#MedBikini: julgar médicas pelas roupas que usam fora do consultório é machismo

Marcela De Mingo
·5 minuto de leitura
A mexicana Daisy Sanchez foi uma das médicas cirurgiãs a aderirem à campanha (Foto: Twitter)
A mexicana Daisy Sanchez foi uma das médicas cirurgiãs a aderirem à campanha (Foto: Twitter)

Médicas que usam biquíni são pouco profissionais? Essa foi a discussão levantada nos últimos dias nas redes sociais com a hashtag #MedBikini, criada em resposta a um estudo norte-americano que, justamente, desmerecia jovens médicas profissionalmente por conta de sua escolha de look para um dia de praia ou piscina.

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Um documento publicado na renomada revista médica Journal of Vascular Surgery, focada em especialistas de cirurgia vascular, implicava que profissionais da área que ainda são jovens e escolhiam usar biquínis no seu tempo livre e postar fotos nas redes sociais - e não usar essas peças, como pode parecer, dentro do ambiente médico -, podem ser consideradas "menos profissionais".

Originalmente, o artigo foi publicado em dezembro de 2019, mas acabou viralizando depois de ser incluído na edição de agosto deste ano da publicação. Na análise, perfis online de mais de 480 profissionais foram analisados segundo alguns critérios, como tipo de roupas e fotos postadas, comentários feitos em fotos de outras pessoas e outras categorias que poderiam definir aquele médico em questão como pouco ou totalmente não-profissional aos olhos do paciente.

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Como resultado, uma série de médicas e profissionais da saúde usaram as próprias redes sociais para criticar o estudo usando a hashtag #MedBikini e explicar como é possível ser uma profissional respeitada e competente independente da sua escolha de roupa para os momentos de lazer.

Aliás, que o ambiente médico e científico é machista, é inegável. No Brasil, vemos aumentar a presença das mulheres no meio nos últimos anos, segundo uma pesquisa feita pela Faculdade de Medicina da USP em 2018. No entanto, a diferença de salário entre homens e mulheres ainda é notável. Tanto que a prevalência de mulheres nas profissões médicas menos remuneradas é de 80%, enquanto esse número baixa para 49% quando se fala nas mais bem pagas.

É óbvio que, quando o assunto são as redes sociais, todos precisam de prudência no que diz respeito aos seus posicionamentos da rede - não à toa o papel dos influenciadores têm sido tão questionado. Mais de uma vez já vimos casos de profissionais que fizeram comentários racistas, homofóbicos ou machistas na internet e viram suas carreiras serem afetadas por essas escolhas.

No entanto, a mídia internacional explica que o estudo parece ter focado os comentários em relação às mulheres e suas escolhas de roupas de praia - ou seja, criticando essas mulheres por usarem biquínis enquanto estão de férias ou de folga, e por postarem essas imagens em seus perfis.

"A misoginia é medieval. Eu preciso usar o meu jaleco a todo momento para receber o título de 'profissional'? Divertida, sexy, inteligente e trabalhadora podem existir no mesmo espaço. Eu posso usar biquínis no meu tempo livre e ser uma profissional competente e compassiva no trabalho", escreveu Vera Bajaras, uma nefrologista das Filipinas.

A hashtag, claro, chegou ao Brasil, e muitas profissionais demonstraram apoio às colegas, publicando imagens suas no trabalho e em momentos de descontração, provando que o tipo de roupa que uma mulher usa fora do hospital não determina o seu caráter como profissional na sala de cirurgia.

A médica havaiana Candice Myhre fez um longo desabafo no Instagram, explicando que a "Dra. Biquíni" não medirá esforços para salvar um paciente que se acidentou em alto-mar. "Novidade: Médicas mulheres podem usar o que quiserem", escreveu ela.

Desde então, tanto a revista quanto os autores do estudo pediram desculpas publicamente e explicaram que a sua intenção era alertar jovens médicos a cuidarem do que colocam disponível nas redes sociais. O conselho, claro, é sempre válido, porém é fato que mirar especificamente em mulheres e na sua escolha de roupa para um momento de lazer na praia ou piscina não deveria nunca determinar a sua capacidade na sala de cirurgia.

São ideias como essa que vilanizam mulheres vítimas de violência, por exemplo, culpabilizando as vítimas por usarem roupas que "provocam" os homens. Na verdade, a lógica deve ser inversa: ao invés de ensinar mulheres a não usarem certos tipos de roupas, deveria-se ensinar os homens a não objetificar as mulheres e a controlarem os seus impulsos sexuais.

No meio corporativo, é fácil ver como isso também acontece. Mais de uma vez já vimos comentários sobre como uma mulher que usa um decote ou uma saia mais curta é julgada e até prejudicada no ambiente de trabalho - muitas vezes sendo acusada injustamente de seduzir superiores para conseguir vantagens profissionais.

É difícil acreditar que em 2020 ainda precisamos repetir o discurso de que a roupa não determina o caráter ou a capacidade de alguém, porém, percebemos também que reforçá-lo é importante para gerar questionamentos no pensamento de base da sociedade, o que, por sua vez, vai gerar mudanças.