Morre Manolo Florentino, historiador que lançou novos olhares sobre a escravidão

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BELO HORIZONTE, MG, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Morreu nesta sexta-feira (12), o historiador Manolo Florentino, no Rio de Janeiro. Especializado em estudos africanos e em escravidão no Brasil, foi professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, de onde se aposentou em 2019, além de ter sido presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa entre 2013 e 2015. Ele também foi colunista do jornal Folha de S.Paulo, no extinto caderno Mais!. A atual presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa, Letícia Dornelles, publicou nota de pesar nas redes sociais da instituição, chamando-o de "amigo, conselheiro, importante intelectual brasileiro". O Instituto de História da UFRJ publicou, em nota, que o professor deixou "marcas indeléveis nas instituições em que trabalhou" e que "Manolo marcou definitivamente a historiografia brasileira. Demonstrou que a escravidão e o tráfico, longe de produzirem apenas uma sociedade separada entre senhores e escravos, geravam estruturas sociais profundamente desiguais e excludentes em diversos níveis, e dos dois lados do Atlântico. Sua produção é indispensável para estudiosos da escravidão transatlântica". Florentino é conhecido pela sua contribuição nos estudos sobre a escravidão. "Foi um dos grandes mestres que revolucionaram uma área muito promissora da historiografia brasileira, que é a historiografia da escravidão. Manolo era um pesquisador muito importante no que se refere à história da escravidão no Brasil mas também pelas Américas", diz a historiadora Lilia Schwarcz. "Nos últimos 30 anos revolucionou a concepção do que é escravidão, mostrando sim como os escravizados eram vítimas, mas também como tinham ação, como tinham relevância." O historiador escreveu livros como "Em Costas Negras" (Ed. Unesp), sobre como o tráfico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro era viabilizado pela existência de relações desiguais de poder já na própria África, lembra Schwarcz. Em outro título, "O Arcaísmo como Projeto" (Ed. Civilização Brasileira), o autor faz uma relação entre o mercado atlântico, a sociedade agrária e a elite mercantil. "A Paz das Senzalas" (Ed. Unesp), além de mostrar os horrores da escravidão, dá rostos para os agentes que viabilizaram o tráfico, diz a historiadora. Florentino também era colaborador do site Slave Voyages, um importante banco de dados que esmiúça mais de 36.000 expedições negreiras entre 1514 e 1866.