Melo e Soares se preparam para dar a última cartada pela medalha olímpica no tênis

Soares e Melo em confronto diante da Bélgica pela Copa Davis (Getty Images)


Por Alessandro Lucchetti

“A primeira faz tcham, a segunda faz tchum e... tcham tcham tcham tchammmm”. É provável que Marcelo Melo, nascido em 1983, e Bruno Soares (82) nunca tenham ouvido falar no bordão desse famoso comercial de um barbeador descartável, veiculado em 85. Mas é mais ou menos este o resumo do enredo sonhado: na primeira participação olímpica dessa dupla de tenistas, em 2012, eles pararam nas quartas de final. Na seguinte, no Rio, novamente foram eliminados à beira da semi e da disputa por medalhas. Na terceira tentativa, mais velhos e também experientes...quem sabe? 

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Os dois belo-horizontinos são novamente a única esperança algo consistente de medalha brasileira no tênis. Melo, que faz dupla no circuito da ATP (Associação dos Tenistas Profissionais) com o polonês Lukasz Kubot, ocupa a 7ª posição no ranking de duplistas da entidade. Já Soares, parceiro do croata Mate Pavic, é o 21º na mesma listagem. 

Cabe destacar que o ranking é apenas uma entre um punhado de variáveis a serem analisadas quando se tenta considerar as chances de duplistas num torneio olímpico de tênis. Os azarões chilenos Nicolas Massú e Fernando González demonstraram isso ao conquistar o ouro em Atenas-2004, ignorando o favoritismo dos irmãos Bryan (EUA), Llodra/Santoro (FRA), Ancic/Ljubicic (CRO), Bjorkman/Johansson (SUE), Bhupathi/Paes (IND) e Arthurs/Woodbridge (AUS), entre outros.

Soares parece bastante empolgado ao comentar as chances da dupla brasileira no Coliseu Ariake. “Acho que nossas chances de medalha são muito boas. Tanto eu como Marcelo seguimos jogando o nosso melhor tênis, acredito. A gente joga bem juntos, tem experiência de duas Olimpíadas e acho que nossas chances são tão boas quanto ou melhores do que as que tivemos no Rio. Acredito que estamos melhorando a cada ano e com certeza muito mais maduros para essa próxima Olimpíada”.

Bem mais alto do que Soares (2,06m contra 1,80m), Melo é também mais fiel ao estereótipo do mineirinho e economiza nas palavras. “Acredito que temos boas chances. Precisamos nos preparar bem para chegar lá na melhor forma possível”.

É justamente nesse aspecto que o angu dos mineiros desanda um pouco. Daniel Melo, irmão e treinador de Marcelo, observa que o Comitê Olímpico do Brasil ainda não apresentou um projeto para ajudar a aproximar os duplistas do pódio. Empenhado em colocar o país-sede da Rio-2016 entre os dez mais bem colocados no chamado quadro Nuzman de medalhas - aquele em que se contabiliza o número de peças, independentemente da cor -, o COB estruturou um plano, ainda em 2015, que envolvia remuneração de membros da comissão técnica de Melo/Soares. Até o momento em que encerramos a apuração desta reportagem, a entidade ainda não apresentara nada semelhante visando aos Jogos de Tóquio.

“Para a Olimpíada do Rio houve um grande movimento em busca das medalhas, pela nossa melhor Olimpíada. A gente teve um auxílio muito grande. Foi muito legal a estrutura que a gente teve. Mas agora a situação é outra, é perfeitamente compreensível. A situação do Brasil também tá bem diferente. A gente tem que trabalhar com o que a gente tem. Não adianta ficar lamentando muito. Temos que correr atrás. Estamos fazendo um investimento de levar nosso treinador, preparador físico e fisioterapeuta aos torneios do circuito. Estamos fazendo todo o possível para chegarmos na melhor condição nessa Olimpíada”, salienta Soares.

Há muito tempo carente de bons resultados no tênis, a torcida brasileira recebeu angustiada a notícia da dissolução da dupla Soares/Melo, em 2011. Os mais exagerados compararam a desvinculação ao fim dos Beatles. É difícil dizer até onde os conterrâneos poderiam ter chegado se tivessem permanecido juntos ao longo de todos estes anos. Com Kubot, Melo conquistou o título de Wimbledon em 2017. No ano anterior, Soares havia se consagrado no Aberto da Austrália, ao lado de Jaime Murray. A opção pela separação de rumos foi de Soares.

“Foi uma decisão minha. Achei que a gente ainda tava muito cru pro circuito e achava que seria interessante pra nós jogarmos com outros parceiros, para pegar experiência e depois retomar a parceria um pouco mais pra frente. E foi o que aconteceu. Nós dois evoluímos demais nesses anos todos. Ainda não deu para retomarmos a parceria, mas a gente tem essa vontade de voltar a jogar no circuito, sim”, diz Soares. Com sua visão privilegiada, Girafa enxergava a questão de outra forma. “Bruno achava que comigo não haveria condição de obter grandes resultados. Eu, na época, pensava o contrário”.

De qualquer forma, a parceria sub na Copa Davis, em Londres e no Rio. Tsonga e Llodra (FRA) demoliram os sonhos dos duplistas das Alterosas em Wimbledon (6/4 e 6/2). No Centro Olímpico de Tênis do Rio, os algozes foram os romenos Mergea e Tecau, que vampirizaram as esperanças pátrias (6/4, 5/7 e 6/2). Sobretudo em 2016, ficou a sensação de que não faltou muito para o pódio. “Em ambas as edições dos Jogos fizemos grandes campanhas, com jogos duríssimos. No Rio, ganhamos do Djokovic e do Zimonjic, que é um dos maiores duplistas da história. Em Londres também ganhamos grandes jogos (a vitória sobre os checos Stepanek e Berdych foi épica). Mas batemos na trave. Claro que saímos com um gosto amargo, mas isso aumenta a nossa vontade de buscar a medalha em Tóquio”, assinala o 21º do ranking de duplas.

Pode ser o canto do cisne olímpico da dupla. Ou talvez não. “Não dá para saber se será nossa última Olimpíada. Espero que não. O Federer ainda está aí, firme e forte”, diz Melo. Na verdade, o suíço tem 38 anos hoje. Soares, um ano mais jovem que o parceiro brasileiro, terá 42 em Paris-2024. Mas o sonho não acabou. Nem o pão de queijo.

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