A morte do filho de Walkyria Santos diz muito sobre quem somos enquanto sociedade

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Young Asian preteen teenager boy holding a smartphone and showing a stop sign with his hand, Stop cyber bullying concept, mental health problem
O filho sa cantora Walkyria Santos foi encontrado morto após receber uma série de comentários maldosos nas redes sociais (Foto: Getty Creative)

Este texto tem alerta de gatilhos para pessoas sensíveis sobre suicídio, assédio digital, bullying e hate virtual.

Este texto também é, além de uma reportagem, um pedido que os comentários maldosos e motivados pelo ódio parem. Se a sua opinião não vai melhorar, acrescentar, ou facilitar a vida do outro, ela não importa. Não a faça. Não a escreva. Não a compartilhe. Pessoas não são iguais e não lidam e absorvem a opinião do outro da mesma forma. Se ainda assim você quiser fazê-la, se olhe no espelho e a diga para você e poupe o outro. Parem de destilar ódio nas redes sociais. Caso você seja vítima de bullying ou hate, ou precise conversar e se ouvido, não hesite e ligue 188.

Falar de suicídio nunca é fácil. É doído, é triste e, muitas vezes, é um assunto ignorado. Mas em tempos de redes sociais, casos como o de Lucas, o adolescente de 16 anos, filho da cantora Walkyria Santos, que foi encontrado morto na última semana, não podem passar batidos. Principalmente quando se considera o papel das próprias redes sociais nesse contexto.

Claro, longe de nós pautarmos a morte de uma pessoa puramente nos comentários que ela recebe em vídeos ou fotos online. Walkyria comentou que o filho sofria de questões de saúde mental e que eles haviam, juntos, buscado um psicólogo. Importante notar que o suicídio nunca acontece "do nada", ele é sempre resultado de um quadro psicológico debilitado.

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E é aí que entra a vivência online. Lucas postou um vídeo com um amigo no TikTok e recebeu uma enxurrada de comentários maldosos e homofóbicos. O motivo? Os dois fingiam se beijar. O público, infelizmente, não perdoou as atitudes de um adolescente (que não precisam do perdão de ninguém, diga-se de passagem), e "destilou ódio", como disse a cantora, nos comentários. Logo depois, Lucas fez um segundo vídeo, se justificando e dizendo que tudo não passava de uma brincadeira, que ele o amigo eram héteros e que o objetivo dos dois era só fazer um vídeo engraçado.

Cyberbullying, suicídio e o papel das redes sociais

A cultura do cancelamento criou uma tendência curiosa (e extremamente maldosa) na internet. A pessoa que erra, seja em maior ou menor grau, seja um comentário homofóbico, uma visão política contrária ao que é considerado "bom" ou uma resposta atravessada a um seguidor é cancelada. Parece subjetivo, mas é mais prático do que parece. O cancelamento acontece quando os usuários das redes sociais decidem se voltar contra uma pessoa e usam as suas plataformas para se posicionarem contra ela. Você, com certeza, deve se lembrar de alguns casos que geraram bastante repercussão nesse sentido, como o de Karol Conká, que inclusive foi eliminada do "BBB 21" com o maior índice de rejeição da história do programa.

Para alguns, o cancelamento significa só um "unfollow" e seguir com a vida. Para outros, infelizmente, o cancelamento é igual a xingar de todas as formas possíveis a pessoa que errou na internet. Vimos isso, também, no caso de Whindersson Nunes. Quando perdeu o filho, quem sofreu com comentários absurdos foi Luísa Sonza, ex-do humorista, que recebeu mensagens de todos os tipos, muitas dizendo que a culpa da perda do bebê era dela.

Para outros ainda, o cancelamento não tem exatamente esse nome. Pode parecer mais com uma "correção" de uma ideia errada. Como no caso de Lucas, muita gente achou que dois meninos se comportarem da maneira como eles estavam se comportando era errado e se sentiram no direito de dizer o que pensavam sobre o assunto. Aqui, o caso não e exatamente um "cancelamento", mas pura homofobia, fruto de uma sociedade regida por um tipo de masculinidade tóxica. Por isso, entenda-se que homens não podem demonstrar afeto, carinho, não podem chorar, serem vulneráveis, e também não podem brincar, se divertir, sem que isso seja entendido como um traço de caráter (e um traço de caráter ruim).

Essa "correção" veio aos montes no vídeo de Lucas, um jovem de 16 anos, que tirou a própria vida horas depois.

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A adolescência, por si só, é uma fase complicada para todos. É um momento de descobertas, de novos entendimentos de consolidação da personalidade… é uma fase de muitas mudanças em que muita gente tenta entender minimamente quem é e encontrar a sua própria turma. Infelizmente, é nessa fase também que a falta de empatia e compreensão, o machismo, a homofobia e todas as atitudes repressoras decorrentes têm os seus efeitos: de acordo com a Organização Mundial de Saúde, o suicídio é a segunda principal causa de morte entre os jovens de 15 a 29 anos.

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos mostra que esses dados são ainda mais alarmantes quando se fala na comunidade LGBTQIA+: esses jovens contemplam o suicídio quase três vezes mais que a juventude heterossexual. Não só isso, mas as chances dessas pessoas agirem sobre os impulsos suicidas são cinco vezes maiores do que para o segundo grupo.

Não é difícil pensar no porque isso acontece. Falta de aceitação, muitas vezes dentro da própria casa. De acordo com uma pesquisa desenvolvida pela Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social da Prefeitura de São Paulo em 2019, entre 5 e 9%, aproximadamente, da população em situação de rua é LGBTQIA+, e 63% relataram sentir algum grau de rejeição da família quando saíram do armário. Considerando ainda que o Brasil é um dos países que mais mata pessoas trans e travestis no mundo inteiro, é de se imaginar as dificuldades de ser aceito, principalmente na adolescência.

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As redes sociais até se tornaram um meio para que as histórias dessas pessoas sejam conhecidas, para que busquem apoio e, porque não?, encontrem a sua própria comunidade. Ao mesmo tempo, virou uma bomba relógio: protegidos, muitas vezes, pela distância gerada por uma tela de computador e celular, falar barbaridades para alguém parece normal - afinal, no cara a cara a situação provavelmente seria diferente.

As gerações mais antigas dizem que o bullying "gera caráter". "Na minha época, não existia bullying", dizem alguns. No entanto, o bullying e, mais recentemente, o ciberbullying, virou motivo de preocupação no mundo inteiro. A UNICEF relata que uma em cada três crianças em 30 países diferentes já foram vítimas do bullying online - e uma em cada cinco mudou de escola por conta do ciberbullying e da violência decorrentes.

Um estudo desenvolvido no Reino Unido pela ONG Diana Award comprovou que em adolescentes na faixa etária de 11 a 16 (a mesma de Lucas) 17% dos que sofreram bullying consideraram tirar a própria vida como uma forma de fugir da perseguição constante. E tem mais: 78% afirmou que a situação causa ansiedade e mais 56% disseram que afeta o sono. Ou seja, queda no desempenho escolar e questões de saúde mental são totalmente justificadas diante de uma situação de bullying - o foco da criança sai dos estudos e da vivência social para se concentrar na angústia.

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E como evitar que isso aconteça de novo?

Aí começa um grande trabalho que não é individual, mas coletivo. Para evitar o bullying nas escolas, é necessário um casamento entre pais e escola, entre a educação em casa e na sala de aula, com diálogo, conversa, compreensão e busca de soluções. Tem a ver também com quebrarmos cada dia mais o tabu em cima das questões de saúde mental e considerar que os adolescentes precisam de suporte tanto quanto um adulto passando por um burnout. Existem as questões macro também… racismo e homofobia precisam ser combatidos com urgência, porque ambos matam muito mais do que deveria ser humanamente aceitável.

Tudo isso parece demais, mas, talvez, seja mais simples olhar para essas questões de forma pessoal a partir da empatia. É possível que a situação de Lucas não tivesse sido engatilhada se cada pessoa que deixou um comentário maldoso no TikTok se perguntasse: "como eu me sentiria se recebesse um comentário assim?". Pode ser uma exigência grande demais para alguns - e é possível que esse texto nem mesmo os alcance -, mas se pelo menos uma pessoa começar a questionar as próprias atitudes dentro e fora da internet, é o suficiente para estimular outras pessoas a fazer o mesmo.

No mais, vale o lembrete: caso você esteja passando por dificuldades ou conheça alguém em situação de vulnerabilidade psicológica, não hesite em buscar ou oferecer ajuda, na medida do possível. Também é possível recorrer ao CVV, o Centro de Valorização à Vida, discando 188.

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