Mitos e verdades sobre transtorno dissociativo de identidade (TDI), doença mental do Cavaleiro da Lua

Cena de
Cena de "Cavaleiro da Lua", série do Disney+ (Imagem: Reprodução/ Disney+)

O que Marc Spector, Elliot Alderson e James McAvoy têm em comum? Os três personagens fictícios das séries "Cavaleiro da Lua" e "Mr Robot", e dos filmes "Fragmentado" e "Vidro", têm Transtorno Dissociativo de Identidade. Também conhecido como TDI, a doença é a forma mais extrema entre os transtornos dissociativos reconhecidos no DSM-5 (manual de diagnósticos elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria).

"TDI é uma perturbação ou descontinuidade da integração normal da consciência, memória, identidade, emoção, percepção e outros atributos mentais, que, em conjunto, nos fazem nos reconhecer como nós mesmos. No transtorno, todo o campo da personalidade, ou ‘eu’, está de alguma forma comprometido”, conta Clarisse Rinaldi de Santiago, psiquiatra e psicanalista do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Segundo os especialistas ouvidos pelo Yahoo, o desenvolvimento do TDI está associado a grandes traumas e abusos sofridos, de qualquer natureza, principalmente na infância, quando a criança cria novas identidades para escapar de experiências traumáticas. Clarisse alerta: é preciso ter em mente que a definição do que é trauma ou conflito pode variar de pessoa para pessoa. Por isso, situações que não necessariamente são abusos ou traumas culturalmente reconhecidos podem causar uma resposta psíquica inconsciente à dissociação do eu, e a “criação” também inconsciente de uma nova personalidade.

Um estudo publicado no periódico Journal of Psychiatric Research mostra que o transtorno também pode surgir em casos de estresse extremo, quando pessoas enfrentam um problema grave, como sequestro ou perda de um ente querido. O TDI pode "ajudar" a evitar que as memórias cheguem à consciência, evitando um sofrimento que não são capazes de aguentar.

Os personagens da ficção passaram por traumas e abusos enquanto crianças, e se tornaram adultos que trocam de personalidade extremamente rápido, em alguns casos com características diferentes, como sotaque. Mas nem tudo que vemos na tela é real. Entenda o que é mito e verdade sobre TDI em Cavaleiro da Lua, Mr Robot, Fragmentado e Vidro.

Realidade x Ficção

Em Cavaleiro da Lua, nos deparamos com diversas situações onde o transtorno é manifestado. De acordo com Nikolas Heine, coordenador de Psiquiatria do Hospital 9 de julho, a troca que acontece entre as personalidades demora muito mais para acontecer na vida real em comparação com o que é mostrado na série. “Tende a ser uma mudança de horas e semanas. É bastante frequente que a pessoa não perceba a mudança, porque a outra personalidade não se expressa em todo seu padrão. Posso ser palmeirense e depois falo que sou Corinthiano, daí isso chama a atenção, porque surgiu algo novo.”

Reviver o trauma vivido na infância, saber da morte de um parente responsável por abuso psicológico ou ter uma filha com a mesma idade que você sofreu abuso sexual, por exemplo, podem ser gatilhos para iniciar o transtorno, como o protagonista de Mr. Robot, segundo o coordenador de psiquiatria.

Mas o fato de uma personalidade não saber da existência da outra, como vemos no início da série, realmente é verdade. “É bem frequente isso acontecer, porque você dissocia, como se começasse do zero”, segundo Heine. E um sotaque diferente pode ser algo comum de presenciar na troca de personalidade.

Também é possível que uma personalidade conheça a outra, assim como vemos no decorrer das séries da Disney e Amazon Prime Video. “Uma das personalidades pode ser ‘dominante’ e saber das outras. É uma resposta psíquica, um mecanismo de defesa, para fugir de uma situação traumática que gera extremo conflito psíquico para o sujeito, então todas as personalidades são parte de um mesmo sujeito e podem ter acesso umas às outras”, afirma Clarisse.

Além disso, para a psiquiatra, é bastante comum a pessoa esquecer acontecimentos vividos por outra personalidade, e pode vê-la em um espelho, como Marc vê Steve. “Como parte da dissociação pode afetar também a sensopercepção, o sujeito pode se ver de outra forma.”

Em Fragmentado, o protagonista tem mais de 20 identidades diferentes. Pode parecer exagero, mas é realista. Segundo os especialistas ouvidos, a quantidade de personalidade também não tem número “máximo”, porque nosso psiquismo pode criar o infinito.

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