Para onde irá o mercado se Bolsonaro e Moro chegarem a 2022 divorciados?

O presidente Jair Bolsonaro ao lado de seu ministro da Justiça, Sergio Moro. Foto: Adriano Machado/Reuters

No futuro próximo, se houver futuro até lá, os livros de História, se ainda existirem, contarão que Jair Bolsonaro começou a dirimir as restrições ao seu radicalismo na campanha de 2018 quando passou a dizer que nada entendia de economia.

O que parecia uma confissão de limitação, logo um entrave para a elaboração de saídas para a crise, foi logo convertido em ativo político.

Esse ativo entrou em campo em fevereiro de 2018 num encontro com investidores em São Paulo, quando o então pré-candidato provocou risos simpáticos da plateia  dizendo coisas do tipo “nem sei o que estou fazendo aqui”.

Em troca, recebeu uma recepção muito mais amistosa dos representantes do PIB do que seus concorrentes, a ponto de ser aplaudido e cotejado ao fim da fala -- diferentemente de pré-candidatos como Ciro Gomes, que foi vaiado ao sugerir a empresários paulistas que iria discutir pontos da reforma trabalhista com as centrais sindicais.

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O pedetista parecia prever o que aconteceria em outubro ao responder aos presentes que, se eles quisessem um presidente fraco, era melhor escolherem “um desses que vieram aqui com conversa fiada”.

Quem já teve a curiosidade mórbida de comparar a capacidade discursivas e o conhecimento geral, não só econômico, de Bolsonaro com qualquer outro adversário de 2018 terá a impressão de que havia na disputa um garoto de 12 anos chutando a canela dos adultos.

Venceu o garoto.

Na análise mais recorrente, Bolsonaro encontrou um portão alargado pela tempestade perfeita das crises política, que varreu do mapa alguns figurões dos partidos tradicionais, e econômica.

Para a primeira ele apontou como remédio frases-feitas do tipo “comigo não tem toma-lá-dá-cá”.

Para a segunda a estratégia foi confessar em voz alta que não entendia bulhufas.

Ao confessar a ignorância, Bolsonaro não apresentou para a plateia apenas seu posto Ipiranga, como passou a chamar o consultor em assuntos econômicos e futuro superministro Paulo Guedes. Mostrou os fios de náilon pré-instalados nos braços, pernas, ombros e cabeça a serem manejados pelos titereiros que não estavam atrás da cortina, mas na própria plateia.

Apoio a reformas, alívio na fiscalização ambiental e rodoviária, comiseração em relação à vida dura dos patrões, promessas de não intervenções e privatizações de órgãos àquela altura identificados como símbolos da ineficiência e da roubalheira soavam como música para quem de fato determina quem pode e quem não pode vestir a faixa presidencial e até quando.

O balanço de Bolsonaro em seu primeiro ano de governo é uma sucessão de revezes nos campos da educação, cultura, meio ambiente, combate à corrupção e relacionamento com as instituições, sobretudo a imprensa.

Nada disso arrefeceu a empolgação de parte do empresariado que o aplaude desde que deixou claro, ainda na campanha, quem seria o patrão de quem.

Na divisão informal de tarefas, Bolsonaro ficava com os joguinhos das redes sociais e a diversão de emparedar ministros dia sim, outro também, enquanto os adultos viam em Paulo Guedes uma linha-direta para o desmonte.

Para a turma, o mundo pode se explodir, desde que Paulo Guedes não cometa erros diante de olhos atentos e famintos pela possibilidade de ganhar dinheiro com a privatização de serviços hoje majoritariamente oferecidos pelo Estado, como educação, saúde, previdência e gestão de bens estratégicos.

Essa disposição é turbinada pela coleta de índices ainda tímidos da recuperação econômica e da geração de emprego (a qualidade e remuneração desses empregos são outros 500), mas suficientes para propagandear que o carro andou.

Uma das grandes sombras que atravessam este governo de namoros efêmeros é se a aliança com a Lava Jato, firmada com a nomeação de Sergio Moro para o Ministério da Justiça, seguirá intacta até 2022.

Um subproduto desta questão é para onde irá o mercado caso o divórcio entre lavajatistas e bolsonaristas se consuma e se desdobre em uma eventual competição pela cadeira presidencial.

Os aplausos a quem confessa a própria ignorância dão pistas de que, entre as linhas do titereiro e a conversa sobre combate à corrupção, os negócios falarão primeiro.