Morre o escritor Boris Pahor, testemunha dos horrores do Holocausto

O escritor italiano de língua eslovena Boris Pahor, que sobreviveu à barbárie nazista e narrou os horrores do século XX, morreu nesta segunda-feira (30) aos 108 anos em Trieste (norte da Itália).

A Itália homenageou o autor de Necrópole, a novela autobiográfica onde contou sua experiência nos campos de concentração nazistas, escrita em esloveno em 1966 e que teve que esperar mais de 20 anos para ser traduzida.

O maior expoente da língua eslovena, premiado em 1992 com o maior prêmio de literatura de seu país, o Prêmio Prešeren, sofreu perseguição fascista e deportação por ser esloveno, motivo pelo qual dedicou sua vida à defesa das minorias.

O presidente italiano Sergio Mattarella, que lhe concedeu o título de Cavaleiro da Grã-Cruz da Ordem do Mérito em 2020, relembrou sua vida e obra nesta segunda-feira, sendo "testemunha e vítima dos horrores causados pela guerra, nacionalismo e ideologias totalitárias", disse.

Autor de mais de uma dúzia de livros, a obra de Pahor frequentemente evoca a brutalidade e o horror do que testemunhou nos campos de concentração e sua culpa por ter sobrevivido.

Seu relato implacável do frio extremo, das doenças, da descida àquele inferno sofrido, tem afinidades com as obras do italiano Primo Levi e do espanhol Jorge Semprún, também sobreviventes.

Nascido em 26 de agosto de 1913 em Trieste, Pahor foi preso pelos nazistas em 1944 por fazer parte da resistência antifascista eslovena.

Ele foi detido em cinco campos de concentração, incluindo Natzweiler-Struthof, na região francesa da Alsácia,  e Dachau e Bergen-Belsen, na Alemanha.

- Defensor das minorias -

Trieste, que fazia parte do império austro-húngaro, foi historicamente uma cidade multiétnica e cosmopolita, mas após a Primeira Guerra Mundial o governo italiano iniciou uma verdadeira limpeza étnica, com a italianização forçada de nomes, sobrenomes e a expulsão de vários grupos étnicos da cidade.

"Sob a Áustria, os eslovenos puderam desenvolver sua cultura. Com a Itália, sabíamos que perderíamos tudo", disse ele à AFP em entrevista em 2009.

Quando adolescente em Trieste, percebeu que era um dos "bichos" que o ditador Benito Mussolini queria esmagar e, portanto, jurou fidelidade à sua identidade eslovena.

"Comecei a colocar a minha identidade no papel, a escrever na minha rua, no mar, nas docas. Conquistei a cidade em esloveno", confessou.

Pahor sempre foi comprometido politicamente, concorrendo nas eleições europeias e regionais pelo partido União Eslovena, representando a minoria eslovena na Itália, que tem cerca de 80.000 pessoas.

"Nesta Europa dominada pela economia, as minorias com sua cultura e sua língua não têm o lugar que merecem", disse à AFP na época.

Pahor é particularmente popular na vizinha Eslovênia, que se tornou independente da Iugoslávia após sua separação em 1991.

Sobre sua excepcional longevidade, em 2018 confessou ao jornal italiano Corriere della Sera que "desde que saí vivo dos campos de concentração sou indiferente à passagem do tempo (...). Não paro, olho sempre adiante", afirmou.

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