Morre o diretor francês Jean-Marie Straub, que fez dupla com Danièle Huillet, aos 89

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Morreu na madrugada deste domingo (20) o cineasta francês Jean-Marie Straub, aos 89 anos, na cidade suíça de Rôlle. Ao lado de sua mulher, Danièle Huillet, ele escreveu, fora do circuito das grandes produtoras, uma importante obra cinematográfica, que relacionou outras artes ao cinema, dando vazão ao seu engajamento marxista. A causa da morte não foi divulgada.

Influenciados por Jean Renoir e Jean Grémillon, "Les Straub" —ou os Straub—, como eram conhecidos, produziram filmes como "Crônica de Anna Magdalena Bach", de 1968, e "Relações de Classe", de 1984, e "Gente da Sicília", de 1999.

O casal renovou a linguagem cinematográfica, testando os limites do cinema. Experimentando som e imagem, eles reescreveram peças de teatro, música e ópera, além de textos literários em geral, de Franz Kafka, Cesare Pavese e Bertolt Brecht.

As artes plásticas também são temas de documentários como "Uma Visita ao Louvre", de 2004, e "Cézanne", de 1990.

Ficaram célebres ainda suas adaptações de clássicos da literatura mundial, como "Antígona", de 1992 —a partir da peça de Sófocles— "Moisés e Aarão", de 1975 —baseado no libretto de Arnold Schönberg— e "A Morte de Empédocles", de 1987 —adaptada da peça de Friedrich Hölderlin, e que ousou não só na encenação, mas também ao trazer atores como William Berger, austríaco então conhecido por westerns spaghetti.

Nascido em 1954 na cidade de Metz, Straub ingressou na juventude no círculo de cinéfilos de Paris. Amigo do cineasta François Truffaut, ele também passou a escrever críticas para a revista Cahiers du Cinéma, por onde todo o pensamento cinematográfico da época escoava. Já naquela época, Straub era conhecido pela radicalidade, tanto que Truffaut se negou a publicar na revista uma de suas críticas mais inflamadas.

No início da carreira, trabalhou como assistente de Renoir e chegou a participar da produção de "O Truque do Pastor", de Jacques Rivette, em 1956. Dois anos antes, ele conhecera Huillet, com quem se casaria em 1959. Juntos, eles rodariam 24 filmes.

O casal de cineastas, que por vezes também iam para a frente da câmera em suas produções, foram registrados pelo cineasta português Pedro Costa no filme "Onde Jaz o teu Sorriso?", de 2001. O casal aparece trabalhando na moviola na remontagem de "Gente da Sicília", entre fotogramas e projeções de seus trabalhos.

O último curta-metragem lançado por Straub foi "La France contre les robots", a partir do texto de "A França Contra os Robôs", de Georges Bernanos, em que um homem caminha às margens do lago Leman e declama um trecho do livro em duas situações de luminosidade diferentes.

Cineasta de estatura comparável ao português Manoel de Oliveira e ao francês Jean-Luc Godard, Straub e Huillet deixam mais de 50 filmes, entre longas, curtas e documentários, que souberam filmar a palavra de maneira ímpar.