Mina do funk, Kamilla Fialho reconhece: "Anitta é uma formadora de opinião"

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Kamilla Fialho é uma das maiores empresárias do Brasil quando o assunto é funk. Na foto, ela com a filha Tilia e Anitta foi um dos cases da carreira da profissional (Reprodução/Instagram@kamillafialho/@anitta)
Kamilla Fialho é uma das maiores empresárias do Brasil quando o assunto é funk. Na foto, ela com a filha Tilia e Anitta foi um dos cases da carreira da profissional (Reprodução/Instagram@kamillafialho/@anitta)

Um dos grandes nomes por trás do sucesso do funk carioca, Kamilla Fialho completa 40 anos neste mês com um único desejo: continuar realizando seus sonhos. "Venho conquistando vários e acredito que nunca vai acabar." De apresentadora da Furacão 2000 a empresária de MC Sapão, Anitta e Lexa, a executiva hoje colhe os frutos de seus mais de 18 anos de trabalho na música.

"Nacionalizar o funk foi, com certeza, uma das coisas mais difíceis da minha vida. Confesso que ter tido o Sapão como meu primeiro agenciado foi a melhor faculdade que eu poderia ter feito dentro da música. Ele me levou em todos os lugares, me ensinou tudo sobre o funk, onde a gente podia melhorar e sempre esteve com a cabeça aberta para receber mais conhecimento, estudar, migrar para o mainstreaming”, relembra.

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Consagrando artistas nos rankings atuais, como Kevin o Chris, o primeiro funkeiro a bater 1 bilhão de streams, Kamilla se orgulha de ter sido uma das responsáveis pela consolidação do funk no Brasil e no mundo. Mas relembra o início difícil por falta de aceitação do estilo.

“A gente não tinha apoio de gravadoras, programas de televisão, rádio, absolutamente nada. Tive que trabalhar a comunicação dos artistas baseado no conhecimento deles, no estudo. O Naldo abriu as portas para o funk no Brasil, mas a Anitta se firmou como uma artista que buscou conhecimento, estudou, se tornou uma formadora de opinião.”

Para viver de música

Tentando ajudar artistas que sonham em viver da arte de fazer música, Kamilla aproveitou a pandemia para se reinventar e lançar o curso online “Como Viver De Música”, em que mostra o passo a passo para quem quer se aperfeiçoar.

“Não existe uma faculdade para você ser um empresário artístico, não existe quem te ensine, então você aprende tomando as porradas e isso faz com que muitos artistas se frustrem, muitos artistas gastam dinheiro de forma errada."

E no meio disso tudo, a empresária ainda recebeu a grata surpresa do convite para empresariar sua própria filha, Tília, de 18 anos, fruto de seu relacionamento com Dj Dennis. Lançada como DJ e cantora há seis meses, a jovem já fez parceria com Melody e acaba de lançar a música com “Match”, ao lado de Kawe.

Anitta se firmou como uma artista que buscou conhecimento, estudou, se tornou uma formadora de opinião

Ao Yahoo!, Kamilla falou sobre a sensação de ter artistas no topo, relembrou as dificuldades e assédio por ser mulher no funk e explicou como está sendo empresariar a filha.

O que mais te marcou positivamente e o que você lembra como obstáculo em seu início na Furacão 2000?

Não entendia nada de funk quando comecei, foi uma das minhas ousadias e quis me aprofundar. O que mais me marcou positivamente foi entender que o mercado do funk poderia ser muito maior do que realmente era, entender que faltava organização por parte dos empresários e dos artistas. Meu maior obstáculo, sem dúvida, foi o fato de ser uma mulher, querer entender mais do mercado e não ser só uma apresentadora de televisão, mas me aprofundar e defender a causa. Comecei na Furacão com 20 anos, meu contrato terminou aos 21 e eu já estava grávida da minha filha.

Li que você saiu da Furacão por conta da gravidez, fruto de seu relacionamento com DJ Dennis. Como você lembra desse momento e o que teve que aprender?

Saí da Furacão e descobri que estava grávida. Voltei para a Furacão para tentar meu emprego de volta e não consegui. O lugar que eu estava com contrato na TV me colocou na geladeira porque disseram que eu iria ganhar peso. Naquela época, o corpo e a magreza eram fundamentais para ser apresentadora de TV. Foi então que desisti de trabalhar em frente às câmeras, aceitei a sugestão do pai da minha filha de empresariar o Sapão e a partir daí me encontrei como empresária.

Como foi o desafio de agenciar o Sapão sem ter muito conhecimento no assunto?

Os desafios são os de sempre, o fato de eu ser mulher em um mercado majoritariamente masculino. Confesso que ter tido o Sapão como meu primeiro agenciado foi a melhor faculdade que eu poderia ter feito dentro da música. Ele me levou em todos os lugares, me ensinou tudo sobre o funk, onde a gente podia melhorar e sempre esteve com a cabeça aberta para receber mais conhecimento, estudar, migrar para o mainstreaming e pop. Só agradeço por ele ter sido o meu primeiro e termos ficado juntos por 14 anos.

Já passou por situações de assédio como empresária? Como você lida dentro do mercado para se impor?

Já passei por muitos assédios, o funk é um ambiente muito machista. Infelizmente a gente acaba se adaptando, criando uma casca e buscando maneiras de sair de situações, que sinceramente são completamente constrangedoras. Mas confesso que vejo uma evolução muito grande. Acredito que eu apanhei muito para hoje várias portas estarem abertas, acredito que tenha sido uma missão, também minha, tentar acabar ou diminuir o machismo, principalmente no show business.

Você foi uma das responsáveis por nacionalizar o funk. Como lembra desse processo na sua carreira e o que aprendeu com essas mudanças?

Com certeza nacionalizar o funk foi uma das coisas mais difíceis da minha vida, mas não acredito que tenha sido através da Anitta, o Naldo já tinha aberto muitas portas para que a Anitta pudesse entrar. Música é assim, o coletivo, um ajudando o outro, um abrindo porta para o outro. O que eu lembro do processo foram as dificuldades, a gente não tinha apoio de gravadores, programas de televisão, rádio, absolutamente nada.

O funk é um ambiente muito machista

Tive que trabalhar a comunicação dos artistas baseado no conhecimento deles, no estudo. O Naldo abriu as portas para o funk no Brasil, mas Anitta se firmou como uma artista que buscou conhecimento, estudou, se tornou uma formadora de opinião. Ela faz com que muitas meninas escolham trabalhar com o funk entendendo que é um mercado tão legal quanto outro qualquer.

Como você vê o mercado nacional e internacional hoje para o artista de funk?

Hoje, o funk tem muitas ramificações, o funk pop, melody, de ostentação, de periferia, da playboyzada, a mistura de funk com rap, com trap, todas essas ramificações se encaixam perfeitamente no mercado internacional. A internet veio para diminuir a distância entre os países e atualmente as pessoas conhecem o Brasil, o funk, o mercado internacional está de olho. Obviamente existe o fato da Anitta estar em ascensão e isso ajuda pra caramba, ela é uma defensora do funk, mesmo fazendo pop, ela continua fazendo funk. Estamos no nosso melhor momento, tem que se profissionalizar, mas só aproveitar.

Como é ser empresária de artista número 1 no Brasil?

Confesso que hoje não busco mais ter artistas em primeiro lugar. Quero que meus artistas vivam de música por muitos anos, façam da música sua carreira, isso requer muito estudo, aprimoramento, conhecimento. Me preocupo muito mais com o tempo de vida útil dos artistas do que com esse top 1. Mas quando você faz um trabalho bem feito, organizado, é natural que o resultado venha no ranking.

Qual o bônus e o ônus de ter um artista em primeiro lugar nas paradas?

Até hoje eu continuo fazendo artistas no top1, como o Kevin O Chris, que está no top global, chegou em primeiro no Brasil, mas confesso que prefiro continuar trabalhando pelo tempo de vida útil. O bônus é óbvio, você alcançar seus objetivos, suas metas.

Mas ônus é muito grande, o Brasil não está preparado para ídolos, para ver o sucesso das pessoas que vêm de comunidade, as pessoas que não tiveram uma vida privilegiada como outros tiveram. Infelizmente, quando a gente começa a rankear, vem uma chuva de haters, de fake news, as pessoas começam a colocar o artista como alvo, ao invés de colocar como ídolo. Prefiro ter 10 artistas no top 100, do que cinco no top 5.

Toda a parte do entretenimento sofreu com a pandemia. Como sua empresa enfrentou isso? Existe segredo para continuar se mantendo em pé?

A situação da pandemia da minha empresa não foi diferente do resto do país, a gente teve que se reinventar. Ampliei meus negócios e comecei a atender influenciadores e empresários que queriam ter uma gestão de imagem, de comunicação para o mercado. De fato foi um dos maiores baques que já passei na minha vida, se não foi o maior. O segredo para continuar de pé é ter muita fé, otimismo, organização, comunicação.

Na era do home office a gente perdeu muito a comunicação que acontecia ali no nosso dia a dia, e eu sempre acreditei que isso colaborasse para as carreiras dos artistas.

O curso online que você criou entrega a "fórmula do estrelato?" O que você quer passar com essa plataforma?

Acredito que os artistas precisam trabalhar e entender que a música é como qualquer outra profissão, requer tempo, paciência, investimento, o que eu passo no curso, o que eu quero com a plataforma é atingir o maior número de pessoas possíveis para que elas não passem pelo que eu passei.

Não existe uma faculdade para você ser um empresário artístico, não existe quem te ensine, então você aprende tomando as porradas e isso faz com que muitos artistas se frustrem, muitos artistas gastam dinheiro de forma errada. No curso falo sobre o meu processo, onde acertei, onde errei, onde consertei para não errar mais, com esse objetivo, para que as pessoas queiram e possam viver de música, viver da profissão que eles tanto sonham, não é para estrelato nenhum até porque não acredito nessa fórmula do sucesso.

Aos 40 anos, qual seu grande sonho profissional?

Meu sonho profissional vai mudando cada vez que eu conquisto, venho conquistando vários e acredito que nunca vai acabar. Hoje, esse sonho é o fim da pandemia, não consigo pensar em outra coisa que não seja isso. O fim da pandemia é fundamental para que a gente sobreviva. Não falo só por mim, mas pelos meus amigos que estão desempregados, músicos, técnicos de som, pessoas que não fazem outra coisa na vida a não ser isso, trabalhar na estrada, atendendo artistas, fazendo luz, cenário, enfim... O único sonho é o fim da pandemia e a agenda de shows voltando ao normal.

Tília, de 18 anos, sua filha com o DJ Dennis, acaba de se lançar como cantora. Como isso aconteceu?

Não tinha imaginado para ser muito sincera. Embora ela estudasse desde muito nova, sempre a incentivei a estudar música porque acredito que isso acrescenta na vida de qualquer pessoa, mas nunca imaginei que ela quisesse se dedicar à carreira de cantora. Ela sabe o quanto é difícil, é sacrificante, frustrante. Mas no meio da pandemia, ela acabou vivendo 15 dias comigo e 15 com o pai dela, que sempre passou viajando, fazendo shows, e ela se sentiu mais confortável em falar para nós dois. A partir daí montamos um planejamento e estamos com seis meses de carreira.

O Brasil não está preparado para ídolos

É mais difícil ser mãe e empresária?

Sem sombra de dúvida ser mãe e empresária é muito mais difícil. Por sorte, a K2l hoje está enorme, tenho sócias, que inclusive ficam mais à frente da carreira da Tili para que eu não precise ficar todos os dias debatendo coisas que possam atrapalhar na nossa relação de mãe e filha, que é maravilhosa.

Você foi a responsável pelo sucesso de Anitta, Lexa, qual o seu objetivo com a Tília?

Meu objetivo com ela é o mesmo de todos os artistas, potencializar a carreira deles, revelá-los para o Brasil, para o mundo, conseguir colaborar para que a arte deles chegue para o maior número de pessoas possível. A Tília almeja o céu, ela já conviveu muitos anos com a gente, já vem com uma visão artística. Ela também é Dj, e o show dela tem esse diferencial, já que ela toca, canta e dança. Ela quer ter referências de funk porque foi feita do funk, mas ela também quer estar no top. Então, é uma carreira que requer o triplo do trabalho, e ela sabe disso. Mas ela está feliz, empenhada, dedicada, o resultado é só uma questão de tempo.

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