Marisa Monte lança disco inédito após dez anos e ataca Bolsonaro com seu otimismo

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*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, BRASIL, 05-04-2019: Marisa Monte. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, BRASIL, 05-04-2019: Marisa Monte. (Foto: Eduardo Anizelli/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em paz com o tempo. É assim que Marisa Monte se vê diante do lançamento de seu primeiro álbum solo de canções inéditas em quase uma década. O disco, no entanto, chega num momento nada pacífico.

Em direção contrária à crescente onda negacionista que se instala no país, a obra propõe o que Marisa chama de “afirmacionismo”. Cheio de otimismo, esperança e traços típicos da cantora, “Portas” é um disco produzido durante o caos pandêmico da Covid-19 e lançado nesta quinta, aniversário de 54 anos da artista carioca, consagrada como um dos maiores ícones da MPB.

Resgatando a famosa serenidade pop de discos anteriores, como “Mais”, de 1990, e “O Que Você Quer Saber de Verdade”, de 2011, “Portas” traz aquela essência dicotômica de Marisa, com sua ternura robusta já tão estabelecida na carreira, e dispensa grandes ousadias.

Meses após lotar estádios dentro e fora do Brasil com a última turnê dos Tribalistas —a trinca queridinha dos casais apaixonados—, Marisa se despediu das redes sociais e deixou implícito que o tão aguardado solo de inéditas viria em breve, mas manteve o mistério no ar.

“Queridos, depois desse período de expansão com direito a muitas viagens, shows e álbuns novos, estou entrando em um período de trabalhos internos e vou ficar invisível por um tempo”, escreveu ela, em maio de 2019.

Seu plano era gravar em maio do ano seguinte uma série de composições feitas durante o período offline. Mas ela não esperava —é claro— uma pandemia no caminho.

Quando o caos chegou foi preciso, então, “recalcular a rota do GPS” e abusar da criatividade, segundo Marisa.

“Era um disco que eu queria fazer a partir do encontro”, diz ela. “Um disco ao vivo, gravado em estúdio com a dinâmica da intensidade e do alívio que você só consegue quando tem todo mundo tocando junto.”

A ideia era produzir uma obra à la artesanal e com uma matriz sonora orgânica, repleta de arranjos instrumentais gravados em conjunto. Contudo, a nova realidade forçou o plano a sofrer adaptações.

Se antes da pandemia Marisa desejava ir à Nova York coproduzir “Portas” ao lado de Arto Lindsay —o mesmo produtor de “Mais”, de 1990, e “Verde, Anil, Amarelo, Cor-de-Rosa e Carvão”, de 1994—, por exemplo, já não era mais o ideal a ser feito.

Foi aí que as videochamadas tão marcantes de 2020 se tornaram uma chave essencial para o novo álbum. “Eu achei que a gente não tinha muito a perder e deveríamos tentar uma gravação remota, apesar de todas dificuldades.”

Marisa, no Rio de Janeiro, e Lindsay, em Nova York, organizaram duas bandas e foram testando as melhores maneiras de unificar as sonoras. “Tinha que testar [a possibilidade de contágio de Covid-19 em] todo mundo, ser uma equipe pequena, blindar os estúdios, ninguém podia ter visitas, nem nada disso.”

Em meio a esse método de gravação, que é novo na carreira de Marisa, surgiram novas composições para o álbum, todas carregadas de muitas emoções pandêmicas.

Marisa conta que ela e Marcelo Camelo compuseram juntos três das 16 faixas do disco mascarados ao ar livre. Além do carioca, a cantora traz em “Portas” parcerias com outros artistas, como Arnaldo Antunes, Pretinho da Serrinha, Nando Reis, Seu Jorge, Pedro Baby, Silva, Chico Brown, filho de Carlinhos Brown, Dadi, Flor, filha de Seu Jorge, e Lucas Silva.

Entre as canções, que mesclam gêneros como samba e soul, se destaca a harmonia suave de violões, piano, bateria, guitarra, trompete e flauta. Para alegria de uns e chateação de outros, não há nenhuma mudança significativa no estilo tradicional da cantora.

O fôlego mais marcante do álbum talvez seja seu tom altamente otimista. Em contraste com a realidade brasileira —que cada vez mais parece dar motivos suficientes para o desespero—, Marisa mira em ares de positividade e esperança.

“Num momento de tanto negacionismo, a gente precisa afirmar o que é compatível com a vida, ciência e democracia. Precisamos justamente de um afirmacionismo”, diz ela, rindo. “Eu realmente acho que sairemos bem melhores [do momento atual]. E isso não é um desejo ou uma intuição. É baseado na história.”

Para celebrar a chegada do novo disco, Marisa fez uma audição online, em que fãs tiveram acesso antecipado ao conteúdo, sob a compra de ingressos solidários. O valor arrecadado será revertido a profissionais da cultura do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Salvador.

“No futuro, a gente vai olhar para trás e ver um apagão na cultura. Não estamos produzindo cinema, teatro, quase nada”, afirma a cantora. “E a cultura é a alma do país. Então, eu espero que possamos ter em breve um governo que recrie o Ministério da Cultura e que voltemos a valorizar a arte não só como uma potência de valores, mas também como uma indústria economicamente ativa, que gera recursos e emprega.”

Além de criticar o desempenho da Lei Aldir Blanc, que não foi capaz de socorrer o setor cultural em meio à pandemia, Marisa classifica o governo Bolsonaro como frágil e um retrocesso conservador.

Segundo a cantora, ela não quis “quebrar seu período offline” para fazer posts sobre política porque imagina que todos já a “conhecem bem” e, sobretudo, porque prefere mover ações “que não precisam ir para as redes”.

Além disso, Marisa diz que sua contribuição à manutenção da democracia é sua “resistência poética”.

“Acho que estou contribuindo da minha maneira, com a resistência poética e amorosa, apontando para um futuro melhor com fé e carinho. E eu vejo coisas bonitas acontecendo no Brasil o tempo inteiro, pessoas que admiro militando nos seus microcosmos”, diz ela explicando seu otimismo. “As coisas têm uma evolução que às vezes não é do jeitinho que queremos, mas ainda assim, eu tenho muita esperança no futuro.”

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