“Morra quem morrer”: quem leva o Prêmio Bolsonaro de Crueldade nesta pandemia?

Matheus Pichonelli
·5 minuto de leitura
Foto: Nelson Almeida/AFP (via Getty Images)
Foto: Nelson Almeida/AFP (via Getty Images)

Exatamente um mês atrás, em 3 de junho de 2020, o Brasil atingia a marca de 30 mil mortos na pandemia do coronavírus. Para registro, esta coluna publicou uma série de declarações de Jair Bolsonaro ao longo da crise: “e daí?”, “não sou coveiro”, “lamento, mas fazer o quê?” e por aí vai.

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De lá pra cá o número de óbitos dobrou. Bolsonaro continuou fazendo pouco caso da pandemia, como quando condenou o “excesso de preocupação” com a saúde e não com a economia. O máximo de humanidade que tentou demonstrar foi quando pediu ao presidente da Embratur para tocar “Ave Maria” na sanfona em homenagem aos mortos. A cena virou piada mundo afora.

Justiça seja feita, Bolsonaro não foi o único a tratar o morticínio como placar de futebol.

Se lançasse o Prêmio Bolsonaro de Crueldade a competição seria dura.

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Desde o início da crise já teve dublê de apresentador e dono de hamburgueria chique dizendo para todos ficarem tranquilos porque a pandemia mataria “apenas” velhos e doentes. Quem se importa com eles, não é mesmo?

Teve coach de investimentos que, para atender o desejo de sua patrocinadora pela retomada da vida normal, reinventou a matemática e previu que a pandemia havia atingido o pico nos idos de abril. Desmoralizado, hoje consegue engajamento apenas quando faz chacota do salário dos atendentes de supermercado.

Teve secretária de Cultura desdenhando o destino de pessoas torturadas na ditadura e de infectadas por coronavírus porque preferia ficar leve a carregar um cemitério nas costas.

Teve empresário jurando que a tragédia anunciada por países como Itália não tinham nada a ensinar por aqui.

Teve cosplay de comentarista político dizendo que nada a ver esse negócio de não poder circular, já que nos EUA milhares de pessoas morriam engasgadas e nem por isso estavam proibidas de se alimentar.

Teve médico candidato a ministro da Saúde torturando a ciência e a razão para dizer que a quarentena aumentava o número de contaminados e outras pérolas do terraplanismo sanitário só para cavar uma vaga na Esplanada.

Teve prefeito no Sul escalando saxofonista para recepcionar os clientes do shopping reaberto antes da hora -- e que correu para pedir socorro quando a conta chegou desacompanhada de leitos na UTI.

Teve prefeito no Norte obrigando empregadas domésticas a voltarem aos trabalhos porque eram serviços essenciais.

E teve patroa que mandou a empregada passear com seus cães enquanto despachava do elevador para a morte o filho da mulher que se perdeu no prédio de alto padrão e caiu.

Na quarta-feira (1º), a Enciclopédia da Insensibilidade Brasileira ganhou reforço do prefeito de Itabuna, Fernando Gomes (PTC), velho conhecido da política local. Ele disse em uma live que autorizará a reabertura dos estabelecimentos comercias em sua cidade “morra quem morrer”.

A declaração assusta pela crueza, mas está em consonância com atos, omissões e palavras, ditas ou não ditas, de uma classe dominante que segue ranzinza, azeda, medíocre, cobiçosa e que impede o país de seguir em frente, como descreveu há anos o sociólogo Darcy Ribeiro.

Nas lives da vida, mudam os meios, mas não a mensagem escrita desde o Brasil colônia: quem fala é sempre a velha elite escravocrata que jamais saiu de cena.

Fosse de outra forma, o dono de uma investidora da moda não teria dito, há algumas semanas, que o país ia bem no controle do coronavírus porque o pico da doença nas classes altas já havia sido atingido.

Em outras palavras: quem morreria dali em diante era quem nunca jamais importou em vida.

O contato com a Covid-19 será, como já é, uma sentença de morte anunciada para povos indígenas, e populações periféricas, a maioria negra.

Isso não parece franzir a testa de quem tem pressa em escalar seus empregados para fazer girar as rodas da normalidade em bares, restaurantes, transporte público, arenas esportivas e centros de lazer e consumo. Nem que seja de automóvel, como fizeram os gestores de um shopping em Botucatu (SP).

Carro e passeio no shopping sempre foram duas instituições nacionais. A vida é descartável, a depender de quem está vivo.

Em tempo. Na coluna anterior, questionei se o racha entre os procuradores em Curitiba e a chefia do MPF em Brasília representariam o fim da República de Curitiba. No mesmo dia, a Agência Pública, em parceria com o The Intercept Brasil, mostrou como agentes do FBI turbinaram os trabalhos da força-tarefa. Nesta sexta-feira (3), o braço paulista da operação Lava Jato voltou à rua para cumprir mandados em endereços relacionados ao senador e ex-governador paulista José Serra (PSDB), denunciado por lavagem de dinheiro. A operação acontece quase quatro anos após o tucano ser premiado com o Ministério das Relações Exteriores do governo Temer quando os tiros da operação já tinham ferido de morte a gestão Dilma Rousseff.