Mesmo na pandemia, assédio sexual no trabalho aumenta 13%

Colaboradores Yahoo Vida e Estilo
·11 minuto de leitura
O assédio moral e sexual no trabalho existe online e presencialmente (Arte: Thiago Limon/Yahoo Brasil)
O assédio moral e sexual no trabalho existe online e presencialmente (Arte: Thiago Limon/Yahoo Brasil)

Por Henrique Santiago

Caroline* ouviu uma pergunta de seu chefe: “por que eu te contratei?”, após dizer que não sabia editar vídeo, função que não era a dela. Era sua primeira semana de estágio em Publicidade e Propaganda quando recebeu a chamada ríspida na frente de vários colegas. O assédio moral que sofreu foi repetido diversas vezes durante um ano e meio em que trabalhou na empresa de capacitação de TI.

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Com 19 anos naquela ocasião, a estudante ouvia comentários com teor sexual de diferentes profissionais, todos homens. Certa vez foi perguntada “se fez teste do sofá para entrar na empresa” por conta da roupa que vestia, ao que respondeu com um sorriso amarelo.

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“Me sentia exposta, era constrangedor. Não sabia como me defender daquilo. A simples sugestão de estar ‘à disposição’ daquelas pessoas já me causava incômodo. Pensar nisso hoje é complicado, mas eu aguentei porque precisava do dinheiro”, diz, e completa que também era assediada por clientes da organização, que sugeriam “algo a mais” fora do expediente.

Após arrumar outro emprego em uma agência de publicidade, os episódios de assédio se repetiram. Um dia, errou a faturação de uma nota e a reação do seu ex-chefe foi explosiva. “Ele veio apressado até a minha mesa, jogou os papéis e só disse: ‘pensa melhor nas coisas que você está fazendo’. Era meu terceiro dia ali, aquilo tudo me deixou muito assustada”, afirma ela, que nunca denunciou os abusos sofridos.

Desempregada desde o início da pandemia, Caroline*, hoje com 29 anos, acumula uma série de relatos de comportamento abusivo de terceiros no ambiente de trabalho. Atualmente, porém, as insinuações ganharam o adicional de ser questionada por recrutadores de vagas sobre sua vida amorosa no LinkedIn.

Denúncias de assédio em alta

A história de Caroline* não se trata de um caso isolado. Uma pesquisa lançada pelo Instituto Locomotiva, em parceria com o Instituto Patrícia Galvão, revelou que 76% das mulheres já sofreram assédio no trabalho. As principais denúncias são de terem o trabalho supervisionado excessivamente (40%), serem xingadas ou receberem gritos (40%) e receberam convites para sair ou insinuações constrangedores (39%)

Entre 1 de janeiro e 14 de outubro de 2020, o Ministério Público do Trabalho (MPT) recebeu 3.971 denúncias de assédio moral de trabalhadores em todo o Brasil. Desse total, foram instaurados 1717 inquéritos civis para investigar irregularidades, segundo dados obtidos pelo Yahoo!. O órgão também reuniu 80 denúncias de assédio sexual ao longo deste ano, sendo que o número de inquérito civis é de 100 até momento.

Se comparados com o ano inteiro de 2015, o número de denúncias de assédio moral cresceu 176% em um intervalo de cinco anos, enquanto as acusações de assédio sexual subiram 13%. Nesse mesmo período, os inquéritos civis de assédio moral e sexual sofreram queda de 27% e 25,3%, respectivamente, informa a instituição.

O Tribunal Superior do Trabalho (TST) calculou 37.031 processos trabalhistas de assédio moral entre janeiro e setembro de 2020, queda de 16% em relação ao mesmo período do ano passado. Já as ações movidas por assédio sexual totalizaram 1.802 nos primeiros trimestres, 14% a menos do que nos mesmos nove meses de 2019, informam os dados obtidos com exclusividade pelo Yahoo!.

Embora não exista um recorte por gênero, a procuradora regional do trabalho do MPT, Adriane Reis de Araújo, estima que mais de 90% dos casos que chegam à instituição são expostos por mulheres. Para ela, a prática do assédio no ambiente de trabalho é reflexo do país em que vivemos, onde mulheres conhecem essa exposição ainda na infância.

Estamos em uma sociedade patriarcal e tem um discurso machista muito forte. É um discurso que se assenta em uma ideia de superioridade masculina em relação à mulher. Dessa maneira, muitas mulheres são vistas não apenas como profissionais, mas como objetos a serviço de homens de uma organização, avalia a especialista.

O que delimita o assédio

No Brasil, a discussão sobre assédio corporativo começou a ganhar força somente no século 21, com a publicação de estudos da pesquisadora Marie-France Hirigoyen. Para a porta-voz do MPT, trata-se de um assunto ainda muito recente e, por isso, a definição pode confundir a cabeça das pessoas.

Segundo ela, o assédio moral no trabalho se dá por uma série de ações violentas praticadas por um indivíduo com a finalidade de exercer domínio sobre o outro, podendo ser uma ação tanto individual quanto coletiva. Já o assédio sexual normalmente ocorre entre quatro paredes, fora da presença de testemunhas, com o propósito de ofender a liberdade sexual da vítima.

“O assédio moral é uma violência que tem como propósito fazer [a vítima] cumprir uma determinada norma, pode ser uma norma velada e oculta que contraria a legislação. Já o assédio sexual vai além do estupro. É toda e qualquer prática obscena, como linguagens e toques, que pode ter por objetivo o favorecimento sexual de um sujeito. Temos situações de homens que assediam dezenas de mulheres na empresa, não há necessariamente uma vinculação de atração, e diz respeito ao exercício de poder”, detalha Adriane.

A professora de antropologia da Universidade de São Paulo (USP) e membro da Rede Não Cala, Heloisa Buarque de Almeida, aponta que é um erro acreditar que o assédio acontece exclusivamente de cima para baixo, principalmente o sexual. Ou seja, o assediador não necessariamente tem um cargo de confiança, a exemplo de um diretor ou presidente, mas podem ser profissionais que estão no mesmo nível hierárquico ou até abaixo da vítima

“Pode existir uma situação de desigualdade hierárquica em que as pessoas usam a ideia da sedução para garantir uma relação e um posto de trabalho para a pessoa assediada. O assediador não leva em conta a desigualdade de poder que existe. A vítima não se sente à vontade de dizer ‘não’ porque se vê forçada a topar. Mas o assédio pode acontecer entre pessoas iguais e também como uma ameaça de baixo para cima”, explica.

Como a cabeça responde

A exposição a um assédio pode trazer consequências diretas para a saúde mental das vítimas. A observação desse problema é um ponto positivo a ser observado pela geração atual, diz o diretor acadêmico do IPRC Brasil (Instituto de Pesquisa do Risco Comportamental), Renato Santos.

Dos anos 2000 para trás, era mais comum que o assédio fosse combatido com outra forma de assédio, sem levar em consideração os efeitos para o lado psicológico, ele avalia. Seja no passado ou no presente, as consequências do assédio podem ser desastrosas no ambiente de trabalho, e também transformador na vida pessoal de quem sofre com esse trauma.

Afinal, digerir o que aconteceu pode gerar confusões até chegar a uma conclusão positiva sobre o fato – e a resposta nem sempre será imediata. O mais recomendado é procurar tratamento com um médico especializado em psicologia ou psiquiatria.

“Quando o assédio se configura, o assediado muitas vezes perde interesse pelo projeto organizacional, não tem vontade de permanecer na empresa, tem impacto psicológico profundo. Ele pode desenvolver depressão, até mesmo síndrome do pânico. Há impactos na autoestima que podem desestruturar a própria família a partir do momento em que a pessoa sofre assédio e se não tem apoio devido pode ter problemas profundos.”

Entre o medo e a brotheragem

Embora as denúncias estejam em alta, há chances de esse número ser maior que o atual. Renato Santos assinala a possibilidade de subnotificação por conta da omissão de homens e mulheres em casos de violação sexual. Como mostra o caso de Mariana Ferrer, não basta apenas expor o problema e confiar na Justiça.

“A mulher é quem mais sofre porque ainda tem discussão de pré-conceito em relação a ela. Muitas vezes ela não se manifesta porque pode ouvir que ‘deu mole’ ou se vestiu de maneira provocativa”, diz o diretor.

Se homem sofre assédio sexual por gestora e comenta com amigo, o amigo pode reproduzir falas machistas: ‘Mas por que você não pegou? Tem que ser homem nessas horas’. Se o homem sofre assédio sexual por outro homem, ele nem vai comentar com amigos porque tem medo de qualquer comentário homofóbico. Ele sofre com o próprio machismo, completa.

Uma pesquisa divulgada pelo instituto no início do ano mostra que, entre profissionais que dizem tolerar e não tolerar o assédio moral, 41% não se manifestam se presenciam um caso do tipo. Em situações de assédio sexual, 37% demonstram indiferença ao ato, mesmo sabendo se tratar de um crime condenável.

Para Santos, há razões que ultrapassam a barreira do receio de perder o emprego e do coleguismo. “Existe o medo da retaliação. Muitas vezes a pessoa que sofreu assédio ou foi testemunha de uma situação tem medo do assediador. Isso se dá pelo exercício do poder, seja o hierárquico ou tácito, como, por exemplo, ele é amigo do chefe. Aqui no Brasil existe o medo do desemprego, mas também há o aspecto cultural que ensina que quem denuncia é X9 ou cagueta [pessoa que trai a confiança de alguém].”

O que as empresas fazem?

Em 2019, o Instituto Maria da Penha revelou em uma pesquisa que 60% das empresas instaladas no Brasil tinham ações para combater o assédio moral e sexual contra mulheres. Entre as principais iniciativas adotadas estavam canal de denúncias (38%), campanhas de conscientização e sensibilização (33%) e canal de ouvidoria (25%).

O Greenpeace Brasil implementou há três anos um programa para coibir o assédio corporativo. As vítimas em potencial levam denúncias que chegam ao chefe de integridade, pessoa responsável por decidir se a reclamação viola o código de conduta da organização, para dar seguimento ou não. A ocorrência segue em processo sem sigilo, ou seja, denunciante e denunciado saberão o andamento da investigação. A decisão é feita em conjunto com o diretor executivo no país.

Em casos mais extremos há até mesmo o apoio de empresas externas ou de colaboradores internacionais da ONG. Segundo a diretora organizacional do Greenpeace Brasil, Tatiana Mischan, é uma medida que prevê “neutralidade” na decisão. A executiva confirma que o assédio sexual pode levar à demissão de um funcionário, caso que já aconteceu recentemente.

No caso de declaração de assédio sexual, a organização aceita denúncias em um intervalo de até dez anos, mesmo que o investigado não trabalhe mais lá. “Nós identificamos se houve o assédio, a gravidade e as medidas comportamentais necessárias. Em última análise pode acontecer demissão, dependendo do caso. Em alguns casos conseguimos colocar os dois [assediado e assediador] frente a frente, dar treinamentos, mas uma confirmação de assédio sexual leva à demissão.”

Tatiana diz que o número de denúncias têm caído nos últimos meses, com uma média de dois casos por trimestre, mas não revela os dados. Atualmente, o Greenpeace Brasil tem três escritórios em território nacional – São Paulo, Brasília e Manaus – e cerca de 150 funcionários.

“Somos uma organização com jovens, voluntários, [que fazem] trabalho de campo, têm muito contato em avião e navio de viagem. A gente se prepara para a questão da integridade que pode acontecer nesse cenário. É um ambiente propício para esse tipo de situação pela própria natureza da atividade e do time”, conclui.

Um passo a mais é necessário

Para Heloisa Buarque de Almeida, a recente onda conservadora política tende a dificultar o combate ao assédio corporativo no Brasil. Isso porque, segundo ela, o discurso está ancorado em um pensamento de superioridade do homem em relação à mulher. Ainda há o agravante do ataque à participação feminina no mercado de trabalho, que é cerca de 20% menor do que a masculina, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“O conservadorismo é claramente contra o feminismo, que está colocando essa discussão em pauta. É contra os direitos das mulheres e julga que elas que se comportem e saibam o seu lugar, é o que se vê no discurso da [ministra] Damares. E também é contra os direitos LGBTQ+ porque também está denunciando esse tipo de coisa. Quanto mais conservadora uma instituição, menos canais de denúncia e apuração existirão”, acredita.

Para além dos programas de denúncia e educacionais, é fundamental que as empresas estejam atentas à promoção da equidade de cargos de liderança entre homens e mulheres. Adriane Reis assinala que essa também é uma forma assertiva de combater o assédio, juntamente com a igualdade salarial de gêneros.

Segundo ela, entre teoria e prática existe uma distância significativa a ser alcançada. “A desigualdade vem acompanhada de uma concepção patriarcal que precisa ser rompida dentro das organizações. Deve se estabelecer um movimento proativo e transformador para que não se reproduza a violência do assédio no ambiente de trabalho”, finaliza.

*O nome da entrevistada foi modificado para preservar sua identidade

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**Concepção e Coordenação de Amauri Terto e Diego Iraheta