Moda periférica quer descolonizar olhar da branquitude: pretos e trans em cena

<h1>A frase "Young, Gifted and Black ficou famosa na voz de Nina Simone. (Foto: Getty Creative)</h1>

A frase "Young, Gifted and Black ficou famosa na voz de Nina Simone. (Foto: Getty Creative)

Deixem de lado os ternos, sapatênis, gravatas e caras pálidas. A onda agora é ser e vestir tudo aquilo que um dia nos disseram para não. Tratada como tema superficial, a moda vem trazendo, como sempre fez, novas perspectivas e possibilidades. Moda também é política.

Acredito que o cenário que estamos vivendo hoje é de retrocesso. A moda participa como um movimento contra a maré. Ela traz as diversidades. Em um mundo que prega o fascismo que extingue a individualidade e o diverso, é muito importante falar-se de moda e todas as outras formas de mostrar quem se é!Angela Oliveira Bastos, pesquisadora em História da Arte

Os anos 2000 estão de volta? O polêmico short BadBoy usado por Anitta diria que sim. Mas, antes mesmo de ser usado pela cantora, a peça já estava no guarda roupa e brilhava nos shows das rappers Tasha e Tracie. As “afropatys” que o Brasil precisa são a personificação do movimento de ascensão das mulheres negras a espaços antes mais difíceis, como a própria cena Hip Hop.

É preciso ter garra

Antes de tudo, é preciso também deixar de lado a ideia de que moda e política se excluem. Como coloca a pesquisadora Angela Oliveira Bastos, cuja linha de estudos na História da Arte gira em torno das “Periféricas maneiras de vestir”, a moda é um “fato social total”.

Isso significa que nela percorrem campos como economia, política, arte e sociologia. “É a união da arte com a indústria. É econômica porque gera produtos e artística porque gera símbolos”, coloca.

Angela defende que a moda deve ser entendida como expressão cultural, mesmo que você esteja procurando se engajar socialmente ou “apenas em busca do orgulho de ser quem é”. A pesquisadora ainda chama atenção para outro ponto interessante: a moda é também memória, território e ancestralidade.

"As periferias brasileiras estão num lugar de efervescência cultural, a todo momento criam-se modas. Os periféricos estão na necessidade de apresentar a criatividade através das artes, inclusive das roupas. Algumas das maiores tendências são roupas atreladas ao estilo hip-hop e funk. Então roupas largas, tênis mizuno, Nike, Adidas, acessórios como brincos de argola, correntes etc. fazem sucesso", lista Angela.

"É comum notar que os periféricos criam tendências que inspiram grandes marcas posteriormente. Como é o caso do uso da camiseta de time. O que antes era visto como nada fashion, hoje já é encontrado em diversos looks por aí. Vejo que está crescente também as customizações e uso de roupas de brechó! O upcycling é um movimento bem presente nas quebradas".Angela Oliveira Bastos

Tudo é construído por M4fel Matagal e Mapynguary Matagal. (Foto: Arquivo pessoal)
Tudo é construído por M4fel Matagal e Mapynguary Matagal. (Foto: Arquivo pessoal)

Para falar disso, as artistas M4fel Matagal e Mapynguary Matagal desabrocham lá de Manaus, Amazonas. Elas tocam o projeto GARRRA, uma marca de acessórios que começa ainda lá em 2018, a partir de uma inquietude das curadoras. “Não via corpos pretos e trans em fotografias de moda. GARRRA nasceu dentro de uma agência de modelos aqui em Manaus, onde eu trabalhava no impulsionamento de modelos pretos e indígenas. O objetivo da marca é viabilizar corpos travestis em espaços de possibilidades”, resume.

As peças delicadas enfeitam a diversidade de corpos e cores da região. Indo mais a fundo, elas recuperam as linguagens e expressōes do “Brasil pindoretama”. “Os acessórios mais pedidos são as cobras corais e as invertebradas. Também pensamos em amuletos de proteção dentro do vestuário e elas funcionam muito bem dentro do imaginário”, explica M4fel.

As corais demoram minutos para serem criados. Já as invertebradas demoram, no mínimo, quatro horas. “Todas as nossas peças começam e terminam com fogo, preto branco e preto. Do jeitinho que minha mãe usava quando eu era pequena”, relembra a criadora.

Descolonizar o olhar da branquitude

Falar de moda ancestral requer falar de colonialismo. Como ressalta a pesquisadora e educadora Hanayrá Negreiros na coluna "Por outras histórias da (e na) moda", “em sociedades pautadas na escravidão em boa parte, eram as mãos negras que costuravam as roupas no Brasil colonial”.

Hoje, a branquitude e o capitalismo adaptam as movimentações insurgentes. É o que ressalta M4fel:

“Visualizo o mundo da moda em um colapso criativo. Agora entendemos que a maior parte da inspiração que a branquitude sempre teve foram costumes e linguagens ancestrais de nossos oris pretos e indígenas”M4fel Matagal

Lá da Bahia, Raquel Almeida vem fazendo um movimento parecido no Black Retrô Brechó. Ela trabalhava como stylist e sempre se identificou com trabalhos que envolviam moda. A reviravolta veio quando percebeu que a maioria dos seus serviços “nunca iriam chegar para a classe de onde sou oriunda, a classe C”.

“Moda é uma forma de expressão, mas nas camadas mais pobres isso é posto como padronização. Sabe nos tempos antigos onde existiam as roupas dos nobres, dos burgueses e dos escravizados?”Raquel Almeida

A partir disso, Raquel abriu um Instagram para a marca e começou a trabalhar com moda alternativa. No início, as amigas ajudaram, inclusive sendo modelos para o brechó, que logo virou um sucesso e já tem ponto físico.

“Vestir é proteção, cuidado, expressão”

As roupas vintages originais são as que mais saem, segundo a empreendedora. Ela concorda que os anos 2000 estão tomando mais espaço na loja e acredita que é uma tentativa de resgatar os bons tempos. “Depois desse momento desafiador da pandemia, não dava para pensar muito sobre como seria o futuro. O que restou a fazer foi recordar uma era colorida e com uma energia de jovialidade bastante notória”, aponta.

Mais do que moda, vestir, para Raquel, é sobre “proteção, cuidado, expressão”.

“Comecei a convidar meus amigos para serem modelos do brechó. Pessoas pretas e reais. Os momentos de ensaio fotográfico viraram momentos de conversa sobre futuro, amor e fortalecimento. Muitas dessas meninas começaram a se amar depois que se viram com olhos de amor de outra preta. E não com os olhos de ódio da moda branca.”Raquel Almeida

Em Fortaleza, Ceará, a marca “Mancuda” também faz esse resgate. Com foco na pegada 2000’s, as peças da novela coleção são inspiradas nos grandes bailes funk dos anos 2000. “Viajamos entre memórias e histórias eternizadas em álbuns de família e nesse caminhar identificamos a real estética brasileira. Através disso sentimos que precisávamos apresentar nesse primeiro corre audiovisual da coleção atual a dinâmica da favela fortalezense”.

Angela avalia essas experiências de forma positiva, pois a periferia é um lugar de pluralidade. "A diáspora negra traz consigo histórias, culturas, estéticas que foram absorvidas, vindas dos nossos antepassados até nós. Na moda, há uma necessidade de mostrar essa pluralidade, e com uma novidade: mostrar e se afirmar como periférico, negro etc. Ocorre aí o orgulho em ser negro, periférico etc. Ocorre um orgulho em se posicionar contra o lugar de inferioridade que a sociedade coloca sobre nós", encerra.