Michael Kiwanuka é provavelmente o melhor cantor do mundo hoje

O músico britânico Michael Kiwanuka (Foto: REUTERS/Ints Kalnins)

Por Thiago Ney

Michael Kiwanuka tem 32 anos. Nasceu na Inglaterra, mas os pais são de Uganda –saíram de lá devido à ditadura sanguinária do militar Idi Amin, que derrubou um governo civil em 1971 e permaneceu no comando do país até 1979, quando foi deposto depois de ter sido o responsável por estimadas 300 mil mortes de adversários políticos. 

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No país europeu, Kiwanuka cresceu em meio à ascensão ao poder do trabalhista Tony Blair em 1997, que encerrava 18 anos de governos do Partido Conservador. Era uma Inglaterra que respirava novos ares na política, na economia e, por consequência, na cultura. Apareceram ou se consolidaram ali bandas de britpop, escritores como Irvine Welsh e Nick Hornby, artistas como Tracey Emin, Damien Hirst e Rachel Whitehead, cineastas como Danny Boyle.

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A tradição de Uganda e a Inglaterra multicultural dos anos 1990. Michael Kiwanuka absorve e reconfigura essas referências desde o primeiro disco, “Home Again”, de 2012. Em 2016, soltou “Love & Hate”, em que intensificava um discurso forte em faixas como “Black Man in a White World”. Há pouco, ele lançou “Kiwanuka”. Este terceiro álbum é não apenas o mais sólido de sua carreira mas um dos mais musicalmente originais do pop recente.

O disco tem 14 faixas com letras ou sonoridades bem distintas, mas não há ponto baixo.

Basicamente, Kiwanuka vai aos anos 1970 buscar a matéria prima que vai transformar em música contemporânea.

Difícil encontrar um álbum com uma riqueza tão heterogêna e mesmo assim formar um conjunto tão coeso como “Kiwanuka”. Dá para pescar coisas de Gil Scott Heron, Tame Impala, Dylan, Alabama Shakes, Bill Withers, James Brown, Amy Winehouse, Kendrick Lamar, Hendrix, Pink Floyd.

A primeira faixa, “You Ain’t the Problem”, meio que apresenta o clima do disco: uma melodia que exala otimismo e passeia entre o soul e o rock. “Rolling” é um espetáculo: uma bateria com um som chapado, bem anos 1970, um teclado psicodélico –lembra as melhores coisas feitas pela banda Super Furry Animals. Essa atmosfera psicodélica encobre ainda a faixa seguinte, “I’ve Been Dazed”.

A Uganda dos pais está em beats retorcidos e em letras como as de “Hero” (“I won’t change my name, no matter what they call me”; referência à maneira ocidentalizada com que o Kiwanuka é pronunciado na Europa). 

“Living in Denial” tem um coro gospel lindo, que faz belo contraponto à intimista “Another Human Being”. O disco é encerrado por “Solid Ground” e “Light”, duas baladas que se complementam em um funk-soul introspectivo.

“Kiwanuka” impressiona pela riqueza de ritmos e pela originalidade com que atualiza elementos já consagrados da música pop. Com esse disco, Michael KIwanuka mostra-se um cantor artisticamente ambicioso e de talento incomum.