Meu filho disse que a trans: como sei que é verdade e não “onda” da internet?

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Meu filho disse que é trans: é isso mesmo? (Foto: Getty Images)
Meu filho disse que é trans: é isso mesmo? (Foto: Getty Images)

Diante de tantas informações nas redes sociais, está cada vez mais frequente crianças conviverem e serem apresentadas a termos ligados ao gênero. Um deles é a palavra transgênero, denominação mais “comum” e que abrange qualquer apresentação de identidade de gênero de um indivíduo.

E o convívio com o termo vai além da internet e já se reflete no dia a dia das famílias. Algumas crianças se dizem trans e chegam até os pais dizendo que não se enxergam naquele determinado corpo. Mas como saber se seu filho é, de fato, uma pessoa trans ou está indo na “onda” da internet?

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Alexandre Saadeh, coordenador do Ambulatório de Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP(FMUSP), explica que o primeiro passo é ouvir a criança e procurar assistência de profissionais capacitados da área. “Tem que perceber se isso é uma brincadeira ou não”, afirma.

O especialista ressalta que na infância é muito comum crianças fazerem cross gender (gênero cruzado em tradução livre), que é ter brinquedos que “não são para aquele determinado sexo” ou ditos para meninas e para meninos. “É normal e não é questão de proibir”, destaca.

No entanto, quando ela cria uma noção sobre ela mesma e se identifica em relação a um gênero de forma bem categórica, os pais podem começar um acompanhamento médico para entender melhor e ajudar a criança na transição. ”Se tem uma característica identitária e a criança vai atrás de expressar essa busca pela identidade de gênero, os pais precisam olhar mais para ela.” Algumas também já começam a mudar o cabelo, roupa e outras ações ligadas à parte física.

Como pais devem agir

Geralmente, depois de procurar ambulatórios especializados, os pais são aconselhados a iniciarem o tratamento para transição de gênero. Mas isso não ocorre de forma rápida e é necessário um acompanhamento com médicos especializados. O psiquiatra da USP destaca a importância de procurar médicos capacitados no assunto, já que, segundo ele, muitos se dizem especialistas na temática, mas não são.

O processo é multidisciplinar e é acompanhado por psiquiatras, psicólogos e outros especialistas no assunto. Dessa forma, o paciente vai mostrando suas dúvidas e angústias para os médicos, facilitando o diagnóstico.

O acompanhamento de um profissional serve para os responsáveis saberem lidar diante desse processo e também para ajudar no dia a dia com outras pessoas, na escola com os amigos e em outros ambientes. Segundo Saadeh, somente 15% das crianças que chegam ao ambulatório de transdisciplinar não são transgênero.

Lucas Bulamah, psicanalista e doutor em psicologia clínica pela USP (Universidade de São Paulo) reforça a importância dos adultos ouvirem as crianças diante das escolhas de gênero.

Segundo ele, a questão é delicada e deve ser encarada de forma acolhedora pelos pais ou responsáveis, justamente por estarmos no país que mais mata pessoas transexuais no mundo. “Dificilmente vai ser uma ‘onda’, já que é um assunto tão complicado de assumir e tocar para frente”, afirma.

O psicanalista reforça ainda que a escola não está preparada para lidar com crianças transgêneros e que é necessário mais programas e disciplinas sobre o tema dentro do ambiente escolar. Ele ainda pontua que debater sobre a transexualidade, não irá fazer com que a criança se torne uma pessoa trans, e sim, abre mais entendimento sobre o assunto.

Transição de gênero na prática

Depois de todo o acompanhamento psicológico, familiares podem decidir se a criança ou adolescente segue com o tratamento para mudança de gênero. De início, a grande intervenção que pode ser feita é o bloqueio da puberdade, para não desenvolver características como pelos, timbre da voz e outras mudanças ligadas a essa fase da vida. “Essa fase é reversível”, destaca o psiquiatra.

Depois, ocorre hormonioterapia, tratamento com hormônios específicos e que só pode ser feito a partir dos 16 anos. Neste, o processo é parcialmente reversível.

Por último, é feita a cirurgia, onde ocorre a mudança na genitália. O procedimento só pode ser feito quando o paciente tem 18 anos. No caso da mulher trans, é possível fazer uma cirurgia para desenvolver uma vulva.

Já no homens trans, segundo Saddeh, “o mais importante é a cirurgia para retirada da mama". Também é possível fazer a metoidioplastia, técnica menos invasiva, na qual é possível produzir um pênis muito pequeno. "Essa é parcialmente funcional", conclui o médico.

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