A construção da masculinidade tóxica dentro das redes sociais é maior do que você imagina

Colaboradores Yahoo Vida e Estilo
·5 minuto de leitura
Foto: Tiago Limón
Foto: Tiago Limón

Por Rafaela Martuscelli

Entrar na internet e se deparar com alguma reprodução da masculinidade tóxica é quase instantâneo. Não precisamos nem ir muito longe: grupos de WhatsApp são um exemplo disso. Encontrar postagens no Facebook, Instagram e Twitter que reforçam estereótipos masculinos também não é de nenhuma dificuldade.

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Um bom exemplo de como a masculinidade atua nas redes foi dado pelo ator global Juliano Cazarré, em uma postagem em seu Instagram, em novembro de 2019. Na legenda do vídeo postado por ele, que mostra um gorila protegendo a família, Cazarré afirma que a masculinidade "faz do mundo um lugar mais seguro" e gerou uma grande polêmica na internet.

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Outro momento clássico que esbanjou a masculinidade tóxica foi quando, em junho de 2020, o "grito da masculinidade" viralizou. O tal grito aconteceu em evento ministrado pelo especialista em mudança comportamental Wendell Carvalho. Em entrevista ao Morning Show, da Jovem Pan, o coach justificou o grito como uma intervenção para ajudar homens que sofrem com travas mentais. A internet se dividiu em duas: os que repudiaram o ato e os que defenderam o tal grito.

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Pode parecer que o que encontramos on-line é apenas um reforço do "mundo real", mas o impacto também ocorre pelo caminho contrário. As redes sociais servem também para reproduzir e espalhar, com mais rapidez e amplitude, conceitos que estão estagnados em nossa sociedade há anos.

Foi o que constatou a Professora Valeska Zanello, do Departamento de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB). Com a ajuda de homens que participam dos grupos de WhatsApp, conhecidos por “casa dos homens”, Valeska realizou uma extensa para analisar as mensagens trocadas por eles. Seis homens, denominados por ela como "espiões", ofereceu a Valeska o acesso a tudo o que era compartilhado nos grupos masculinos dos quais eles faziam parte.

A professora explica que a masculinidade já existe e faz parte da vida dos homens desde a época da escola durante a infância e adolescência. No entanto, ela é acentuada na vida adulta, seja entre amigos, dentro dos times de futebol ou dos grupos de WhatsApp, sendo este último uma das principais fontes.

"As redes sociais têm um papel muito importante. Elas trazem isso que acontece na cultura de forma geral, muitas vezes de maneira ainda mais intensificada", afirma.

O estudante Eduardo Soares*, de 22 anos, conta que entrou em um grupo formado por homens e mulheres há uns anos atrás. Eventualmente esse grupo acabou se dividindo, criando um grupo "só para os homens". O rapaz, que na época não tinha ao menos atingido a maioridade, passou a sofrer bullying por ser o mais novo da turma, mas não saiu do grupo.

"Naquela época, eu nunca tinha visto o termo 'masculinidade tóxica'. Mas, olhando para trás, eu percebo que foi bem isso mesmo. Eu lembro que senti um choque. Como não era uma coisa que eu estava acostumado, fiquei meio surpreso pelo comportamento das pessoas. Eu tentei me adequar às situações, então quando eles faziam piadas machistas, faziam piadas gordofóbicas, compartilhavam vídeos pornográficos, enfim", compartilha Eduardo.

A necessidade de se adequar e o medo de ser excluído do grupo faz com que uma ideia de cumplicidade entre homens nascesse. A professora Valeska denominou o sentimento como a famosa "brotheragem" como forma de criar uma cumplicidade com os outros homens: "a principal forma de criar identidade e a sensação de pertencimento a um grupo de homens é demonstrar a capacidade de exercer essa objetificação sexual", explica.

Ela completa falando sobre como a identidade é muito reforçada dentro de dois mecanismos: a eleição de um objeto de repúdio e a ideia do compartilhamento de uma certa emocionalidade — quando o ato de repudiar cria uma sensação de pertencimento. Segundo a professora, existem diversos objetos de repúdio, mas o mais constante em um grupo de homens, em termo de repúdio ou misoginia, é a objetificação das mulheres.

Além dos grupos de WhatsApp, o Reddit também é um canal que vem sendo utilizado para criar comunidades que propagam esses tipos de pensamentos. A plataforma, que já ultrapassou o número de contas do Twitter e do LinkedIn, já tem cerca de 300 milhões de usuários ativos.

Segundo um artigo publicado pela revista MIT Technology Review, dentro do Reddit existem muitos canais (chamados de subreddit) onde homens discutem como combater a crise da masculinidade. Essa comunidade foi denominada de manosphere (homensfera), que segundo o Dicionário de Cambridge significa "sites e grupos de discussão na Internet que se preocupam com os interesses e direitos dos homens em oposição aos das mulheres, muitas vezes relacionados com a oposição ao feminismo ou antipatia pelas mulheres".

Neles, existem espaços e canais no YouTube onde homens reunidos lamentam o azar de terem nascido no século XXI, que é considerado por eles o século feminista. Um exemplo de subreddit é o "MGTOW", que é a sigla para Men Going Their Own Way (em português, “homens que seguem o seu caminho”). Trata-se de um canal misógino, onde os homens discutem como defender a masculinidade de uma suposta "feminização" do mundo.

Em resumo, as redes sociais vem contribuindo cada vez mais para a propagação das ideias a favor da masculinidade tóxica. Mas, por outro lado, também existe muita conversa e muita conscientização das consequências que ela traz. Foi o que afetou Eduardo, que conta como ele se livrou do grupo que fazia parte.

"Eu não lembro o que exatamente me levou a fazer isso, mas teve uma hora que eu saí do grupo. Eu realmente me envolvi bastante com os caras nesse grupo 'só para homens', conta o estudante.

"Eu participava das piadas, fazia todo tipo de coisa, mas teve uma hora que começou a ficar uma coisa bem chata. Eu não achava mais graça, e naquele momento não fazia mais sentido para mim, aí eu saí. Foi um momento em que pensei que aquilo estava muito errado e que não fazia muito bem para mim", completa.

*O nome da fonte foi preservado a pedido do entrevistado.

**Concepção e Coordenação de Amauri Terto e Diego Iraheta

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