A maternidade real como ato político e de troca na internet

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Isadora Ribeiro teve Levi apenas alguns dias antes da quarentena ser decretada em São Paulo (Foto: Isadora Ribeiro / Instagram)
Isadora Ribeiro teve Levi apenas alguns dias antes da quarentena ser decretada em São Paulo (Foto: Isadora Ribeiro / Instagram)

A maternidade não é simples. A maternidade em tempos de pandemia de coronavírus, menos ainda. A maternidade em tempos de pandemia e aberta às reses sociais, então… nem se fala! Ser mãe é o sonho de muitas mulheres, mas é verdade que a maternidade foi idealizada e monetizada tanto quanto os padrões de beleza e o papel da mulher na sociedade. Por isso, é reconfortante encontrar mulheres que têm trabalhado para colocar os pés no chão e compartilhado as dores e alegrias do que é ser mãe e, principalmente, do que é ser mulher em tempos como esses.

Isadora Ribeiro deu à luz seu primeiro bebê, Levi, apenas alguns dias antes da primeira quarenta ser decretada no estado de São Paulo, em 2020. Para ela, a palavra que melhor descreve a maternidade é "incerteza". "Desde antes de engravidar, até quando estamos gestando, nos preparando para receber o bebê, passa de tudo na nossa cabeça. É muita coisa que não sabemos como irá ser ou acontecer. Levi é nosso primeiro filho, estava previsto para abril/maio e acabou decidindo nascer em março um pouco antes da quarentena começar. Foi um grande susto sua vinda antecipada", explica ela.

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O momento, então, foi de foco total no pequeno, que ficou na UTI neo-natal, enquanto, do lado de fora, as coisas começavam a tomar uma proporção nunca antes vista. "Foi quando fomos para casa com ele que tudo começou a ficar mais palpável. Eu e meu marido percebemos que teríamos que respirar fundo e bater tudo aquilo sozinhos no peito: trabalhos atrasados, casa, cachorro, bebê e pais recém-nascidos. Foi outra onda de incerteza, mas se quiséssemos continuar navegando tínhamos que focar no que podíamos fazer naquele momento. Afinal, precisávamos estar presentes", diz.

Para ela, o mais difícil desse período foi enxergar que "o tempo não perdoa": Levi só conheceu os avós paternos com 7 meses. Já os maternos o conheceram com 1 mês, mas à distância, sem a possibilidade de carregá-lo no colo. "Fomos literalmente vivendo um dia por vez e mantendo sempre o contato pela internet com as pessoas que amamos para estarem presentes de alguma forma", conta.

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Uma maneira de lidar com as turbulências internas e externas foi colocar online o que ela passava. Isa percebeu desde cedo que sua maior inspiração poderia ser a rotina, a vida como realmente é, e começou a produzir conteúdo em cima desse viés - hoje, 100 mil pessoas acompanham as suas reflexões só no Instagram. "Eu também sempre quis ser mãe! Já era um assunto que eu lia e me informava há anos e sei o valor que é pesquisar sobre alguma coisa e encontrar alguém que decidiu abrir um pouco da sua realidade. Sendo assim, falar sobre a maternidade não seria diferente. Teria um pouco do que sinto, vivo, ri e chorei por aqui, sempre pensando que do outro lado pode ter outra mulher, vivendo a mesma coisa (ainda que com realidades diferentes), mas que se sentirá abraçada de alguma forma", explica.

Ana Soares, conhecida na internet pelo arroba "Moda Pé No Chão", também é o que podemos chamar de "mãe de pandemia". Nina, sua primeira filha, nasceu em casa, em abril do ano passado, quando o coronavírus já avançada com força por aqui. A bebê nasceu na cama do casal, recepcionada apenas por pai e mãe, em um parto domiciliar não-planejado.

"Se já não é fácil ter um neném e passar por um pós-parto, puerpério, início de amamentação, numa pandemia, então… a Nina nasceu bem no início e ainda era uma coisa muito incerta, a gente não sabia como as coisas iam funcionar, e grávidas e puerpérias nem estavam ainda na lista de grupo de risco da doença", explica ela ao Yahoo Vida e Estilo. "Foi muito difícil. Foi um cenário que me deixou mais ansiosa do que eu já estava, insegura com um monte de coisas. Eu teria um parto hospitalar, e estava muito insegura quanto a isso. Fiquei de março a abril em lockdown, e esse cenário de incertezas e dúvidas potencializou várias coisas que se desenrolaram: uma depressão pós-parto e uma dificuldade no início da amamentação".

A blogueira, que estourou na internet como uma das primeiras sobre moda da vida real, está online há 12 anos e angariou um público fiel de lá para cá, mas antes, durante e após o nascimento de sua bebê, se sentiu mais sozinha e desamparada do que nunca, também porque ficou sem apoio médico, já que rompeu com a doula e a médica logo após o parto.

"Nunca passou pela minha cabeça passar por uma situação dessas, ficar desassistida numa pandemia. A Nina teve que passar por um procedimento no frênulo lingual que nasceu encurtado, ela estava tendo dificuldade de mamada, e limita muito a gente ficar sem uma rede de apoio, sem a ajuda que a gente achou que teria antes da pandemia. A gente não está cedendo, estamos realmente isolados, contando com pouquíssima ajuda - da minha sogra, eventualmente, e só. E a coisa potencializa, o esgotamento físico, mental, a tristeza, a sensação de isolamento, de solidão que já é algo inerente a um puerpério", explica.

Apesar de todas as dificuldades, Ana se sente com sorte por ter escapado de um sistema que, historicamente, lucra muito e se beneficia da invulnerabilidade das mulheres que engravidam e se tornam mães, independente da idade - não à toa, o Brasil é campeão de cesáreas, passando muito acima da média anual indicada pela OMS, e os casos de violência obstétrica não são poucos. Tudo isso ela sentiu que precisava contar para quem quisesse ouvir e usou suas redes sociais para relatar a sua experiência desde então:

"Achei importante, desde o início, compartilhar o meu ponto de vista sobre o que eu venho passando, até para outras mulheres se sentirem acolhidas, para ficarem alertas quanto a isso, para usarem a minha experiência para não passarem pelo que eu passei,", conta. "E sobre ficar grávida aos 40 anos, existe um terrorismo médico que as mulheres não vão conseguir engravidar, que têm que passar por cesárea… Essa indústria é muito lucrativa e rouba a nossa maternidade, os nossos partos, a nossa amamentação… então, eu falei 'Eu tenho que compartilhar essa minha vivência para que as mulheres consigam ter outro ponto de vista, entenderem que não é bem por aí'".

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Com o nascimento da bebê e todas descobertas que acompanham, Ana tem buscado compartilhar os seus aprendizados de maneira leve, considerando tanto o seu próprio tempo e as necessidades do momento, quanto respeitando os seus próprios momentos de introspecção e silêncio - principalmente, para descobrir como absorver melhor essas vivências e como compartilhá-las com responsabilidade, cautela e acolhimento.

Aceitação da maternidade como ela é

Para Isadora, a resposta do público às suas reflexões pé no chão sobre ser mãe foram ótimas. Segundo ela, seus seguidores foram muito afetuosos desde o início. "Acho que, por compartilhar que sempre foi um sonho nosso, estavam super na torcida. Quando contei que estava grávida fiquei surpresa com tanto carinho. E quando Levi nasceu demonstraram muita empatia com o nosso momento. Percebo que muitas famílias começaram a me seguir, mas vejo que muito mais pessoas que ainda não tem filhos ou nem pensam em ter, querem trocar figurinhas sobre isso. Afinal, falar sobre a parentalidade não é só um assunto que deve ser de interesse para mães, mas da sociedade como um todo", explica ela.

O compromisso de Isa sempre foi ser fiel com o que ela sente, por isso, define seu conteúdo como uma parcela bem grande de desabado e outra ainda maior de aprendizados pessoais. E tudo isso acontece no formato de troca com as pessoas que a acompanham online: "Na maternidade tudo acontece de forma muito intensa, profunda e individual. É uma oportunidade de (r)evolução. Mas só se nos permitirmos. E eu topei entrar nesse mar revolto da maternidade, pois acredito que a maternidade pode ser simples - não fácil, mas simples. Livre de excessos, isso vai de coisas à culpa."

A influenciadora explica que pratica diariamente o exercício de refletir sobre o que aprendeu enquanto amamenta Levi, e o resultado dessas reflexões viram conteúdos que ela compartilha em diferentes formatos. "Não tenho a intenção de mudar ninguém. Gosto de convidar as pessoas a ampliarem o olhar delas sobre o mundo, o dia a dia delas e, agora, da maternidade. Da mãe que é, antes, mulher e de diversos assuntos que precisamos conversar e trocar vivências sem o intuito de convencer, mas de ouvir com atenção e livre de julgamentos. As redes sociais já nos bombardeiam com filtros, comparações e imposições demais. Espero que mães terminem de ler um texto meu e se sintam acolhidas, deem risada, se lembrem de respirar fundo e de que são incríveis", completa.

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Já Ana angariou um público muito fiel desde que começou a blogar, e percebeu muitas nuances desse engajamento durante a jornada. "Desde que eu comecei a compartilhar a maternidade, eu fui perdendo muitos seguidores, muita gente começou a reclamar sobre, e isso só mostra como falar de maternidade é político, é necessário", explica. "As mulheres existem, elas assumem outros papéis e a maternidade é um deles. É um trabalho invisibilizado, que não é reconhecido. Muita gente se identificou porque era mãe e a minha experiência ajudou, ou porque queria ser mãe, ou então nem sabia que tinha esse desejo, tinham questões, medos, anseios e me viam falar disso de uma forma muito leve, de peito aberto, autêntica, me desnudando mesmo, mas sem romantizar".

A comunicadora conta que, por um lado, se vê agora em sua melhor fase, se sentindo bonita, criativa e pronta para fazer o que quer, no tempo que tem e que respeite o seu maternar. O que não significa que ela não está atenta aos movimentos daqueles que discordam do seu conteúdo e das suas experiências compartilhadas, mas que ela escolheu lidar com isso também de uma forma mais leve, evitando se expor completamente, mas sabendo que abrir o jogo sobre o que tem vivido é enriquecedor para todos.

"Eu estou querendo mostrar para essas mulheres que a indústria cria recursos poderosos para nos desconectarmos de nós mesmas, para nos distanciarmos da nossa essência, do que a gente quer, que é importante para gente, que diz respeito aos nossos momentos, os nossos corpos", diz. "Desde que eu comecei a falar sobre isso eu recebi dezenas de centenas de relatos de mulheres que se inspiraram, que ficaram mais tranquilas, que tiraram esse peso dos ombros e conseguiram engravidar após a idade 'determinada' por estudos antigos e defasados."

Ana relata que recebeu inúmeros comentários, até mesmo de médicas, que atacavam a sua escolha de engravidar aos 40 anos, inclusive sendo acusada de "negacionista" e de contribuir para que outras mulheres se frustrassem na tentativa de fazer o mesmo. O shift para temas questionadores, como a necessidade de cesáreas, a questão da amamentação e até da gravidez após os 40, mas que fossem mais leves foi importante para que ela também pudesse lidar com mais tranquilidade com o próprio puerpério. No entanto, ela não nega que, no geral, o saldo tem sido positivo.

"Eu tenho recebido muitos relatos de mães, mulheres que começaram a repensar a maternidade, a relação dela com o maternar, a ver que a maternidade não acaba com a vida de ninguém, não é determinante, não é uma coisa que deveria ser preocupação porque já tem 30 anos e 'tá muito velha'. Essa relação mais leve do sentir, do viver, da entrega, de estar presente ao momento, de compreender o quanto isso traz de forças, certezas e valores pras mulheres, entender a importância da amamentação....", reflete.

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Por fim, a blogueira fala da importância de questionar os padrões médicos que vão contra aquilo que cada mulher acredita, e a importância de se informar, a partir de fontes confiáveis, sobre todo o processo de gravidez e de maternidade, como uma forma de se munir de conhecimento para tomar decisões mais conscientes e que considerem tanto o desejo da mãe quando o bem-estar do bebê. "Dividir todas as experiências mostra o quanto a gente ainda não sabe, são muitas camadas por trás disso. Vi mulheres que relataram que engravidaram depois dos 40, tiveram o seu parto domiciliar e foi incrível, depois de ouvirem o meu relato, tiveram a amamentação salva também por conta do meu relato, que falavam que a minha história trouxe novas relações com tudo… Acho que tudo foi um saldo muito positivo e muito belo que só essa experiencia poderia ter trazido para minha vida. Hoje, me vejo como uma mulher incompleta, que ainda tem muitas coisas para transformar, para viver, e o quanto é isso é enriquecedor, e o quanto pode ser bonito, muito bonito", finaliza.

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