Mateus Fazeno Rock cartografa Fortaleza com seu 'rock de favela': "Não é só vestir preto"

As ruas da capital cearense inspiram Mateus em seu
As ruas da capital cearense inspiram Mateus em seu "rock de favela". (Foto: Iago Barreto/Divulgação)

Se a música é também cartografia de uma cidade, o Mateus Fazeno Rock vem mandando muito bem na cena cultural de Fortaleza, Ceará. Cria da Sapiranga, bairro expressivo da cidade e palco de uma chacina tenebrosa em 2021, o artista vem desde a adolescência encontrando novas formas de contar a sua história e a história da “Sapi”.

Sem estranhamento, viu? “Fazeno” é como se fala aqui no Ceará, onde a gente carinhosamente engole o “d” dos gerúndios. Cantano, dançano, subverteno. O disco de estreia de Mateus, “Rolê na Ruínas” (2020), foi lançado no fervor da pandemia e catalisa as ânsias, sonhos, denúncias e ruínas de um jovem negro da capital cearense, considerada uma das cidades mais violentas do Brasil.

O cantor trabalha agora para lançar o novo projeto, intitulado “Jesus Ñ Voltará”, que já tem single. Em “Pose de Malandro/Me querem morto”, Mateus e o rapper fortalezense Big Léo cantam: “Essa é a morte do esquecimento, morte colonial, com pressa, com dor, com sofrimento”.

Mas por que fazer rock?

O nome artístico de Mateus, apesar do trocadilho esperto com o gênero que canta, é também um marcador importante para o artista. “Antes de começar esse trabalho, também passei por um processo de tentar entender o que estava fazendo. Uma vez, fui chamado para participar de um evento para mostrar as músicas e assinei ‘Mateus estudando rock de favela’ (risos). Depois pensei em ‘Fazeno’. Era um nome voltado para representar o projeto. Ele se mistura: é nome artístico, apelido”, conta.

Rock é a linguagem que sempre interessou o jovem, mesmo reconhecendo que as referências no Brasil ainda são brancas. Led Zeppelin, Nenhum de Nós e Legião Urbana, por exemplo, fizeram parte da formação do artista. Foi no grunge e no punk que o artista começou a se encontrar. “Indo mais a fundo você descobre que o rock foi roubado, apropriado. Quando entendi que não existe um rock, mas uma energia que transforma as músicas em rock, percebi que rock é uma música de gueto, de favela, de pessoas pretas falando sobre suas festas, vitórias, territórios”, aponta.

“No Brasil, o rock virou música de uma galera branca, vestindo camisas pretas. Eles são da classe média, são jovens de apartamentos. Eles têm crises existenciais. Isso vem desde os anos 80. É uma cena que não considera minha existência e existências como a minha.”Mateus Fazeno Rock

Música atravessada por outros ritmos

Tanto em “Rolê nas Ruínas” quanto em “Jesus Ñ Voltará”, a mistura de batidas, estilos e gêneros marcam o som de Mateus como algo seminal. Ao longo da pandemia, o artista se sobressaiu com lives e outros projetos remotos, sempre na tentativa de levar a música longe.

Com a flexibilização das medidas sanitárias, já está sendo possível fazer shows e ver todo mundo cantarolar o refrão de “Melô do Djavan”, sempre uma das mais pedidas. “Jogo meus problemas todos pelo ralo de manhã/Ralo, ralo, ralo, mas não tem dinheiro pra gravar meu som”.

A melodia da música até que abranda a temática, mas a verdade é que desde o fim de 2021, sustentar-se na cena alternativa tem sido cada vez mais desafiador. Não só para Mateus, como ele ressalta: “É muito difícil ficar aqui na cidade, às vezes produzindo as próprias festas para poder conseguir tocar e ter grana. Você faz uma festa para tentar pagar um clipe, uma capa, um ensaio, um lançamento”, comenta.

Incentivo à cultura

Hoje, a principal lei de incentivo à cultura no Brasil, Lei Rouanet, passou por uma significativa mudança. Como o Yahoo já havia explicado, houve a redução de 50% no limite para captação de recursos pela lei.

  • Para projetos de "tipicidade normal", o teto cai de R$ 1 milhão para R$ 500 mil.

  • Para projetos de "tipicidade singular", como desfiles festivos, eventos literários, exposições de artes e festivais, o valor fica limitado a R$ 4 milhões.

  • Para aqueles de "tipicidade específica" — concertos sinfônicos, datas comemorativas nacionais, educativos e ações de capacitação cultural, inclusão da pessoa com deficiência, museus e memória, óperas, projetos de Bienais, projetos de internacionalização da cultura brasileira e teatro musical — o valor máximo fica em R$ 6 milhões.

Para Mateus Fazeno Rock, é importante que haja rotatividade entre os artistas do país. Seja do Ceará a São Paulo, do Rio de Janeiro ao Pará, há uma questão de sobrevivência que artistas do mainstream pouco experimentam. “Era bom que os festivais levassem pessoas daqui. Luiza (Nobel), Mumu, Má Dame, Nego Gallo, Outra Galera. Precisa dessa rotatividade. Eu acho que é necessário para a sobrevivência do trabalho em vários aspectos: financeira, expansão”, pontua.

As conexões, felizmente, se ampliam na carreira de Mateus. O novo disco já conta com participações de prestígio, como Brisa Flow e Jup do Bairro. Com 11 faixas, ele deve vir com influências interessantes do Hip Hop. O artista ainda quer lançar um curta-metragem com as canções do projeto. “Jesus Ñ Voltará” deve estar nas ruas até agosto.

“Eu queria sentir que vai ser possível continuar trabalhando. Quero viajar, passar pelos festivais, viabilizar um bom ensaio para os shows. Não é ficar milionário, é só mesmo que a coisa ande tranquilamente, flua naturalmente sem que eu passe tantos perrengues. Não deveria estar sendo tão difícil”.Mateus Fazeno Rock

Ouça Mateus Fazeno Rock em todas as plataformas digitais. (Foto: Jorge Silvestre/Divulgação)
Ouça Mateus Fazeno Rock em todas as plataformas digitais. (Foto: Jorge Silvestre/Divulgação)