Morto após abordagem da PM vendia bala no farol e sonhava em ser cantor

David e o ídolo, MC Kauan Coringa | Foto: Reprodução/Facebook

Por Maria Teresa Cruz

Fã do MC Kauan Coringa e com o sonho de se tornar cantor de funk, o vendedor ambulante David Nascimento dos Santos, 23 anos, era brincalhão e muito focado em conquistar seu dinheiro honestamente, conforme contam amigos e familiares.

Ele saía diariamente da comunidade onde morava, na região do Jaguaré, zona oeste da cidade de São Paulo, e caminhava por alguns metros até chegar na Marginal do Pinheiros, onde trabalhava vendendo balas e doces.

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Em uma de suas músicas que compunha na esperança de viver do funk, Dede, ou MC 2Dêeh, como era conhecido, relatava um pouco de sua história e seu sonho: 

“Ficava no farol só para ganhar um trocado 
Hoje eu estou suave, uma fiel tenho ao meu lado 
Fui criado pela minha coroa desde um ano de idade 
Sei que a vida não é fácil 
Meu castelo de madeira era um barraco 
E voando baixo, condição para minha família 
Ajudar quem passa dificuldade 
Sei que são altos e baixos 
Mas por dia vários leões são degolados” 

Na noite da última sexta-feira (24/4), ele foi abordado por policiais militares do Baep (Batalhão de Ações Especiais) na entrada da rua onde morava, enquanto esperava um lanche que pediu pelo aplicativo de comida iFood. Imagens de câmeras de segurança da rua mostram quando David está passando pela rua e uma viatura passa e reduz a velocidade. Os PMs descem e realizam uma breve abordagem. A viatura faz uma manobra para frente e o rapaz é colocado no banco de trás.

O rapaz, que estava em contato com a namorada porque estava baixando filmes na internet para assistir com ela, ficou sem sinal no celular após a abordagem. Horas depois, ainda na noite de sexta-feira, o corpo do rapaz foi encontrado em uma comunidade próxima. 

Segundo um amigo de David, o corpo do jovem estava com sinais de tortura, além de tiros no peito e na cabeça. Somente no início da madrugada de sábado (25/4), os familiares o encontraram, depois que o corpo já havia sido retirado do local. 

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Dede era jovem, preto e da favela. “Mataram ele pela aparência. Não procuraram saber se realmente ele tinha feito algo de errado naquela noite, e pegaram o primeiro que viram”, afirma uma amiga de infância do rapaz que, por medo, não quis ser identificada. 

Em rede social, o jovem dividia suas publicações entre demonstrações do quanto que era fã do MC Kauan Coringa, o desejo de se tornar MC, além de informações sobre os novos produtos que comprava para vender no farol e textos sobre a pandemia do novo coronavírus. 

Quando soube da morte do vendedor ambulante, Mc Kauan usou o Instagram para prestar homenagem ao fã. “Mais um moleque firmeza que foi morar com Deus”, disse o cantor. 

Na homenagem de mais de cinco minutos na ferramenta story (de publicações que ficam por 24 horas), Kauan terminou com uma rima: “Se liga rapaziada, escuta o que vou dizer. Hoje o Coringa chora, com saudade do Dede”.

Em um dos shows de MC Kauan que David foi, o vendedor ambulante foi ao camarim do cantor para tirar foto. O MC, então, fez uma brincadeira com o rapaz, fingindo que ia tirar foto enquanto gravava o momento (vídeo abaixo)

O vendedor ambulante estava prestes a completar nove meses de namoro. No Facebook, a namorada publicou um trecho de uma música que o rapaz havia feito para ela. David deixa dois filhos de outros relacionamentos. 

Ponte questionou, na noite de sábado (25/4), a Polícia Militar sobre a abordagem ao rapaz e a morte logo depois. Na manhã deste domingo, a Secretaria de Segurança Pública enviou uma nota dizendo que “todas as circunstâncias relacionadas aos fatos são investigadas por meio de inquérito policial instaurado pelo 93º DP, responsável pela área e por meio de IPM instaurado pela Polícia Militar”. 

Sobre o vídeo que mostra David sendo abordado por policiais militares pouco antes de ser encontrado morto, a secretaria afirma que “está sob análise e a Corregedoria da PM acompanha o andamento das investigações”. 

Procurada pela reportagem, a Ouvidoria de Polícias de São Paulo disse que está ciente do caso e vai abrir procedimento para acompanhar as investigações da corregedoria da PM e da Polícia Civil.