Mesa na Flip com Lenora de Barros exalta diálogo da literatura com a imagem

PARATY, RJ (FOLHAPRESS) - Três performances poéticas-visuais abriram a mesa "O Corpo de Imagens", na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, que reuniu os artistas Lenora de Barros, Ricardo Aleixo e Patrícia Lino, com mediação da escritora Verônica Stigger, na noite desta quinta-feira (24).

Primeiro, um vídeo performance de Lenora, intitulada "A Cara. A Língua. O Ventre", em que a poeta segura uma imensa língua de argila. A ação é filmada em um plano que dá a ilusão de que a língua sai da boca da artista, que a alisa com uma das mãos de maneira cada vez mais forte a ponto de rompê-la e desfazê-la entre os dedos.

"A ideia é explorar a relação com a língua e com a palavra língua, que carrega a ideia de idioma, de órgão e de linguagem ao mesmo tempo!", explica ela, cujas poesias visuais investigam há 40 anos os limites da forma em narrativas fotográficas, performativas e audiovisuais. Um panorama dessa trajetória está em cartaz na Pinacoteca Luz, em São Paulo.

Aleixo apresentou o que chamou de "metaperformance", em que o poeta é filmado enquanto filma, com o celular, um vídeo exibido na longa tela do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, em que ele próprio lê poesias, multiplicando sua voz.

Finalmente, a portuguesa Lino, professora da UCLA, na Califórnia (EUA), arrancou gargalhadas da plateia que lotou a tenda principal do evento ao interpretar, ao vivo, dois dos trabalhos que simulam jogos e integram o livro "Kit de Sobrevivência para do Descobridor Português no Mundo Anticolonial", da editora Macondo.

O primeiro, intitulado "Bola Mapa Mundi", ironiza as conquistas dos portugueses ao sugerir instruções para o uso de uma bolinha antiestresse que se amassa com uma das mãos. Em determinado momento, a instrução é repetir que "Portugal é o centro do mundo" até acalmar-se.

O segundo jogo-poema, "Colônia", é uma versão do jogo Monopólio, "capaz de destruir as melhores amizades e ser efetivamente a origem de brigas acesas entre os participantes", em que não há lançar de dados mas tomada de territórios seguida do grito: "É meu!".

Lino ainda apresentou dois poemas-quadrinhos inéditos em que traduz poesias em desenhos de sua autoria.

Influenciados pela poesia concreta, Lenora e Aleixo contaram a história de sua relação com essa vertente da literatura brasileira a partir de anedotas familiares e escolares.

"Meu pai, Geraldo de Barros, era artista, e minha mãe adorava ler. Cresci num ambiente com o estímulo visual e o verbal, e convivia com os poetas concretos Haroldo e Augusto de Campos e Décio Pignatari, que frequentavam minha casa desde pequena", conta ela, lembrando que queria ficar acordada até mais tarde para ouvir os amigos do pai, que chamava de "boedas".

"Comecei a dar os primeiros passos a partir de uma palavra mágica consagrada pelos poetas concreto e que sintetiza os vários aspectos da linguagem poética concreta: verbivocovisual", acrescenta. "E o desafio era justamente levar adiante as próprias conquistas da poesia concreta."

Aleixo rememorou o professor de matemática da juventude que lhe apresentou a poesia concreta. "Toda aula, ele entrava na sala e informava, para quem quisesse ouvir -e só eu estava interessado naquilo- poemas de Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto e Murilo Mendes".

Certo dia, o professor deu um descanso para os poetas modernos e passou a vocalizar poemas concretos. "Aquilo me pareceu absolutamente supreendente. Parecia palavra cruzada, e não era. Parecia trocadilho, e não era. Era tudo e mais coisas", lembra.

"A escuta de poemas concretos, antes de lê-los em código, se tornaria parte do meu processo criativo de pensar a relação entre os diversos códigos: a dimensão partitural do gráfico visual, a exploração topológica da página. Essa forma sofisticada e ao mesmo tempo muito simples de arte", avalia. "Parecia que a poesia concreta havia sido feita para mim, e eu tomei posse dela."

Já Lino explicou que gosta de jogar com a ideia de gênero. "Não só como forma de quebrar o binarismo da vida, mas também quanto ao gênero literário, ao fazer um livro de poemas e quadrinhos, que não tem gênero definido."

A mesa foi encerrada com uma questão sobre o poder curativo da arte.

"É uma aposta no impossível, e temos tentado entender como isso pulsa e respira agora", disse Aleixo. "Poesia se confunde com respiração e é isso que não se limita", acrescentou ele, para quem esse encontro entre os artistas "é uma conquista num país destruído".

Para Lino, "viver experimentando sem limites, cura, e não teria outro modo se não com o os riscos dessa experimentação".

Lenora resumiu a questão em um poema improvisado. "A arte procura e cura."