Mas o que está acontecendo com o telejornalismo brasileiro?

‘Jornal Nacional’: coberturas que deixam a desejar (Reprodução)

Custei a entender o que estava acontecendo no ‘JN’ da noite de quarta. Parecia tudo, menos um jornalístico disposto a fazer sua função, que seria, teoricamente, informar. Num momento em que o Brasil está perigosa e radicalmente dividido, quando ninguém mais parece disposto a raciocinar (obrigado, redes sociais), seria do jornalismo a obrigação de ponderar, apurar, explicar, destrinchar, desvendar. Não é o que se tem visto.

Não entrarei em questões políticas (nomeação de Lula para ministro da Casa Civil, vazamento do Sérgio Moro, essas coisas). Para isso vá na seção de notícias do Yahoo! O foco aqui é o jornalismo da televisão mesmo. E jornalismo tem sido algo muito pouco praticado em nossos telejornais. Não falo do ‘Cidade Alerta’, ‘Brasil Urgente’, que são qualquer coisa, menos jornalismo. Falo do ‘JN’ e de outros jornais tidos como sérios. Esperava-se um pouco mais de responsabilidade. Reproduzir um monte de áudios vazados sem uma análise não é jornalismo. Pior: enquanto o ‘Jornal da Globo’ reproduzia os áudios, o ‘JN’ preferiu a versão lida por seus âncoras (William Bonner e Renata Vasconcellos).

A cobertura de rua também deixou muito a desejar. É confortável ir à rua e divulgar que segundo a PM tinham X pessoas e segundo os organizadores Y, mas nunca entendi porque os telejornais não têm seus próprios departamentos de cálculos. Intepretação? Para quê? É cômodo reproduzir as explicações do Juiz Sérgio Moro para explicar porque resolveu quebrar os sigilos telefônicos. O juiz pode até estar certo, mas é obrigação do jornalismo ouvir juristas a respeito do assunto. Deveria ser um compromisso da imprensa explicar ao pobre do telespectador o que significa esse novo cargo do ex-presidente Lula.

O telejornalismo brasileiro confunde abrir microfones para os dois lados com cobertura. Hoje o espectador recebe as notícias quase cruas – muita reprodução de imagens, umas entradas ao vivo e nada de se explicar o que significa tudo aquilo. É o fato jogado na tela e o tal do “outro lado” – “procurado, o outro lado não quis se manifestar”. E, sinceramente, deixar na mão de políticos (de ambos os lados) a função de destrinchar os acontecimentos é mais do que temerário.

Veja também:

Polícia prende suspeitos de ataques virtuais a Taís Araújo

Monica Iozzi solta o verbo: “As pessoas têm que se informar melhor antes de dar opinião”

Ao final de um telejornal saímos mais confusos e desinformados do que antes de assisti-lo. Desculpem, mas jornalismo é muito mais do que isso. Jornalismo é interpretação, é investigação, é apuração. O resto é reprodução de sinopse de novela.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos