Morre o diplomata Affonso Arinos de Mello Franco, membro da ABL, aos 89

JÚLIA BARBON

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Morreu na manhã deste domingo (15) o escritor, diplomata e político Affonso Arinos de Mello Franco, 89, que ocupava a cadeira número 17 da Academia Brasileira de Letras (ABL).

Segundo parentes, ele faleceu por volta das 10h em sua casa, no Rio de Janeiro, em razão de problemas respiratórios.

O enterro ocorrerá na segunda-feira (16) no mausoléu da Academia Brasileira de Letras. Não será realizado velório em razão da recomendação das autoridades de saúde de se evitar reuniões e aglomerações durante a pandemia do coronavírus.

O único representante da Academia que deve comparecer é o presidente Marco Lucchesi, já que os membros são idosos e portanto fazem parte do grupo de pessoas com maior risco de prejuízos à saúde em razão da ação do vírus.

Nascido em Belo Horizonte em 1930, Affonso Arinos foi eleito para a ABL em julho de 1999, sucedendo Antonio Houaiss. Tomou posse em novembro do mesmo ano e foi recebido pelo acadêmico José Sarney.

Ele é filho do também imortal Afonso Arinos de Melo Franco (1905-1990), importante jurista, político, historiador, professor, ensaísta e crítico. É avô dos jornalistas Bernardo Mello Franco, colunista do jornal O Globo, e Luiza Mello Franco.

O ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso lamentou a morte do acadêmico.

“Fui colega de Affonso Arinos Filho na ABL e de seu pai, de quem levava o nome, na Assembleia Nacional Constituinte e no PSDB. Seu avô, creio, foi colega de meu avô no seminário religioso de Paracatu, onde estudaram", diz.

"Affonsinho, como era chamado, foi escritor e memorialista. Homem culto e educado, teve amigos em vários setores do país, notadamente entre poetas e músicos. Vinicius do Moraes (que também foi diplomata) foi seu amigo próximo. Combativo, como foram os seus, nunca, entretanto, perdeu a elegância. Deixa muitas obras (uma inclusive sobre o Brasil holandês) e mais ainda, saudades”, afirma o ex-presidente.

Rubens Ricupero, ex-ministro do Meio Ambiente e da Fazenda (governo Itamar Franco), e ex-embaixador em Genebra, Washington e Roma e atual diretor da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), lembrou da atuação de Affonso Arinos no Congresso.

“Affonso Arinos foi um misto de diplomata e de político. Nos anos 1960, exerceu vários mandatos de deputado. Na época do governo Castelo Branco [1964-1967], o governo americano do presidente Johnson estava pressionando muito o Brasil a participar da guerra do Vietnã, chegou até a enviar ao Brasil um emissário de alto nível. O Affonso Arinos, que era deputado na época, alertou Bilac Pinto, que era o presidente da Câmara dos Deputados, e o Bilac Pinto se mobilizou junto ao governo para não aceitar o pedido”.

Segundo Ricupero, naquele período o Brasil tinha uma política externa em relação aos EUA semelhante à do atual governo. “Foi um outro momento em que o governo brasileiro tinha escolhido o alinhamento incondicional com o governo americano, e em nome disso participamos da intervenção americana em São Domingos”.

“O Affonso Arinos, fiel ao espírito do pai e da política externa independente, era um crítico desse alinhamento e teve um papel bastante decisivo em mobilizar a oposição a que o Brasil participasse da Guerra do Vietnã, o que teria sido um desastre”, afirma o ex-ministro.

Amigos da Academia lamentaram o falecimento, lembraram momentos alegres e disseram que já fazia alguns anos que ele não se reunia com os demais, após a morte de sua esposa e uma piora em seu estado de saúde. "Sentimos muito a falta dele, porque ele era muito atuante, trazia boas ideias e tinha muita história para contar", afirmou Merval Pereira, secretário-geral da ABL.

Merval escreveu o prefácio do último de seus livros, "Tramonto" (Editora Objetiva, 2013), que significa pôr do sol em italiano. "É um dos livros mais bonitos que li nos últimos tempos. É de uma tremenda sensibilidade e inteligência, mistura política com memórias, é fantástico", elogiou.

A socióloga, psicóloga e filósofa Barbara Freitag-Rouanet lembra que ele era um ótimo cantor. "Perdemos um grande amigo e um grande diplomata. Os momentos fora do trabalho e da atividade literária foram sempre muito alegres.​ Nós cantávamos e jantávamos juntos", disse ela, também em nome do marido e membro da ABL Sérgio Paulo Rouanet.

A escritora e imortal Nélida Piñon lamentou o fato de não poder comparecer ao velório por causa do coronavírus: "Vamos homenageá-lo tão logo sejamos liberados dessa quarentena. Vamos abrir as portas da sessão plenária em homenagem a ele". A ABL decidiu fechar as portas na quinta (12).

​Assim como seu pai, Affonso Arinos construiu a vida profissional e acadêmica em múltiplas áreas. Na década de 1950, formou-se em ciências jurídicas e sociais e fez doutorado na faculdade de direito da Universidade do Brasil (hoje UFRJ). Também fez cursos de diplomacia do Instituto Rio Branco, do Ministério das Relações Exteriores.

Fora do Brasil, estudou política, direito e comércio internacional nas Nações Unidas em Nova York e mais tarde em Roma e Genebra. Continuou em salas de aula até 1980, passando por uma pós-graduação em economia na Fundação Getulio Vargas e por cursos na Escola Superior de Guerra, do Ministério da Defesa.

Atuou como diplomata a partir de 1952, começando como cônsul de terceira classe. Também trabalhou nas áreas jornalística, cultural, legislativa e docente --em 1964 e 1965 ​, foi professor de civilização contemporânea no departamento de jornalismo da Universidade de Brasília.

Foi correspondente do Jornal do Brasil em Roma​ e colaborou com diversos veículos, como a revista Manchete, a revista Fatos e Fotos/Gente, a TV Educativa, a TV Manchete e o Jornal do Commercio.

Nos anos 1960, foi deputado da Assembleia Constituinte e Legislativa do Estado da Guanabara (hoje RJ) e se destacou como membro da Comissão de Constituição e Justiça e como presidente da Comissão de Educação. De 1964 a 1966, foi deputado federal.

Affonso Arinos teve seis filhos, onze netos e um bisneto.​