Maternidade plural: pelo olhar da mãe preta, periférica e sapatão

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Alessandra Ayabá e Aline Brito, mães de Jamal e Jawari (Foto: Cadu/ Instagram @maternidadesapatao)
Alessandra Ayabá e Aline Brito, mães de Jamal e Jawari (Foto: Cadu/ Instagram @maternidadesapatao)

Por Janaína Bernardino

A maternidade também é ancestralidade. Há algo bonito em ressaltar as mães pretas que vieram antes e que, por muito tempo, tiveram suas histórias invisibilizadas. É o que ressaltam Alessandra Ayabá, confeiteira artesanal e criadora de conteúdo digital, e Aline Brito, também criadora de conteúdo na internet. Juntas, elas são mães dos gêmeos Jamal e Jawari e relatam essa jornada de dupla maternidade no perfil Maternidade Sapatão, no Instagram.

"Ser mãe preta é sinônimo de muita força e ancestralidade, são várias mulheres pretas que te mandam energias positivas de outro plano e te mostram o caminho da maternidade”, dizem Alessandra e Aline sobre a importância da ancestralidade no processo maternal.

Apesar de sempre querer ser mãe, Aline aponta que a decisão de quem gestaria as crianças não foi difícil. “Eu sou mais medrosa, só de me imaginar passando por uma cesária, sentindo a dor do parto, não é para mim. Eu sempre quis e sempre vou querer ser essa mãe que tá ali no papel de ser parceira e companheira da mãe gestante, o apoio no dia a dia”, destaca, em entrevista ao Yahoo.

No entanto, a sociedade ainda homofóbica diversas vezes reage com preconceito a duas mães nesse papel. Um estudo realizado em 2018 pela pesquisadora Paula Galdino, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), mostrou o preconceito sofrido por casais homoparentais no Sistema Único de Saúde (SUS). De acordo com a pesquisa, mulheres que procuram ajuda médica pelo SUS para se tornarem mães passam por violências físicas e psicológicas por parte dos profissionais diariamente.

É o caso de Aline e Alessandra, que também foram vítimas dessa problemática estrutural. “Eu fico muito triste em saber que mesmo todo mundo sabendo que dentro das quebradas existem várias pessoas LGBTQIA+, o Sistema Único de Saúde, que por sinal é o maior do mundo, está bem despreparado, desatualizado e desrespeitoso quando o assunto é receber e cuidar de famílias homoafetivas”, desabafa Aline.

A criadora de conteúdo também destaca a dificuldade da sociedade em visualizar uma família com duas mães, tendo que em alguns momentos impor seu papel, principalmente dentro da maternidade “tradicional”. “Fizemos o pré natal inteiro pelo SUS e os médicos em todo momento despejaram na Alessandra uma heteronormatividade compulsória, que não existe. Em vários momentos, dentro da sala, me taxaram de irmã dela e eu tive que ressaltar que não era irmã, mas, sim, companheira e também mãe das crianças”, relembra.

Alessandra Ayabá e Aline Brito, mães de Jamal e Jawari (Foto: Ju Almeida/ Instagram @maternidadesapatao)
Alessandra Ayabá e Aline Brito, mães de Jamal e Jawari (Foto: Ju Almeida/ Instagram @maternidadesapatao)

Apesar dessas violências cotidianas, ambas contam que a maternidade abriu um leque de possibilidades para elas em vários campos, especialmente o do mercado de trabalho digital. “Através das parcerias do Instagram, recebemos uma grana melhor do que um trabalho CLT, que era o que eu fazia antes de ter o perfil maternidade sapatão. Hoje, tenho a possibilidade de trabalhar em casa e ter mais tempo com a família, dividir as tarefas com a Lê e acompanhar o crescimento dos nossos filhos, estar disponível”, conta Aline sobre possibilidades.

Aumento da família

O casal também não pretende parar nos gêmeos e sonha com uma família grande. Elas pensam, no futuro, em mais uma gravidez e consideram também a possibilidade de adoção. A gestação dos meninos não foi tranquila, pelo contrário - Alessandra ficou doente, perdeu 30kg e passou por oito internações. Por isso, a vontade de passar pela experiência de ter uma gestação mais tranquila e adotar uma criança é imensa.

Dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA) mostram que, das 4.148 crianças aptas à adoção, atualmente 661 (15,9%) são pretas. Além disso, informações do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) indicam que seis a cada 10 candidatos indicam alguma preferência étnica no formulário de adoção. Entre eles, a maior parte quer crianças brancas e só 4,2% escolhem crianças negras.

“A questão da adoção no Brasil, principalmente para crianças pretas, é muito problemática. Até nisso, o racismo é muito cruel, então tendo essa visão, eu estaria sendo injusta com essas crianças em permitir que mais uma delas seja abandonada ou rolando para lá e cá dentro do sistema”, reflete Aline.

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