Morre Nelson Freire, um dos maiores pianistas do mundo, aos 77, no Rio de Janeiro

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***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 28.11.2017 - O pianista Nelson Freire durante concerto beneficente em prol do Centro Israelita de Apoio Multisciplinar. (Foto: Mastrangelo Reino/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 28.11.2017 - O pianista Nelson Freire durante concerto beneficente em prol do Centro Israelita de Apoio Multisciplinar. (Foto: Mastrangelo Reino/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O músico Nelson Freire, um dos maiores pianistas do mundo, morreu na madrugada desta segunda (1º), em sua casa, no Rio de Janeiro.

A informação foi confirmada pela empresária do artista, que não deu detalhes da causa da morte.

No fim de 2019, o músico fraturou um osso do braço direito e passou por uma cirurgia de quatro horas. Apesar de a operação ter sido bem-sucedida, pessoas próximas contam que o pianista entrou em depressão.

A pianista argentina Martha Argerich chegou a ir ao Rio de Janeiro passar um tempo com o amigo. Ela chamou Arthur Moreira Lima para assumir seu lugar na banca do Concurso Chopin, uma das mais importantes competições musicais do mundo, em Varsóvia, para que ela pudesse estar perto de Freire.

Uma das últimas apresentações ao público foi em outubro de 2019, em Belo Horizonte, logo antes da fratura no braço.

"Tive o privilégio de agendar Nelson Freire diversas vezes em Belo Horizonte. Contudo, jamais poderia supor que os três recitais que programei [no teatro do Minas Tênis Clube] em outubro de 2019, na semana em que o artista festejou seu aniversário de 75 anos, estariam entre suas últimas aparições em público", conta a pianista Celina Szrvinsk.

Segundo o ela, o teatro lotou durante as apresentações, e o clima não foi de despedida, mas de alegria, já que o artista iria reencontrar família e amigos em um almoço de comemoração de seu aniversário. Freire teve de cancelar apresentações em São Paulo, Goiânia e Rio de Janeiro.

Foram canceladas também as apresentações em Girona, na Espanha, e em Elmau, na Alemanha, no fim de novembro, e em Londres, Amsterdã, Lyon, na França, e São Petersburgo, onde faria, em dezembro, concerto com a Orquestra do Teatro Mariinski, sob regência de Valéry Gergiev.

"Na minha opinião, o Nelson era o pianista em melhor forma da atualidade no mundo, e não apenas no Brasil", conta o maestro e também pianista João Carlos Martins. "Eu sei que recentemente ele passou por uma época bastante depressiva, não estava nem atendendo telefone... Mas o importante é que a obra dele está eternizada nas gravações, que são o que há de melhor."

Em suas redes sociais, a Fundação Osesp lamentou a morte "do grande pianista brasileiro, Nelson Freire. Reconhecido internacionalmente como um dos maiores gênios da atualidade no campo das artes, foi um orgulho da música e dos músicos brasileiros".

"Parceiro e amigo, de sorriso simpático e poucas palavras, mas de convivência fácil, Nelson sempre abrilhantou nossos concertos na Sala São Paulo e em turnês pelo mundo. Sua inspiração ficará eternamente registrada nos corações dos músicos, colaboradores e do público da Osesp", segue a postagem.

João Moreira Salles afirma que o filme que fez sobre Freire representou uma virada temática em sua trajetória como diretor. "Os documentários que eu vinha fazendo até então tratavam de desordem, de violência e de desagregação. Tive vontade de filmar o contrário daquilo e Nelson foi o caminho. Ele encarnava valores de um humanismo essencial a todo projeto de civilização decente —a transmissão da beleza, o imperativo moral do trabalho bem feito, a recusa a toda vulgaridade e espalhafato."

"Um presidente que tira a máscara de um bebê e força uma criança a fazer uma arma com as mãos é uma imagem verdadeira e poderosa do país. Mas não é a única. Nelson Freire, o pianista, não o filme, representava e representa —nos discos, nos registros dos concertos, na vida discreta que levou— uma outra face do Brasil, o lado capaz de nos salvar. Seu talento não está ao alcance de maioria de nós, mas a honradez, sim", afirma o documentarista.

Tendo começado a estudar piano desde cedo, Nelson Freire, aos 12 anos de idade, foi o sétimo colocado no Concurso Internacional de Piano do Rio de Janeiro. Logo em seguida, ganhou uma bolsa de estudos para estudar em Viena.

Ao final da década de 1950, Freire já fazia recitais e concertos nas capitais europeias e se apresentava com célebres regentes como Isaac Karabtchevsky e Rudolf Kempe.

No ano de 1964, Freire ganhou o Concurso Internacional de Piano Vianna da Motta em Lisboa e recebeu, em Londres, as medalhas de ouro Dinu Lipatti e Harriet Cohen.

Três anos depois, a vida de Freire foi marcada por uma tragédia. Em setembro de 1967, Nelson Freire e sua família sofreram um acidente de ônibus quando viajavam do Rio de Janeiro para Belo Horizonte. Seus pais, José e Augusta Freire, foram duas das 13 vítimas que não sobreviveram.

Entre as orquestras com as quais Nelson Freire se apresentou estão a Filarmônica de Berlim, a Orquestra Sinfônica de Londres, a Orquestra Filarmônica de São Petersburgo e a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo.

Seu álbum de interpretações de composições de Chopin foi elogiado pela crítica internacional e recebeu os prêmios Diapason d’Or e Choc, do periódico francês Monde de la Musique.

Em 1988, a gravadora Philips o incluiu na coleção "Great Pianists of the 20th Century", que tinha o objetivo de fazer o sumário das melhores gravações de concertos de piano do século passado.

Em 2007, Freire venceu na categoria de disco do ano o Gramophone Awards, um dos maiores prêmios internacionais da indústria fonográfica, com seu álbum que inclui um par de concertos de Brahms ao lado da Orquestra Gewandhaus, de Leipzig, na Alemanha.

Nelson Freire deixa o marido, o médico Miguel Rosário, e um irmão. O velório do pianista ocorrerá amanhã, das 11h às 16h, no foyer do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

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