Mostra de arte nazista em Viena busca abordar o legado da Segunda Guerra Mundial

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Cartaz da exposição "Viena se alinha. A política da arte sob o nacional socialismo" do Museu de Viena, em 9 de novembro de 2021 (AFP/Joe Klamar)

Em um museu de Viena, a arte da era nazista ocupa duas pequenas salas, e algumas peças são mantidas em caixas. Há uma pintura a óleo da ópera de Viena com bandeiras nazistas ao lado de uma tapeçaria com uma suástica bordada.

As peças fazem parte de uma exposição na capital austríaca que busca iluminar a política da arte sob o Terceiro Reich, uma maneira de Viena abordar sua complicada história durante a guerra.

Apresentada como vítima após ser anexada pela Alemanha nazista, nas últimas três décadas a Áustria (onde Hitler nasceu) começou a examinar seriamente seu papel no Holocausto.

Os curadores da mostra esperam que suas pesquisas ajudem no processo, mas tiveram o cuidado de não dar muita "aura" às obras.

Em vez de expostas nas grandes paredes do museu, as obras estão agrupadas em apenas duas salas, como se fossem caves.

"Não pode ser como outras exposições no sentido clássico das apresentações artísticas", explicou à AFP a curadora Ingrid Holzschuh.

A exposição é o resultado de quatro anos de pesquisa de Holzschuh e da historiadora de arte Sabine Plakolm-Forsthuber, que examinou os arquivos de cerca de 3.000 artistas membros da Câmara de Belas Artes do Reich de Viena.

Os arquivos foram mantidos pela principal associação artística austríaca. Todos os artistas eram membros da Câmara de Belas Artes do Reich, todos cuidadosamente examinados e monitorados depois que a Áustria foi integrada à Alemanha nazista em 1933.

"Os candidatos à adesão deveriam atender aos critérios artísticos, políticos e raciais do regime nazista", afirmam os materiais da exposição. "Artistas e dissidentes políticos judeus estavam vetados".

Os artistas vienenses que não cumpriam as regras foram forçados a fugir ou foram mortos em campos de concentração, de acordo com o catálogo da exposição.

"O regime nazista garantiu o controle do mundo da arte e o orientou de acordo com sua visão ideológica e racista", acrescentou.

Junto com as informações biográficas de alguns artistas, a exposição inclui suas pinturas, esculturas, tecidos e cerâmicas, em sua maioria armazenados durante décadas pela cidade de Viena.

- Reflexão -

A exposição intitulada "Viena se alinha. A política da arte sob o nacional-socialismo" faz parte de uma tendência de reconciliação com um capítulo desagradável da história austríaca.

Após sua anexação à Alemanha, a Áustria participou da perseguição aos judeus e outros, que por muito tempo não foi devidamente abordada.

"Desde o final dos anos 1980, houve uma grande mudança (...) começou um grande processo de reflexão", comentou o historiador Gerhard Baumgartner, chefe do Centro de Documentação da Resistência Austríaca.

Desenterrar a arte da época faz parte desse movimento e é uma forma de aprender mais sobre os artistas que estão por trás das obras pró-nazistas, dos quais pouco se sabe.

"Há uma grande necessidade de abraçar a história. Ainda existem muitas lacunas que precisam ser fechadas", disse a curadora Holzschuh.

E não é a única maneira pela qual a cidade enfrenta seu passado complexo. Viena anunciou recentemente um concurso para criar uma peça de arte com a estátua do ex-prefeito antissemita Karl Lueger, que inspirou Hitler, que foi vandalizada várias vezes.

A cidade também analisou os nomes das ruas para marcar aquelas que homenageiam figuras antissemitas ou com um passado sombrio, uma tendência que ganhou força com o movimento Black Lives Matter e protestos em torno de monumentos históricos.

Depois de muita polêmica, uma parte do anel periférico de Viena, o Ringstrasse, que levava o nome de Lueger, foi rebatizada em 2012.

Holzschuh e Plakolm-Forsthuber também queriam revelar como alguns artistas continuaram a ter influência após a Segunda Guerra Mundial, como o escultor Wilhelm Frass.

Após a anexação da Áustria, Frass professou sua lealdade aos nazistas, mas continuou a trabalhar após a guerra e até teve obras encomendadas pela cidade de Viena.

A Câmara de Belas Artes do Reich foi dissolvida após o colapso do nazismo, e os artistas que desejassem continuar em sua profissão tiveram de ser aprovados pelo novo governo para evitar a presença de nazistas.

A pesquisa de Holzschuh e Plakolm-Forsthuber culminou em um catálogo de 300 páginas e na própria exposição.

A mostra, aberta em outubro e que irá até abril, atraiu 4.000 visitantes em seu primeiro mês, "muito interesse", segundo a porta-voz do museu, Konstanze Schaefer.

Até agora, evitou polêmica, exceto por um comentário mordaz no jornal austríaco Kurier criticando o dinheiro gasto para preservar a arte nazista.

Mas para a vereadora Veronica Kaup-Hasler, que inaugurou a mostra, explorar o passado é "uma boa base para tomar decisões sobre o futuro".

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