Morre artista luso-brasileiro Fernando Lemos, aos 93 anos

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 25.08.2018: O artista Fernando Lemos durante abertura da exposição

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O artista luso-brasileiro Fernando Lemos morreu na tarde desta terça (17) no Hospital São Luiz, em São Paulo, aos 93 anos, devido a complicações decorrentes de uma infecção renal. A informação foi confirmada pela sobrinha do artista, Carolina Overmeer.

Lemos havia se mudado para o Brasil em 1953, aos 27 anos, fugindo da ditadura de Salazar em Portugal.

Àquela altura, era conhecido pelas fotografias surrealistas, que iam de imagens cotidianas, transformadas por efeitos de luz, a retratos de intelectuais e artistas ligados ao movimento, como os poetas Sophia de Mello Breyner Andresen e Mário Cesariny, ou o artista Carlos Ribeiro.

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, em 2009, Lemos explicou que aquilo era uma forma de escapar à repressão do regime salazarista. "O surrealismo me atrai por seu sentido de liberdade plena. E, quando você nasce dentro de uma ditadura, você começa a ver na liberdade uma coisa mais que divina", afirmou na ocasião.

Para Rosely Nakagawa, que organizou uma retrospectiva do artista no Sesc Bom Retiro, essa busca vai além da libertação. "Podemos dizer que ele viveu em busca da subversão das regras. Esse foi seu motor."

A mudança para o Brasil representou uma guinada na carreira do português. No Rio de Janeiro e, depois, em São Paulo, ele voltou sua produção para o desenho, a gravura e a pintura, criando composições abstratas, muitas delas evocando signos gráficos.

Segundo Rubens Fernandes Júnior, diretor da Faap (Faculdade de Comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado), essa inflexão aconteceu porque o Foto Cine Clube Bandeirantes, que reunia fotógrafos modernos na capital paulista, era muito fechado.

"Ele já chega aqui moderno, surrealista até, num momento em que a fotografia brasileira está despontando para a modernidade", afirma.

Além da fotografia e da pintura, Lemos trabalhou como ilustrador e como designer. Foi um dos fundadores da Associação Brasileira de Desenho Industrial, que presidiu de 1968 a 1970, e lecionou artes gráficas na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.

O português ainda se aventurou na prosa e na poesia. E teve um papel importante como agitador cultural em São Paulo, conta Tânia Martuscelli, professora da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, que prepara uma biografia sobre o artista, ainda sem editora, a ser lançada no primeiro semestre de 2021.

“A formação da cultura paulistana e a repercussão disso no país fizeram parte da vida dele. Ele estava presente na época das exposições do Quarto Centenário [na Oca, no parque Ibirapuera, em 1954], pintou quadro da Tarsila do Amaral porque ela não alcançava a parte de cima”, diz Martuscelli.

Ela acrescenta que o multiartista também acompanhou a fundação de instituições como a Bienal de São Paulo, o Masp e o CCSP, o Centro Cultural São Paulo, do qual foi diretor nos anos 1970.

A obra fotográfica de Lemos só foi redescoberta a partir dos anos 1990, quando uma fundação portuguesa organizou uma grande exposição com suas imagens. Em 2011, a Pinacoteca montou uma retrospectiva sobre o trabalho do artista.

O ano de 2019 também marcou um novo ciclo de reconhecimento de seu trabalho. Além de protagonizar duas mostras em São Paulo, no Sesc Bom Retiro e no MAM, ambas em cartaz, o artista ainda apresentou trabalhos em duas galerias lisboetas, além de realizar uma retrospectiva no Museu de Design de Lisboa. Teve ainda mais de 2.000 obras incorporadas à coleção do Instituto Moreira Salles.

Thyago Nogueira, curador de fotografia contemporânea do centro cultural, conta que o acervo interessa justamente pela multidisciplinaridade. "Essa é uma oportunidade de olhar para a fotografia em conexão com as outras artes."

O luso-brasileiro creditava a pluralidade de sua obra às experiências no surrealismo. "Escrevo como se fizesse fotografia, faço fotografia como se pintasse, pinto como se estivesse fazendo desenho", dizia.

Para Nogueira, esse surrealismo ainda se refletiu no restante de sua obra. "O trabalho dele carrega conceitos do inconsciente, da revelação, que são heranças de Portugal e explodiram em outros suportes."

O artista deixa cinco filhos e a mulher, Beatrix Overmeer. Até o encerramento desta reportagem, não havia informações sobre o velório de Lemos.