Mel Maia: o corpo da mulher é patrimônio público?

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Mel Maia voltou a ser um dos assuntos mais comentados da internet na última semana. Em comemoração aos seus 18 anos, a atriz publicou uma série de fotos da sua festa de aniversário, que teve direito a looks ousados, bebidas, funk e muita curtição.

Acontece que, como é comum nas redes sociais, as imagens da atriz serviram, mais de uma vez, de motivação para os homens não só destilarem o seu tesão no feed como objetificarem ainda mais uma atriz que acabou de alcançar a maioridade.

Essa, claro, não é a primeira vez que isso acontece. Há três anos, quando ainda tinha 15, Mel já era alvo de comentários do tipo "gostosa" e "delícia" na internet - mais uma prova de que a mulher brasileira não tem um segundo de paz, não importa a idade.

A questão da objetificação

"De forma geral, ocorre uma maior objetificação da mulher porque ela, historicamente, ocupa este lugar de um corpo a ser consumido e de um corpo que representa, não apenas um corpo, mas um corpo de consumo", explica a psiquiatra Maria Francisca Mauro.

Ou seja, ao longo da história, o corpo feminino é visto como um objeto - e registros dessa visão de mundo datam da Idade Média, quando a sociedade capitalista tal qual a conhecemos hoje ainda estava em formação.

Soma-se a isso, segundo a psiquiatra, uma mudança de valores, em que um indivíduo é medido pela sua aparência. Aqui, independentemente de gênero, vemos uma supervalorização da aparência, de forma que tanto homens quanto mulheres são sexualizados e têm o seu valor atrelado ao seu corpo e ao que chamamos de beleza.

No entanto, fica bastante claro que essa balança, assim como tantas outras, é desigual, seja por questões de gênero, seja de raça. Homens negros são mais objetificados do que os brancos, e mulheres negras são mais sexualizadas do que as brancas.

E há de se considerar ainda os impactos dessa sexualização no cotidiano. Segundo uma pesquisa desenvolvida no ano passado pelos institutos Locomotiva e Patrícia Galvão, sete em cada 10 mulheres afirmaram já ter recebido olhares insistentes e cantadas enquanto se deslocavam nas cidades em que vivem.

Não só isso, mas 36% das 2 mil entrevistadas disseram ter passado por episódios de importunação e/ou assédio sexual - um número mais alto do que daquelas que já foram assaltadas ou vítimas de furto e/ou sequestro relâmpago: 34%.

Todos os corpos se deslocaram para este lugar de objetificação, em que o valor, a moral, a capacidade de produção e de sucesso, está atrelada à aparência e à capacidade da pessoa de preencher requisitos externos.Maria Francisca Mauro, psiquiatra

Uma questão de empoderamento?

É sabido que a responsabilidade pelo assédio sexual ou pelo estupro não recai sobre a vítima, mas sobre a maneira como a nossa sociedade foi construída. No entanto, é preciso questionar o quanto, segundo a visão da psiquiatra, desenvolvemos uma visão distorcida de empoderamento, em que a exibição do corpo feminino é entendido como assumir a autoria sobre a apresentação dos nossos corpos.

O conceito de "meu corpo, minhas regras" tem origem na chamada terceira onda feminista e diz respeito à algumas das principais lutas desse movimento: o direito ao aborto seguro, ao livre trânsito e, também, à liberdade sexual: historicamente, a sexualidade feminina sempre foi reprimida e considerada um tabu.

Essas pautas seguem relevantes até hoje - não é sem motivo que o mercado de bem-estar sexual tem crescido muito nos últimos anos -, no entanto, há de se perceber uma confusão entre a valorização do corpo e o empoderamento da mulher como indivíduo digno de direitos básicos e igualitários.

A mídia tem o seu papel nisso, reforçando o imaginário dos corpos como uma ferramenta de poder da mulher. Isso, claro, não tira o direito de cada uma escolher como se vestir livremente, de que forma posar para fotos, o que postar nas redes sociais, o quanto consumir de bebidas alcoólicas e a sua forma de escolha ao voltar para casa depois de um passeio sem que sejam alvo de críticas, comentários machistas, assédio ou, em alguns casos, até de pedofilia.

Os efeitos da objetificação feminina

Considerando todos esses aspectos é notável como a objetificação afeta a vivência em sociedade. "Quando deslocamos o valor do indivíduo para o seu corpo, muitas vezes, ele perde a oportunidades de valorizar a sua capacidade de sentimentos, a sua própria capacidade de produção de conhecimento dentro de outras horas da sua própria vida para focar apenas no seu conteúdo do corpo", reflete a psiquiatra.

No caso das mulheres, essa é uma realidade quando consideramos o apagamento daquelas acima dos 50 anos e até a cultura masculina de namorar mulheres mais jovens - ou seja, quando os corpos femininos passam pelo processo natural de envelhecimento, essas mulheres são consideradas "inúteis" e "irrelevantes" aos olhos da sociedade.

Além disso, temos a questão do mercado de trabalho: em que mulheres jovens são mais atrativas do que as mais velhas, as solteiras e sem filhos são mais valorizadas do que as mães e a necessidade de investimentos em aparência é mais cobrada no ambiente de trabalho para as mulheres do que para os homens.

Daí decorrem também uma série de outras consequências, algumas superficiais, como o lucro gigantesco gerado por empresas de cosméticos, cujo público alvo são as mulheres (e que miram, inclusive, as mais jovens) e o crescimento na busca por cirurgias plásticas decorrentes da super exposição nas redes sociais. Outras são mais profundas, como a questão dos transtornos alimentares, a violência contra a mulher e os números alarmantes de violência sexual em países como o Brasil.

Sexualizar uma jovem como Mel Maia parece um ato isolado, mas alimenta todo um sistema violento que culmina na morte de uma mulher a cada 7 horas por feminicídio no Brasil. A ideia de que os corpos femininos são "posse" e, mais do que isso, que são "públicos" precisa acabar. E a polêmica envolvendo a atriz é só mais uma prova dessa necessidade de mudança.

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