Morre Milton Gonçalves, ator de 'Macunaíma', 'Selva de Pedra' e 'Irmãos Coragem'

*Arquivo* SÃO PAULO, SP, 28.02.2012 - A ator Milton Gonçalves. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)
*Arquivo* SÃO PAULO, SP, 28.02.2012 - A ator Milton Gonçalves. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Morreu o ator Milton Gonçalves aos 88 anos, nesta segunda-feira, em sua casa no Rio de Janeiro. A informação foi confirmada pela assessoria da TV Globo.

O ator teve um AVC em 2020, chegou a ficar três meses internado e precisou de aparelhos para respirar. Desde então, enfrentava complicações de saúde. Nascido em 9 de dezembro de 1933, na cidade de Monte Santo, Minas Gerais, foi casado por 50 anos com Oda Gonçalves, morta em 2013, com quem teve três filhos.

Ele ficou célebre pela vasta carreira no teatro, no cinema e na televisão, tendo atuado em dezenas de novelas da TV Globo, como "Irmãos Coragem", "Sinhá Moça" e "O Rei do Gado". Também estrelou grandes filmes do cinema nacional, como "Macunaíma", interpretando Jiguê, irmão do protagonista, e "O Anjo Nasceu", como o bandido Urtiga, ambos de 1969.

Gonçalves se mudou com a família para São Paulo ainda criança e foi aprendiz de sapateiro, de alfaiate e até gráfico. Seu interesse pela profissão de ator começou aos 21 anos, quando ganhou do amigo um ingresso que havia acabado de imprimir na gráfica onde trabalhava. Foi ao teatro, na praça da República, em São Paulo, e se encantou de forma definitiva.

Mesmo já tendo conhecido antes o cinema como espectador, ele se surpreendeu com os atores reais, em carne e osso, representando no palco do teatro, o que pareceu a ele ainda mais intenso. Decidido a seguir carreira, conseguiu um papel num infantil, "O Soldado de Chocolate".

Para essa primeira oportunidade, ter a pele negra facilitou a entrada. Depois, ao longo de toda a carreira, lutou pela valorização dos atores negros. No mesmo palco em que estreou, ganhou um papel em "O Dote", de Arthur Azevedo.

Durante a temporada de "O Príncipe e o Lenhador", o dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri o conheceu, direto da plateia —e gostou do que viu. Levou Gonçalves para o Teatro de Arena, onde fervia a arte e a militância política dos anos 1950 e 1960.

Lá, o ator trabalhou sob a direção de Augusto Boal em "Ratos e Homens", baseado no romance de John Steinbeck, e, em "A Mandrágora", depois de fazer o papel de um escravo, acabou substituindo o próprio Guarnieri.

Em 1958, o mineiro nascido numa família de poucas posses, se mudou para o Rio de Janeiro, que considerava um canto mais democrático e menos preconceituoso do que São Paulo.

Ele se apaixonou pela cidade e, sete anos depois, foi chamado para trabalhar numa televisão que começava na rua Pacheco Leão —a TV Globo. Ali, todo o conhecimento adquirido em palcos, coxias e cabines de luz se transformou em trabalho diário. Como ator, brilhou em trabalhos como "Pecado Capital", "Selva de Pedra", "Baila Comigo", "Carga Pesada", a versão original de "A Grande Família". Foram mais de 60 novelas e séries. Foi diretor também, como em "Irmãos Coragem" e "A Escrava Isaura", entre outros.

Com "Sinhá Moça", de 2006, chegou a receber indicação para o prêmio de melhor ator no Emmy Internacional. Não venceu a estatueta, mas fez uma pequena participação na apresentação do evento —e foi o primeiro brasileiro a fazer isso.

Militante ferrenho pelas causas antirracistas, chegou a se candidatar ao cargo de governador do Rio de Janeiro, em 1994, pelo MDB. Antes havia tentado se eleger deputado federal. Acabou se concentrando novamente na desestigmatização do negro na arte —e na vida. E frequentou desde sempre o candomblé.

Dentre suas atitudes para melhorar a representação dos negros no audiovisual, sugeriu em 1975 que dessem a ele um papel em que vestisse terno e gravata e tivesse todos os dentes. Mesmo sendo negro. Dali surgiu o inesquecível doutor Percival, de "Pecado Capital", novela de Janete Clair.

Entre os trabalhos no cinema, se destacam os papéis em "O Grande Momento", "Macunaíma" e "A Rainha Diaba", pelo qual foi premiado no Festival de Brasília. Participou de cerca de 50 filmes.

Dentre os últimos trabalhos de Milton Gonçalves estiveram a novela "O Tempo Não Para", de 2018, a série "Carcereiros", além de ter participado dos filmes "Pixinguinha, Um Homem Carinhoso" e "Hermanoteu na Terra de Godah: O Filme".

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