Mel Lisboa e Leonardo Miggiorin se reencontram após 16 anos em websérie

VITOR MORENO
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O ano era 2001. "Ne Me Quitte Pas", na voz da cantora Maysa (1936-1977), voltou a tocar nas rádios. A presença hipnotizante de Mel Lisboa, então com 19 anos, deixava a todos grudados na tela para assistir à minissérie "Presença de Anita" (Globo), enquanto boa parte do público torcia para que ela reparasse no inocente Zezinho, interpretado por Leonardo Miggiorin. O sucesso foi tão grande que a minissérie foi reexibida na íntegra no ano seguinte. A dupla, que praticamente estreou junta na TV nesse trabalho -Miggiorin já havia feito o infantil "Flora Encantada" no programa de Angélica-, estourou. Foram muitas capas de revistas, convites para eventos badalados e até para contracenar como casal no cinema, em "O Casamento de Romeu e Julieta" (2005). De lá para cá, acabaram não se reencontrando em frente às câmeras nem nos palcos da vida. Mas a ligação permaneceu. "Chamo ele de meu irmãozinho gêmeo de família diferente", diz em entrevista à Folha de S.Paulo Mel Lisboa, 39, ao lembrar que ambos nasceram no mesmo dia, mês e ano -ele em Barbacena (MG), ela em Porto Alegre (RS). A partir de julho, eles poderão ser vistos juntos novamente em "Fome", websérie produzida pela Cia. Pessoal do Faroeste, de São Paulo, e dirigida por Paulo Faria. A ideia é mostrar os bastidores da gravação de um filme, inspirado no espetáculo teatral "Re-Bentos" (2002), da própria companhia. O desenvolvimento do projeto tem se dado à distância, por causa das restrições ocasionadas pela pandemia. Ambos dizem que o reencontro tem sido muito prazeroso. "Eu gosto muito da Mel, admiro muito o trabalho dela", afirma Leonardo Miggiorin, 39. "Estava reparando na câmera como a gente está diferente. Foi uma sensação esquisita de que o tempo passou muito rápido." Apesar não terem contracenado mais, eles jamais perderam o contato. "Na nossa profissão, a gente vai criando pequenas famílias no trabalho, que é sempre muito intenso", explica Lisboa. "Acabamos convivendo com um grupo de pessoas muito intensamente, e depois vai cada um para um canto, mas a vivência fica." "Temos uma relação de admiração e de contato", afirma Miggiorin. "Como fazemos aniversário no mesmo dia, mesmo que à distância, a gente sempre se parabeniza, eu vou nas peças dela, ela vai nas minhas. Estamos sempre juntos em alguma estreia, e depois saímos para jantar com amigos." Os dois não têm nenhum problema em comentar a minissérie que os alçou à fama, pelo contrário. "Essa história é muito presente nas nossas vidas, foi muito marcante para nós", conta o ator. "Sou muito grato a esse personagem, ao Maneco [Manoel Carlos, autor da minissérie baseada no livro homônimo de Mário Donato], a esse momento que a gente viveu." A opção agora é por fazer algo radicalmente diferente do que foi apresentado há 20 anos. "Tem todo um encantamento daquela época que permeia esse reencontro, mas agora é um novo jogo", avisa. "Tinha uma inocência naqueles personagens, que perdemos um pouco. O interessante desse projeto é a possibilidade de fazer uma oposição ao Zezinho e a Anita, fazer algo diferente para brincar com esses registros." Os personagens ainda estão em desenvolvimento. "Eu nem sei como vai ser o resultado mesmo, não sei até que ponto a história vai ficar no material", confessa Lisboa. "Temos como base a peça de 2002, mas Paulo Faria trabalha muito com o processo. Ele trouxe esse texto para desenvolver o assunto e falarmos sobre o agora." "A companhia sempre trabalha com histórias marginais e personagens do centro de São Paulo. A gente acaba tendo que ouvir muitos especialistas por falta de documentos sobre esses assuntos", lembra a atriz. "São assuntos que ninguém quer tratar, e o artista tem essa função de levantar os temas que nem sempre são os mais agradáveis, e apontar as feridas da nossa sociedade", completa o colega. Os encontros têm sido virtuais e a ideia é misturar ficção e realidade, com cenas filmadas nas casas dos atores. "Estamos fazendo o que é possível e viável, todo mundo está reinventando linguagens, ressignificando", lembra ela. "A pandemia acabou sendo muito difícil para as pessoas da área da cultura, muitas das coisas eram presenciais e muitas não estamos podendo fazer há muito tempo." O próprio Miggiorin diz que para ele não foram tempos fáceis. "Passei um ano muito difícil, como todos", revela. "Perdi meu emprego, minhas peças foram interrompidas, assim como o meu fluxo de criatividade. Mas estou aproveitando para estudar, estou fazendo duas pós-graduações (uma em cinema e outra em psicologia). Tenho usado esse período para tentar melhorar como pessoa." Ele diz que alugou o apartamento onde morava em São Paulo e voltou para a casa dos pais. "Foi para ficar mais perto deles e emocionalmente estar melhor", afirma. "Quero estar perto de quem eu amo. Vim buscando esse acolhimento e também estar próximo da minha raiz." "As perspectivas mudaram, me recolhi, mas estou mais feliz do que antes", garante ele. "Todo mundo passou por esse momento, perdeu coisas e está precisando se reencontrar. É bom que a gente fica menos vaidoso, orgulhoso e prepotente." Neste momento, esse reencontro tem sido com os colegas, nos palcos. Além de "Fome", o ator está em outros dois projetos: as peças "Bicicleta de Papel", que aguarda a liberação dos teatros para voltar, e "Não Se Mate", que está em cartaz até 11 de abril e que ele pretende levar para os palcos, quando possível. Já Mel Lisboa, que faz parte do elenco fixo da Cia. Pessoal do Faroeste, também tem aproveitado para participar de leituras e outros projetos. Na próxima sexta (9), ela deve fazer mais uma apresentação virtual do monólogo "Madame Blavatsky", que ela criou na pandemia. Entre tantos trabalhos, ambos gostariam de ver uma nova reexibição de "Presença de Anita", ou que a série entrasse no catálogo do Globoplay (atualmente, há apenas a versão condensada em filme, exibida pela Globo em 2015). Na trama, Anita é assassinada por Nando (José Mayer), um homem bem mais velho que fica fascinado por ela, enquanto Zezinho morre atropelado ao tentar fugir após ser confundido com o assassino. Ambos entendem, no entanto, que a série não poderá ser avaliada pelo público com os olhos de hoje para não acabar vítima de cancelamento por apresentar tanto temas polêmicos. "Assim como revemos os clássicos do cinema, temos que entender que as obras têm o seu tempo, a realidade daquele tempo", diz Lisboa. "Você julgar uma obra ou assistir a um filme da década de 1930 e 1940 com o olhar de 2021 é meio perigoso", avalia. "É preciso que a gente tenha esse distanciamento das mudanças que houve, mas pensar como seria fazer uma obra parecida hoje? Seria como foi? Quais as mudanças? O que precisaria mudar? Se fossem refilmar hoje seria igual? Acho que não. Essa reflexão que é interessante." "A arte é por natureza subversiva", concorda Miggiorin. "Temos que respeitar o contexto de cada obra, olhar para como a gente pesava antes. Um filme, uma obra ou um livro, por mais que tragam características machistas do passado, servem como marca de como se pensava naquela época. É uma fotografia de um tempo." "Muitas questões podem surgir daí", lembra o ator. "É muito importante revisitar, até para que possamos rever o nosso olhar. Hoje a gente está mais ciente dos temas importantes e relevantes para a sociedade. Respeito muito aquele momento, quem fomos e o que vivemos, mas essa reflexão -de olhar para aquilo e ter um posicionamento distinto- é o caminho."