Miguel Gomes reage à Covid em 'Diários de Otsoga', e 'Os Sertões' fica de lado por ora

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A busca pelo filme não é um tema estranho a Miguel Gomes, diretor português responsável por longas como "Aquele Querido Mês de Agosto", de 2008, "Tabu", de 2012, ou a trilogia "As Mil e uma Noites", de 2015, em que ficção e documentário se confundem pelas estradas de Portugal, percorridas com a persistência de Scheherazade.

Seria incomum, pois, se de suas mãos não saísse uma resposta ao presente pandêmico, período em que muitos artistas se viram rodeados de artifícios para realizar o possível a distância. Mas não foi com telas de Zoom que Gomes e Maureen Fazendeiro, parceira íntima e profissional do diretor, decidiram matar as saudades do cinema.

"Tentamos fazer um filme e viver a vida em simultâneo. As duas coisas eram partes uma da outra", resumem os cineastas em entrevista a este repórter ao comentar "Diários de Otsoga", filme que chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira.

"Ambos gostamos de filmar em película, o que resulta numa imagem mais sensual e que permite trabalhar os jogos de luzes e sombras de uma maneira mais orgânica." Não à toa, com o granulado dos 16 mm, talvez esse seja o mais luminoso e colorido filme pandêmico. "Embora tivéssemos um orçamento baixo, a ideia era o contrário de uma autoprodução caseira, queríamos reencontrar o prazer de filmarmos juntos."

Rodado num regime de confinamento entre agosto e setembro de 2020, o longa reuniu a tradicional equipe técnica de Gomes e três atores (todos testados) em uma quinta em Sintra, a 30 km de Lisboa, para juntos buscarem um filme.

"[O lugar] tinha sido uma quinta de criação de aves, mas também um local de festas e que estava repleto dos pertences de várias gerações de uma família numerosa. Durante a nossa estadia coletiva era necessário cumprir algumas tarefas como alimentar os animais", explica Fazendeiro. "O Miguel gostava de dar milho aos pavões antes de ir tomar o café da manhã".

Daí que esses diários crescem ao misturar as tarefas mais banais, que todos precisavam fazer por lá, com uma encenação do que nos foi vetado pela Covid.

Por 90 minutos, as ações se resumem a farrear, trabalhar na terra, dar banho nos cães, paquerar, construir um borboletário, repassar o propósito das filmagens ou castigar um ator que quebrou o isolamento. Isso sem contar a preocupação com o iminente nascimento de Helena, filha do casal de diretores, para quem o longa é dedicado.

Além da premissa idílica, o truque da montagem é anunciado logo no título. O críptico "Otsoga" é apenas "agosto" ao contrário, e o filme avança para o passado, desfolhando o calendário em uma narrativa que começa no 22º dia de filmagens e acaba no primeiro.

"Queríamos chegar no último dia e filmar um beijo, porque após vários dias fechados naquela casa o distanciamento social já não era necessário. [A narrativa] começa apenas com os três atores mas vai agregando o resto da equipe na tela, desenhando aos poucos a comunidade que vivia e trabalhava ali."

Descolados de uma linha narrativa, quem nos guia é um marmelo que, em vez de apodrecer ao relento, vai rejuvenescendo, como uma espécie de relógio natural. "Quando visitamos a casa pela primeira vez vimos uma maçã pousada num muro. E quando regressamos algumas semanas depois vimos a mesma maçã no mesmo lugar, mas agora completamente podre", explicam os diretores sobre a inspiração.

Mais do que apenas um respiro na pandemia, o diário acabou sendo uma ode ao coletivo. "As luzes das noites [feitas com cores variadas] vieram da colaboração entre o nosso diretor de fotografia, Mário Castanheira e o Rui Monteiro, desenhador de luz para o teatro e companheiro da atriz Crista Alfaiate", diz Gomes.

"A discussão final entre o diretor de som, Vasco Pimentel, e o assistente de realização, Patrick Mendes, aconteceu mesmo. Meu problema com a gravidez também foi real e fui com o Miguel a uma consulta no hospital deixando os atores sozinhos a filmar", conta a diretora.

Trabalho tão às avessas só poderia ter participado de uma seleção como a da Quinzena dos Realizadores no ano passado, mostra que, com sua abertura experimental, é um contraponto à seleção oficial de Cannes —onde a Covid-19 ficou mais nas manchetes que nas telonas.

A dupla fez o que podia para manter o cinema vivo enquanto contava os dias para retomar projetos maiores, mas a pandemia foi mais forte. Vai ter de esperar mais um pouco quem achava que este seria apenas um filme de transição entre o imponente "As Mil e uma Noites" e o épico "Selvajaria" —adaptação de "Os Sertões", o clássico de Euclides da Cunha, anunciada em 2016, e que teria gravações em Canudos com seus habitantes locais, conforme ele contou a este jornal.

Fato é que seis anos se passaram. "O projeto foi abandonado de momento. Tivemos que começar a devolver financiamentos", lamenta Gomes. "Mas ainda não perdi a esperança de fazê-lo". Em paralelo, outro projeto de estúdio, "Grand Tour", é gestado pela dupla de cineastas.

Um dia de cada vez, esses "Diários de Otsoga" parecem mostrar que talvez seja mesmo preciso ler as coisas num outro sentido para conseguir encarar o passado e não ter medo de mudar a rota e seguir em frente.

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