Morre Marília Mendonça em acidente de avião no interior de Minas Gerais

·7 min de leitura
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 24.11.2017 - Show da cantora Marília Mendonça na cidade de Bauru, no interior paulista. (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 24.11.2017 - Show da cantora Marília Mendonça na cidade de Bauru, no interior paulista. (Foto: Adriano Vizoni/Folhapress)

RIBEIRÃO PRETO E SÃO PAULO, SP, BELO HORIZONTE, MG, E PORTO ALEGRE, RS (FOLHAPRESS) - Marília Mendonça, conhecida como a rainha da sofrência e uma das maiores vozes da música brasileira contemporânea, morreu aos 26 anos na tarde desta sexta-feira (5). A informação foi confirmada pelo Corpo de Bombeiros de Minas Gerais em nota enviada à imprensa.

Mendonça foi uma das cinco vítimas de um acidente de avião que caiu numa serra em Piedade de Caratinga, a 309 quilômetros de Belo Horizonte. A cantora tinha um show marcado para esta noite em Caratinga, a cerca de dez quilômetros do local do acidente.

Mendonça deve ser velada a partir das 8h deste sábado no Ginásio Valério Luiz de Oliveira, conhecido como Goiânia Arena.

A queda ocorreu por volta das 15h. A princípio, não se sabia se era a cantora quem estava a bordo da aeronave. Foi a semelhança do bimotor visto num vídeo que ela tinha compartilhado no Instagram duas horas antes que despertou a dúvida. Em tom cômico, a publicação mostrava Mendonça embarcando e se alimentando.

Tão logo os jornalistas entraram em contato com a assessoria de imprensa de Menonça, esta confirmou que era, sim, a cantora que estava a bordo do avião, mas informou que ela havia sido resgatada com vida e passava bem.

Por volta das 18h, porém, a assessoria voltou atrás e confirmou a morte da cantora, que deixa Leo, seu único filho, da união com o também cantor e compositor Murilo Huff.

Foi nesta ocasião que também foram confirmadas as mortes do produtor de Mendonça, Henrique Ribeiro, e de seu tio, Abicieli Silveira Dias Filho, além do piloto Geraldo Martins de Medeiros e do co-piloto Tarcísio Pessoa Viana.

A aeronave caiu próximo a uma cachoeira ao tentar realizar um pouso forçado, afirmou Jefferson Luiz Ribeiro, capitão da Polícia Militar. Segundo Ribeiro, o piloto teve problemas ao aterrissar no aeroporto, localizado a cerca de dois quilômetros do local do acidente.

O trabalho de resgate foi desafiador devido à dificuldade de locomoção imposta pelas pedras e pela correnteza da cachoeira. Havia o risco de que a aeronave descesse pelo curso d'água, motivo pelo qual ela precisou ser estabilizada com cordas antes de as vítimas serem socorridas. Já eram cerca de 19h30 quando o quinto e último corpo foi retirado dos destroços.

À imprensa, o delegado regional da Polícia Civil em Caratinga, Ivan Sales, afirmou que uma equipe do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos, o Cenipa —ligado à FAB, a Força Aérea Brasileira— desembarca na cidade na manhã de sábado (6) para dar início à apuração das causas do acidente.

Segundo Sales, os investigadores vão vistoriar não só o local em que a aeronave parou depois de tentativa de pouso forçado, mas também a área da torre de transmissão de energia atingida pela aeronave antes da queda, ambos preservados para a atuação dos investigadores.

Segundo a Cemig, empresa distribuidora de energia de Minas Gerais, a colisão contra a torre de energia pode ter sido a causa do acidente.

Sales informou ainda que o trabalho de necropsia deve ser concluído nesta madrugada, de modo que os corpos sejam liberados para as famílias na manhã. Ele disse que as equipes de resgate encontraram a cantora e sua equipe já mortos quando adentraram o avião após o acidente.

O médico-legista Pedro José Fernandes Nunes Coelho, responsável pelas autópsias, afirmou que ainda não é possível afirmar qual tipo de ferimento causou as mortes. "Foi um acidente com uma energia de grande impacto que causou diversos traumas nos ocupantes da aeronave."

Dedicados, os fãs de Mendonça também se deslocaram até o local do acidente. Alguns deles estiveram, na verdade, entre as últimas pessoas com quem a cantora fez contato antes de embarcar no avião. Ela telefonou para cinco fã-clubes ao lançar, no fim da manhã, o clipe da música "Fã Clube", que canta com as amigas Maiara e Maraísa numa das parcerias do projeto "Patroas", com o qual elas voltariam aos palcos juntas no ano que vem.

Fabricado em 1984, o bimotor que transportava Mendonça é da PEC Táxi Aéreo, uma empresa com sede em Goiânia, cidade onde a cantora vivia e de onde tinha decolado. A firma tinha autorização para realizar o serviço de táxi aéreo, segundo a Anac, a Agência Nacional de Aviação Civil.

A aeronave, de modelo C90A, custa em torno de US$ 2,5 milhões, o equivalente a R$ 13,8 milhões. Raul Marinho, gerente técnico da Abag, a Associação Brasileira de Aviação Geral, afirma que este é um dos modelos de bimotores mais seguros do mundo.

Marília Mendonça ficou conhecida como a principal voz do feminejo, uma vertente do sertanejo em que as mulheres são protagonistas, ao lado de Naiara Azevedo, Simone e Simaria e Maiara e Maraísa.

Nos últimos anos, ela se tornou uma das cantoras mais ouvidas do país, dona de hits como "Infiel", "Todo Muno Vai Sofrer", "Ciumeira", "Bebi Liguei", "Supera" e "Graveto", entre outros.

A cantora começou a carreira há cerca de dez anos, ainda adolescente, como compositora, sendo gravada por gigantes do sertanejo como Jorge e Mateus e Henrique e Juliano.

Seu primeiro DVD saiu em 2015, revelando ao Brasil o hit "Infiel", que foi uma das músicas mais ouvidas de 2016. Dali em diante, sua popularidade só cresceu e, no ano seguinte, aos 22 anos, Mendonça se tornou a artista mais ouvida do país.

Mendonça cantava a traição e o sofrimento por amor do ponto de vista feminino. "Não ia adiantar passar por um sofrimento, ser traída ou trair, e cantar sobre o príncipe encantado", ela disse à Folha em 2017.

"Infiel" foi inspirada por uma tia de Mendonça que havia sido traída pelo marido. Ao contrário do que era comum entre as mulheres do sertanejo, a cantora buscava cantar o que chamava de "realidade" dos relacionamentos —ou seja, não aqueles que deram certo, mas os que deram errado.

Uma das ideias de Mendonça era levar sua música a todo o país. Entre 2018 e 2019, ela gravou shows em gratuitos em praças públicas de todas as capitais do Brasil, reunindo centenas de milhares de pessoas. As gravações resultaram em seu quarto álbum ao vivo, "Todos os Cantos", puxado pelo hit "Ciumeira", faixa que tem uma das frases mais marcantes de suas músicas —"a verdade é que amante não quer ser amante".

Em outra música do álbum, "Bebaça", ela dividiu os microfones com a dupla Maiara e Maraísa, cantando sobre amigas que beberam demais numa noitada. As bebedeiras são temas recorrentes no sertanejo, mas historicamente nas músicas eram reservadas a eu-líricos masculinos.

"Supera", assim como "Bebaça", traz um diálogo entre amigas, e Mendonça se posiciona como uma conselheira. "Para você isso é amor, mas para ele isso não passa de um plano B/ ele está fazendo de tapete o seu coração/ promete pra mim que desta vez você vai falar ‘não’/ de mulher pra mulher, supera."

Com Maiara e Maraísa, Mendonça comandou o projeto Patroas, um marco do feminejo, reunindo algumas das cantoras mais relevantes da vertente. O trio lançou um álbum em 2020 e recentemente havia acabado de anunciar uma turnê nacional para o pós-pandemia e um novo disco, chamado "Patroas 35%".

Em 2018, ela escreveu e gravou "Cuidando de Longe", faixa em que divide os vocais com Gal Costa, fã declarada da cantora. Além de duplas sertanejas como Simone e Simaria, Zé Neto e Cristiano e Jorge e Mateus, ela também gravou com diversos artistas de outros gêneros, como Ivete Sangalo, Tierry, Leo Santana, Xamã e Péricles, entre outros.

No ano pandêmico de 2020, Marília Mendonça teve a live mais assistida do planeta, superando o grupo coreano BTS e o tenor italiano Andrea Bocelli, além de sertanejos como Jorge e Mateus. Os números não surpreendem, já que Mendonça estava acostumada a colecionar centenas de milhões de visualizações em suas músicas e estar com frequência nas listas de mais tocadas do país.

Ao longo dos anos, Mendonça foi compondo menos e se dedicando mais ao canto, que ela também dominava com maestria. Sua voz é a mais marcante da música sertaneja nos últimos anos, além de uma das mais reconhecidas de toda a música brasileira contemporânea.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos