Morar perto de árvores melhora a saúde mental e reduz o risco de depressão

Benefício de morar próximo de árvores (Foto: Getty Images)

Por Cristiane Capuchinho

Todo final de semana os parques ficam cheios de famílias que vão aproveitar o espaço público para lazer e relaxamento. A sensação experimentada graças a áreas verdes melhora a saúde mental, e isso não é apenas uma impressão. Estudos científicos mostram que a convivência com árvores reduz o risco de doenças psicológicas.

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Um estudo, publicado no final de julho no períodico científico Jama Network Open, com dados de 46 mil australianos com mais de 45 anos, mostrou que pessoas que moravam em bairros com pelo menos 30% de área verde, com árvores tinham uma taxa 31% mais baixa de estresse psicológico. Enquanto quem morava em bairros onde o espaço verde era coberto apenas por grama tinha 71% mais chances de sofrer com estresses psicológicos que os vizinhos de árvores.

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A pesquisa coordenada por Thomas Astell-Burt aprofunda o conhecimento de um estudo anterior feito com 65 mil britânicos maiores de 15 anos que demonstra que o aumento de espaços verdes próximos à residência está associado a menores riscos de problemas psiquiátricos entre homens com mais de 35 anos e mulheres com mais de 41 anos.

Os resultados somam-se a evidências de outras pesquisas populacionais que corroboram a associação entre a presença de árvores no entorno da residência como um fator de proteção contra o estresse e a ansiedade, mas também contra o desenvolvimento de doenças psicológicas, como a depressão.

Com um contingente de 300 milhões de pessoas que sofrem de depressão no mundo, segundo estimativa da OMS (Organização Mundial da Saúde), pesquisadores de saúde pública têm ampliado estudos e esforços para que espaços públicos com verde sejam vistos como política pública importante para prevenção sanitária.

No Brasil, a estimativa é que 6 milhões de brasileiros sofram com a depressão e cerca de 18 milhões convivam com a ansiedade.

Mais árvores, menos comprimidos

Sem pílulas (Foto: Getty Images)

O impacto de uma vizinhança verde parece ser ainda mais importante quando a população em foco são os jovens. Um estudo feito na universidade dinamarquesa de Aarhus e publicado em fevereiro na PNAS aponta que crescer em um bairro com área verde reduz entre 15% e 55% o risco de desenvolver distúrbios mentais durante a vida. Assim, essa pesquisa indica que a experiência de contato com o verde pode ter efeito de longo prazo.

Outro estudo realizado nos EUA e publicado em março mostra que adolescentes que moram em locais arborizados têm risco 36% menor de desenvolver transtornos mentais, como a depressão, que aqueles em áreas sem verde.

A pesquisa feita na UCLA (Universidade da Califórnia) analisou informações de mais de 80 mil lares, com jovens e adultos, e também concluiu que o efeito protetor da área verde era mais importante para adolescentes do que entre a população adulta.

Ainda não está claro de que maneira as árvores ajudam na saúde mental de quem tem contato com o verde, mas Astell-Burt associa o resultado ao efeito multifatorial criado pela presença de árvores. Áreas mais arborizadas tem maior conforto térmico devido à sombra de suas copas, assim, essas áreas são mais propícias à prática de esportes.

Da mesma maneira, a biodiversidade destes espaços favorecem tempos de distração. “As cores vibrantes, diferentes formas e texturas, o aroma fresco e o barulho do vento nas folhas são uma distração sem esforço e alívio de tudo o que ocupa sua mente e pode até mesmo estar causando estresse”, afirma o australiano em um artigo publicado na revista The Conversation.

A OMS (Organização Mundial de Saúde), em um relatório sobre os efeitos de áreas verdes na saúde, aponta ainda a existência de estudos que indicam que áreas verdes têm o efeito importante no fortalecimento de laços sociais e interação com o sentido de comunidade. E, como já é bem documentado pela ciência, relações sociais são um importante fator protetor contra doenças mentais.

Se nem todo mundo pode pagar o preço de morar em bairros arborizados, manter parques e áreas verdes para que a população possa visitar garante melhor qualidade de vida. Um estudo feito a partir de questionários com mais de 3,7 mil pessoas em quatro cidades europeias apontou que quanto mais tempo as pessoas passam em áreas verdes, melhor o desempenho em um teste de saúde mental, independentemente do tipo de clima da cidade ou do contexto cultural.

Pan Wang, autora principal do estudo feito na Universidade da Califórnia, enfatiza a importância do planejamento urbano que leve em consideração do benefício dos espaços verdes, e a participação da comunidade para pedir espaços verdes e também para ajudar no cultivo de novas árvores. “Tornar os bairros mais verdes e mais saudáveis é uma missão que deve envolver todos”.

Desigualdade social e de acesso ao verde

Cidade de São Paulo (Foto: Getty Images)

No cenário brasileiro, a grande desigualdade social em áreas urbanas muitas vezes se reflete na desigualdade de acesso a áreas verdes.

Na cidade de São Paulo, enquanto na região da subprefeitura de Pinheiros (zona oeste) a proporção de área de copas de árvores é de 0,31 m² por habitante, no Aricanduva (zona leste), na Vila Maria (zona norte) ou na Sé (centro), a proporção é de 0,10 m² por pessoa.

O índice chega a 0,08 m² por habitante na subprefeitura da Vila Prudente (zona leste), segundo pesquisa publicada pelo Instituto de Estudos Avançados da USP (Universidade de São Paulo)