Médica suspensa pelo Einstein se desculpa por comparar coronavírus ao Holocausto

Colaboradores Yahoo Notícias
·4 minuto de leitura
A médica oncologista e imunologista Nise Yamaguchi.
A médica oncologista e imunologista Nise Yamaguchi.

A médica oncologista e imunologista Nise Yamaguchi pediu desculpas por ter comparado o pânico provocado pelo novo coronavírus ao Holocausto, extermínio de mais de 6 milhões de judeus pela Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial. A fala provocou sua suspensão do Hospital Israelita Albert Einstein.

Em nota divulgada à imprensa, a representação de Yamaguchi afirma que “nunca foi ela antissemita, ao contrário, expressa verdadeira e irrestrita admiração ao conhecimento e toda a contribuição que o povo judeu deu ao planeta, quer por suas percepções cientificas, quer pela sua convivência mais íntima”.

O esclarecimento ainda “manifesta o pedido de desculpas por expressões outras e interpretações errôneas sobre assuntos sensíveis ao grande sofrimento judaico que envolveram seu nome, pois é solidária à dor dessa ilustre comunidade como a maior das atrocidades de nossa história ocidental”.

O Hospital Albert Einstein confirmou ao Yahoo! que a suspensão da médica se deve à “analogia infeliz e infundada” entre o sofrimento dos judeus e o da população com medo da pandemia, durante entrevista à TV Brasil.

Nise Yamaguchi ganhou notoriedade durante a pandemia por se alinhar ao discurso do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e defender o uso da hidroxicloroquina, combinada à azitromicina, para o tratamento de coronavírus em estágio inicial. A OMS (Organização Mundial da Saúde) vetou o medicamento contra a Covid-19 por não ter eficácia cientificamente comprovada.

A médica, inclusive, chegou a ser cotada para o Ministério da Saúde quando o então titular da pasta, Luiz Henrique Mandetta, media forças com Bolsonaro sobre protocolos de distanciamento social para o controle da pandemia.

Confira a nota da representação de Nise Yamaguchi:

"Dra. Nise Yamaguchi, por meio de sua assessoria jurídica, manifesta este esclarecimento:

Vem agradecer as inúmeras manifestações de apoio e solidariedade de todos aqueles que compreendem a importância da discussão da Hidroxicloroquina em tratamento precoce do COVID – 19, tendo exercido esse mister conjuntamente com o Doutor Vladimir Zelenko da Comunidade Chassidica de Nova York pela utilização de seu protocolo no Mundo.

Têm orgulho de ser membro do Corpo Clínico do Hospital Israelita Albert Einstein por mais de 30 (trinta) anos, possibilitando ajudar e atender inúmeros pacientes. Agradece de forma especial todo o apoio por cartas, e-mails e ligações de diversos membros da Comunidade Judaica, que compreenderam que jamais seria ela anti-semita, já que foi ela a maior apoiadora do processo de conversão da sua irmã para o Judaísmo (Greice Naomi Yamaguchi).

Homenageia os brilhantes cientistas judeus na pessoa do seu mentor, o Professor Doutor Reuben Lotan (Z”L) do M.D. Anderson Cancer Center e previamente do Instituto Weizmann de Israel, que muito a apoiou na sua tese de doutorado na Universidade de São Paulo.

Por tudo aqui já relatado, é cristalino o entendimento de que nunca foi ela antisemita, ao contrário, expressa verdadeira e irrestrita admiração ao conhecimento e toda a contribuição que o povo judeu deu ao planeta, quer por suas percepções cientificas, quer pela sua convivência mais íntima.

Por fim, manifesta o pedido de desculpas por expressões outras e interpretações errôneas sobre assuntos sensíveis ao grande sofrimento judaico que envolveram seu nome, pois é solidária à dor dessa ilustre comunidade como a maior das atrocidades de nossa história ocidental.

Suas palavras, objeto de interpretações não condizentes com suas convicções, foram manifestadas no intuito de expressar a maior dor que ela conhece."

Procurada pelo Yahoo!, a assessoria de imprensa do Hospital Israelita Albert Einstein emitiu a seguinte nota:

“1. O hospital respeita a autonomia inerente ao exercício profissional de todos os médicos, jamais permitindo restrições ou imposições que possam impedir a sua liberdade ou possam prejudicar a eficiência e a correção de seu trabalho.

2. A Dra. Nise Yamagushi faz parte do corpo clínico do Hospital, sendo admissível que perfilhe entendimento próprio com relação ao atendimento de seus pacientes ou à sua postura em face da pandemia ora combatida, desde que observe as regras relacionadas ao uso da sua condição de integrante do Corpo Clínico em sua comunicação.

3. Trata-se, contudo, de hospital israelita e a Dra. Nise Yamagushi, em entrevista recente, estabeleceu analogia infeliz e infundada entre o pânico provocado pela pandemia e a postura de vítimas do holocausto ao declarar que ‘você acha que alguns poucos militares nazistas conseguiriam controlar aquela MASSA DE REBANHO de judeus famintos se não os submetessem diariamente a humilhações, humilhações, humilhações...’.

4. Como se trata de manifestação insólita, o hospital houve por bem averiguar se houve mero despropósito destituído de intuito ofensivo ou manifestação de desapreço motivada por algum conflito. Durante essa averiguação, que deve ser breve, o hospital não esperava que o fato viesse a público.

A expectativa do hospital é a de que o incidente tenha a melhor e mais célere resolução, de modo a arredar dúvidas e remover desconfortos”.