São Paulo. Entre os anos de 1947 a 1955, Scheier também fotografou as atividades do Masp, tendo trabalhado muito próximo a Pietro Maria Bardi, que era então diretor do museu. O fotógrafo documentou obras do acervo, exposições e diversos eventos promovidos pelo museu.

PETER SCHEIER

Quando: Ter. a dom. e feriados, 10h às 20h; qui., 10h às 22h

Onde: IMS, av. Paulista, 2.424

Preço Grátis