Masp veta fotos do MST em mostra que tem núcleo cancelado

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***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 03.10.2012 - Fachada do Masp, na avenida Paulista, região central de São Paulo. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 03.10.2012 - Fachada do Masp, na avenida Paulista, região central de São Paulo. (Foto: Danilo Verpa/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Parte da exposição do Masp "Histórias Brasileiras", prevista para julho deste ano, foi cancelada após o museu vetar um conjunto de documentos e fotos do Movimento Sem Terra, o MST, e de fotografias dos artistas João Zinclar, André Vilaron e Edgar Kanaykõ. Esta é a maior exposição do Masp neste ano.

Artistas e outros envolvidos no núcleo denominado "Retomadas" foram informados da decisão das organizadoras dessa parte da mostra, Sandra Benites e Clarissa Diniz, curadora adjunta e curadora convidada da instituição, respectivamente, em email assinado por ambas.

Segundo as organizadoras, o museu alegou que o conjunto de documentos e fotografias não poderia integrar a mostra porque foram requisitados após o prazo estipulado pelo museu para empréstimo das obras. Elas afirmam, no entanto, que não foram informadas dessa data máxima definida pela instituição.

O museu afirma ter recebido a relação deste material com pouco menos de três meses de antecedência da abertura da mostra, o que extrapola os prazos para a execução de procedimentos como a solicitação do empréstimo das obras e a cessão do uso de imagens. O padrão do Masp é de quatro a seis meses, e esta informação constava no contrato das curadoras, diz o museu, acrescentando ainda que o prazo foi reiterado a elas numa reunião. ​

"No entanto, o museu conseguiu atender sim um dos pedidos das curadoras, de maneira excepcional, para incluir as obras pertencentes ao acervo do Movimento Sem Terra, um total de sete cartazes e documentos. O que não foi possível incluir foram seis fotografias de três fotógrafos. Embora esse material representasse o eixo central do núcleo, foi entregue ao museu fora do prazo", acrescenta a instituição.

O email das curadoras foi enviado na mesma semana em que o lançamento do livro "Sem Medo do Futuro", de Guilherme Boulos (PSOL), que aconteceria também no Masp foi cancelado pela instituição. Eles alegaram que o evento não estaria de acordo com as diretrizes do museu, que proíbe manifestações políticas.

No email enviado aos artistas, as curadoras afirmaram que "apesar do cuidadoso trabalho realizado, para a nossa surpresa, o Masp não concordou com a integral inclusão da representação das retomadas pelo suposto descumprimento de um prazo que não nos foi informado pela produção ou pela curadoria do museu".

"Impedidas de levar adiante nosso acordo com o Movimento Sem Terra, seus fotógrafos e Edgar Kanaykõ como sanção a um erro que sabemos não ter cometido, sentimo-nos desrespeitadas, injustiçadas e instadas, em consequência de tal decisão, a trair a confiança deste que não é só o maior movimento social do Brasil, como também é a coluna vertebral do 'Retomadas'", justificaram elas ainda no email.

Um dos artistas que estaria nessa parte da mostra e que não quis se identificar na reportagem afirmou que recebeu "com tristeza" o ​email das curadoras e que aguarda a posição do museu. O núcleo contava com dezenas de artistas, tanto em ascensão quanto consagrados, dentre os quais Denilson Baniwa, Oswald de Andrade, Paulo Nazareth, Sebastião Salgado e Lourival Cuquinha.

O MST manifestou "indignação" com a atitude do museu em nota em que afirmam serem "testemunhas da forma ética e profissional com que as curadoras e os acervos parceiros se empenharam na produção do projeto".

"Ao inviabilizar a inserção da totalidade desses documentos o que de fato se efetiva é a exclusão de um dos maiores movimentos sociais da história contemporânea brasileira e latino-americana", afirmam ainda na nota. Para o movimento, a atitude está inclusive em desacordo com a função social da instituição museológica.

Na ocasião do cancelamento do evento de Boulos, caso revelado pelo UOL, o museu afirmou que "o lançamento precisou ser cancelado por não estar de acordo com o Artigo 2, Parágrafo Terceiro do estatuto social do Masp que expressa a 'vedação à realização de quaisquer manifestações de caráter político e/ou religioso', impossibilitando que o museu atue como sede de qualquer tipo de evento relacionado a esses temas".

​A editora do livro, a Contracorrente, ainda assim lembrou que a equipe já havia feito visitas técnicas, assinado a minuta contratual e até mesmo iniciado a divulgação do lançamento.

"Histórias Brasileiras" é a maior mostra do Masp em 2022, ocupará dois andares do museu e tem mais de 300 obras. A exposição conta com 12 curadores. O museu afirma que, dada a dimensão da mostra, é necessário mais rigidez e disciplina com relação a todas as instâncias, e que os organizadores de todos os núcleos da mostra estavam cientes disso. Diz ainda que outros curadores também tiveram que cancelar empréstimos.

"Não se trata então de uma restrição em termos de conteúdo, mas sim única e exclusivamente de cronograma institucional", afirma o museu.

Um curador que conhece o funcionamento de grandes museus brasileiros afirma que normalmente há alguma flexibilidade para o cumprimento de cronogramas de produção, sobretudo quando são obras centrais para o argumento de uma exposição, como é o caso em questão.

Além disso, diz a fonte, obter empréstimos dentro do Brasil, como no caso das obras do MST, seria menos trabalhoso que empréstimos internacionais, porque elimina parte da burocracia. Ainda de acordo com o informante, no mundo ideal a produção seria a grande autoridade de uma montagem de exposição, porque esta área sabe o tempo que se leva para conseguir, transportar e montar as obras, mas no dia a dia dos museus a curadoria está acima da produção nas decisões.

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