Para pessoas negras, a pena de morte é uma sentença aplicada até no supermercado

Matheus Pichonelli
·3 minuto de leitura
Fist protesting on background of rainbow in skin colors. No racism concept. Different races protest, interracial community unity. Modern vector in flat style. Pride month
Foto: Getty Images

Na véspera do Dia da Consciência Negra, enquanto dois candidatos à prefeitura de Porto Alegre debatiam suas propostas na TV, um homem negro era espancado até a morte em um supermercado perto dali.

Nas imagens, é possível ver os criminosos, um PM à paisana e um segurança, descarregarem mais de três séculos de ódio sobre um corpo condenado à morte num país onde a pena capital, não prevista em lei, é aplicada diariamente a depender da cor da pele. No caso de João Alberto Silveira Freitas, o processo de acusação, direito de defesa, sentença e aplicação da pena, a pena de morte, veio em forma de murros e pontapés. Ele tinha 40 anos.

O assassinato de João segue o roteiro das imagens chocantes do assassinato, nos EUA, de George Floyd, asfixiado pelo joelho de um policial em seu pescoço. A cena provocou uma onda de protestos pelo país e foi determinante para a derrota de Donald Trump e seu flerte com os supremacistas brancos nas eleições dos EUA.

Por aqui, notícias do tipo são esquecidas conforme surgem novos casos de violência alimentada pelo racismo.

Quanto ódio é preciso carregar no peito para espancar uma pessoa até a morte?

As notícias relacionadas dão pistas de como tudo começa. Um dia, um cliente relata ter tomado um tapa na cara em um mercado. Em outro, um casal é obrigado a esvaziar uma bolsa com uma Bíblia para provar que não estava roubando.

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Em outro, uma jovem é enforcada por um funcionário de um supermercado, mas sobrevive. Outro relata que foi espancado na mesma rede.

O endereço muda, mas todos os casos têm um elemento comum: as vítimas eram pessoas negras. Sempre. Não foram as primeiras nem serão as últimas a serem humilhadas e/ou espancadas na meca do consumo onde direito a circular em paz tem cor, mas gera menos comoção e mobilização do que maus-tratos a animais.

Aos que circulam em paz não basta manifestar ojeriza à discriminação. É preciso assumir o discurso antirracista.

Há quem prefira chamar a revolta de “coitadismo”, como se ela furasse a lógica da narrativa da democracia racial em um país onde ninguém se reconhece ou assume como agente da discriminação --temos até amigos, repetimos, antes de compartilhar, como todo ano, o vídeo de Morgan Freeman dizendo que o racismo desaparecerá das vistas dos que o sentem na pele se evitarmos falar sobre ele.

O assassinato em Porto Alegre mostra o quanto a pauta antirracista é urgente no país e, sim, precisa ser debatida em primeiro plano sempre.

Nas últimas eleições, para prefeito e vereador, ficou evidente, mais uma vez, que apesar das novas regras e das muitas mobilizações, pessoas brancas ainda são a força hegemônica quando o assunto é representação política.

Nas três maiores cidades do país, candidatos que levaram à TV discursos mais abertamente antirracistas não tiveram chance nas urnas, casos de Major Denice em Salvador, Benedita da Silva, no Rio, e Orlando Silva, em São Paulo. Isso diz muito sobre o quanto falar sobre racismo ainda causa mais incômodo e indiferença do que mobilização.

Enquanto esta pauta for ignorada, o Brasil seguirá um país que aplica a pena de morte até no supermercado --sob o beneplácito dos que já correm para chamar o crime sistêmico de ato isolado e para dar aos assassinos a desculpa de que eles estavam sob efeito de medo, surpresa, violenta emoção ou remédios.

A estes devemos responder sempre e todos os dias: Vidas negras importam!

João não será esquecido.