Mostra de Cinema de Gostoso sai da praia para a internet na pandemia

INÁCIO ARAUJO
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Para melhor fugir da pandemia, a Mostra de Cinema de Gostoso muda de rota em sua sétima edição. Em vez de acontecer na areia da famosa praia do Rio Grande do Norte, as exibições desta vez serão pelo online, com todos os 36 filmes programados. Esta está longe de ser a única mudança. Os curadores suprimiram este ano o concurso para escolha dos seis longas e dez curtas da mostra central. Eles foram pinçados pela curadoria entre produções concluídas entre 2019 e 2021. O mais importante, no entanto, é o que foi acrescentado. Gostoso procurou agitar um tema central no cinema brasileiro atual, a memória —ver o fechamento da Cinemateca Brasileira pelo governo federal— e desencavou algumas raridades e outras nem tanto. A maior dessas joias é “A Vida Provisória”, único filme dirigido pelo mineiro Maurício Gomes Leite. O filme de 1968 trata da atividade política do jornalista Estevão já durante o período da ditadura militar. Estevão não tem a pegada expansiva do Paulo Martins de “Terra em Transe”. É discreto em seu agir. O estilo de Gomes Leite também não tem nada de glauberiano: é seco e realista, porém bem moderno, como os toques godardianos deixam bem ver. Talvez o espectador contemporâneo estranhe no início a narrativa não-linear, em que se alternam os tempos de vida do jornalista (em Belo Horizonte, Rio e Brasília), seus elos com pessoas no poder, os documentos que detém e seu amor por Paola, vivida por Dina Sfat. A cópia a ser exibida é preservada pela Cinemateca do MAM e foi exibida há sete anos numa mostra dedicada a Paulo José do CCBB. Mas não é a toda hora que passa. Quanto a Gomes Leite, também não se sabe muito, exceto que se mudou para a França e trabalhou para a Unesco por muitos anos. Crítico importante, Gomes Leite logo disse que “O Bandido da Luz Vermelha” (1968), de Rogério Sganzerla, estava 20 anos à frente do nosso cinema. Mas sua “Vida Provisória” acabou numa espécie de limbo, pois não era cinema novo, nem universalista, nem intimista. No entanto, continua moderno. O que é mau, o que é ressaltado pelo cineasta Vladimir Carvalho em seu depoimento ao festival. Outro depoimento gravado, o do cineasta João Callegaro, é mais importante, já que ele é um dos raros remanescentes dos que inauguraram o “cinema da Boca”, entre eles Rogério Sganzerla e Carlos Reichenbach. A ideia central: fazer filmes baratos e rentáveis. Mais do que isso. Essa tendência nasceu da convivência entre Callegaro, Reichenbach e Sganzerla, colegas na efêmera Escola de Cinema São Luís, a primeira do país. Sganzerla fez sucesso com seu “Bandido”. Callegaro e Reichenbach juntaram-se ao crítico Antônio Lima para criar a Xanadu, responsável por dois filmes inaugurais, feitos em episódios, que o festival trará de volta: “As Libertinas”, de 1968, e “Audácia”, de 1970. Callegaro toma parte apenas no primeiro deles. Como ele próprio deixou os longas-metragens por documentários e filmes publicitários, após fazer o formidável “O Pornógrafo” (1970) e como Lima abandonou a realização para voltar ao jornalismo, o interesse central dos filmes acaba sendo (sobretudo em “Audácia”) a oportunidade de ver Carlos Reichenbach, entre altos e baixos, dar seus primeiros passos, por vezes hesitantes, por vezes já anunciando o que seria o seu riquíssimo cinema futuro. Quanto ao depoimento, trata-se de um precioso documento sobre a gênese do cinema paulista que vigorou a partir do final dos anos 1960 e até os 80 (ainda que com mudanças profundas) e complementa o documentário inserido no início de “Audácia” (a rigor, a melhor parte do filme). É verdade que esses eventos correm o risco de ofuscar até certo ponto a programação de novos filmes. Mas nem tanto assim. Primeiro, porque a pandemia impede a realização de muitos novos filmes. Segundo porque, entre os escolhidos (e lembrar que não se trata de mostra competitiva) existem filmes que passaram por festivais relevantes e não receberam a devida atenção dos streamings. Entre eles estão “Antena da Raça” (2020), de Paloma Rocha e Luis Abramo, que passou por Brasília, “Açucena” (2021), de Isaac Donato e “Essa Terra É Nossa” (2020), de Isael e Sueli Maxakali, Carolina Canguçu e Roberto Romero, que estiveram em Tiradentes. Esse último é muito especial, pois, filmado por índios e sobre índios, dispensa paternalismos para ser admirado. Traz uma visão inesperada, fresca e madura, sobre como olhar e experimentar o mundo em que vivemos. Não menos relevantes são os filmes da mostra Acervo, entre eles “Vidas Secas” (1963), de Nelson Pereira dos Santos, “Copacabana Mon Amour” (1970), de Sganzerla, “Claro” (1975), de Glauber Rocha e “São Bernardo” (1972), de Leon Hirzman, entre outros. Por fim (e para não falar dos curtas), os dois filmes que compõem com “A Vida Provisória” a série Limite são imperdíveis: “O Bravo Guerreiro”, de Gustavo Dahl, e “Desesperato”, de Sergio Bernardes Filho (ambos são de 1968). Ah, sim, não se pode deixar de lembrar que também será exibido “Cinemateca Brasileira”, que Ozualdo Candeias filmou em 1993. Afinal, é em torno da memória, portanto da preservação, portanto da Cinemateca Brasileira, que gira grande parte das escolhas de Eugênio Puppo e Matheus Sundfeld. Para acessar tudo isso e um pouco mais desse programa não parece complicado. Tudo estará no site www.mostradecinemadegostoso.com.br.