Caso Adriano da Nóbrega: bandido bom é bandido vivo para contar o que sabe

O 'Capitão Adriano', morto em uma operação policial no domingo. Foto: Reprodução

Foragido desde que a Polícia Civil e o Gaeco, grupo especial do Ministério Público do Rio, deflagraram, no início do ano passado, a Operação Intocáveis, o ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega celebrava seu aniversário em uma mansão com a mulher e duas filhas em um condomínio da Costa do Sauípe, na Bahia, quando uma equipe de investigadores chegou ao local no último dia 31.

O suspeito escapou por uma área de mangue e desapareceu, deixando para trás uma carteira de identidade falsa.

O miliciano seria morto duas semanas depois, no sítio de um vereador do PSL onde montou esconderijo após passar uns dias em uma fazenda no interior da Bahia.

Desde então, as redes sociais se tornaram um manancial de teorias da conspiração sobre uma suposta queima de arquivo envolvendo o ex-PM, que chegou a ser homenageado por Jair Bolsonaro e que até 2018 empregava a mulher e a mãe no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro.

Segundo seu advogado, o foragido tinha medo de ser morto por queima de arquivo. “Ele disse que, se se entregasse, tinha certeza de que estaria morto no dia seguinte”, disse Paulo Catta Preta, seu defensor.

Morto por quem?

A mando de quem?

Por interesse de quem?

A operação policial não deixou margem para que ele fosse capturado e falasse o que sabia sobre esquemas de grilagem de terra, agiotagem e pagamentos de propina em Rio das Pedras, bairro da zona oeste do Rio dominado pela milícia que ele era acusado de liderar.

Leia mais no blog do Matheus Pichonelli

Preso, ele poderia falar sobre sua proximidade com o também ex-PM Fabrício Queiroz, ex-funcionário de Flávio Bolsonaro investigado por supostamente promover um esquema de “rachadinha” -- recolhimento de salários de funcionários fantasmas -- no gabinete do então deputado.

A polícia suspeita que as duas funcionárias que ele emplacou no gabinete entregaram a Queiroz mais de R$ 202 mil relativos a seus rendimentos.

Outra suspeita é que Queiroz recebia dinheiro de duas pizzarias do Rio que seriam controladas por Adriano -- algo em torno de R$ 70 mil. Os estabelecimentos estão registrados em nome da mãe do miliciano.

Além disso, foi em Rio das Pedras que Queiroz submergiu quando surgiram as primeiras notícias sobre a movimentação financeira atípica comandada por ele no gabinete.

Em junho do ano passado, a revista Veja revelou que Queiroz e Adriano eram investigados pelo assassinato de um técnico de refrigeração na Cidade de Deus, ocorrida em 2003. Eles trabalharam juntos por seis meses no 18º Batalhão da PM, no Rio. Testemunhas afirmaram à época que o homem foi morto por se negar a pagar propina para realizar um baile no local.

Em 2005, quando Adriano Nóbrega foi preso por matar um guardador de carros, Flávio Bolsonaro foi até a cadeia entregar ao assassino a Medalha Tiradentes, a mais prestigiosa comenda da Assembléia fluminense. Segundo o hoje senador, partiu de Queiroz tanto a ideia de homenagear o condenado como a de nomear suas parentes em seu gabinete.

O fato é que, antes de ser morto, o Capitão Adriano contou com uma rede de apoio para transitar entre condomínios de luxo, fazendas e condomínios da Bahia. O sítio onde finalmente foi localizado pertencia a um vereador do PSL, partido pelo qual Bolsonaro e seu filho foram eleitos em 2018.

Apesar do encalço que agora se tornou público, Adriano não constava na lista de bandidos mais procurados do país divulgada recentemente pelo ministro da Justiça Sergio Moro.

Adeptos da filosofia de que bandido bom é bandido morto, os Bolsonaro nada disseram sobre a morte do miliciano desde o derradeiro tiroteio. Diferentemente de outros casos, desta vez não houve loas à ação dos policiais.

O resultado da operação pode ter colocado uma pá de pal nessa rede que manteve o ex-policial abastecido com dinheiro e equipamentos, como uma coleção de celulares, para se comunicar sem deixar rastros. Uma pergunta óbvia ainda a ser esclarecida é com quem ele se comunicou neste tempo todo e como conseguiu se movimentar financeiramente a ponto de poder alugar uma casa em condomínio de luxo para se encontrar com a família.

Mas qualquer teoria sobre queima de arquivo esbarra no fato de que ela teria de contar com a anuência de quem comanda as polícias da Bahia e do Rio, que comandaram a operação. Essas forças de segurança são hoje comandadas por dois adversários de Bolsonaro, os governadores da Bahia, Rui Costa (PT), e do Rio, Wilson Witzel (PSC). 

O primeiro optou pelo silêncio. O segundo bateu bumbo. Segundo ele, a polícia chegou ao local para prender, “mas infelizmente o bandido que ali estava não quis se entregar, trocou tiros com a polícia e infelizmente faleceu”. “A Polícia do Rio de Janeiro mostrou que está em outro patamar”, comemorou.

Especialistas em segurança estranharam o desfecho da ação. Em entrevista à Folha de S.Paulo, o sociólogo José Cláudio de Souza Alves, professor da UFRJ e autor de “Dos Barões ao Extermínio - Uma História da Violência na Baixada Fluminense”, o cerco ao foragido era um quadro simplificado e não precisava terminar como terminou. O quadro envolvia espera, controle e dissuasão para que ele saísse de lá vivo. “Não dá para falar em operação policial de inteligência, mas sim de estupidez e ignorância”.

Na ignorância seguirão os que pretendiam saber como chegou, como se manteve e com quem contou Adriano da Nóbrega em sua fuga para a Bahia.