Por que a Marvel ainda precisa aprender a contar suas histórias na TV

·4 minuto de leitura

Em 2008, com o lançamento de Homem de Ferro, o Marvel Studios deu o primeiro passo para a criação do seu universo cinematográfico. Desde então, todas as produções do estúdio são interligadas como capítulos de uma grande série sem fim. Apesar dessa estrutura episódica, o foco sempre foi o cinema, com algumas tentativas no passado de integrar esse universo com produções para a TV aberta como Agents of SHIELD e Agent Carter e adaptações para o streaming como as séries dos Defensores na Netflix (incluindo Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage, Punho de Ferro e Justiceiro).

Até então, essas séries da Marvel ficam em uma subcategoria, circundando os eventos do cinema e sem liberdade para interferir na linha narrativa principal. Com a chegada do Disney+, o serviço de streaming da empresa proprietária do Marvel Studios, chegou a hora de mudar de estratégia e investir pesado em conteúdos que transformassem os fãs do Vingadores e Cia. em assinantes. Das 12 séries anunciadas, três já foram lançadas com a premissa de desenvolver seus personagens para a Fase 4, preparando a Feiticeira Escarlate e o novo Capitão América para suas próximas aventuras cinematográficas, além de abrir o conceito de multiverso para o grande público.

Leia também

WandaVision aproveitou a oportunidade para explorar a linguagem da TV e entregou uma minissérie estruturada para desenvolver trama e personagens. Recebeu em troca 23 indicações ao Emmy, mas foi duramente criticada pelos fãs por não corresponder às infindáveis teorias que surgiram pela internet. Falcão e Soldado Invernal permaneceu mais próxima da linguagem do cinema, sem aproveitar o espaço extra — levou seus personagens principais do ponto A para o ponto B para anunciar Capitão América 4, mas esqueceu personagens secundários pelo caminho. Já Loki começou com potencial para integrar de vez cinema e TV, mas colocou a sua própria narrativa em segundo plano ao servir às necessidades das próximas histórias a serem contadas pelo Marvel Studios.

Pela estrutura seriada do MCU, toda ponta solta é uma pista do que virá no futuro. Por muito tempo esse conceito foi essencial para fidelizar o espectador, que passava de filme a filme em busca da narrativa completa. Acontece que esse mesmo conceito pode se tornar uma fonte de frustração, já que nenhuma história fica bem resolvida. Na TV isso fica mais evidente pelo tempo investido. Em Falcão e Soldado Invernal foram quase seis horas tratadas como um grande filme quando a série poderia ter aproveitado melhor sua divisão para aprofundar todos os arcos abertos.

A mesma coisa em Loki. A primeira temporada da série é uma grande escada, sem compromisso de dar aos seus personagens qualquer tipo de evolução ou desfecho. Claro, há um grande gancho que imita o recurso televisivo e, logo depois, a confirmação de uma segunda temporada, mas fica a sensação de que a missão maior era criar apenas expectativa para o multiverso. O resto se resolve depois. Não à toa as séries citadas não tem showrunner, a figura central das produções para a TV e o grande responsável por criar uma história que seja coesa. Na Marvel, esse encargo é dividido entre criadores e diretores, com ambos respondendo a Kevin Feige, esse sim o showrunner da grande série chamada Universo Cinematográfico da Marvel.

What if…, a próxima série da Marvel no Disney+, pode acabar sendo o título que melhor vai aproveitar o espaço do streaming. Com o multiverso liberado, a animação promete explorar as inúmeras possibilidades dentro do MCU, mas em histórias fechadas entre si. O que foge do que foi visto até agora, já que o objetivo parece ser preencher o vazio entre as histórias do cinema, transformando e apresentando personagens, mas sem afetar a narrativa geral da Fase 4. É uma fórmula de difícil equilíbrio: ao mesmo tempo em que é preciso mostrar forte ligação com a trama principal da Marvel para conquistar novos assinantes e criar expectativa para os filmes, não dá para exigir que o público do cinema tenha visto as séries para entender os lançamentos da tela grande.

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 min e receba todos os seus emails em 1 só lugar

Siga o Yahoo Vida e Estilo no Google News

De qualquer forma, o espectador fica quase sempre com a sensação de que falta alguma coisa. Ironicamente, o estúdio que transformou o cinema ao levar a linguagem das séries para a tela grande, ainda precisa entender como contar suas histórias de forma satisfatória na TV.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos