Marina Lima canta Brasil da pandemia e diz que chegou a inverno da vida em novo EP

JOÃO PERASSOLO
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Marina Lima vive no agora. Numa de suas músicas novas ela canta que uma onda de horror chegou por aqui junto com um vírus matador, antes de celebrar as boas notícias nos versos seguintes, de acordo com a letra. "O homenzinho do norte caiu/ e já já junto/ essezinho daqui vai ruir." Feita em parceria com Mano Brown, dos Racionais MCs, "Nóis" --uma das quatro músicas inéditas da cantora, a ser lançada nos serviços de streaming nesta sexta, no EP "Motim"-- se refere à pandemia, a Donald Trump e a Jair Bolsonaro sem mencionar seus nomes. E também dá dicas sobre os posicionamentos de Marina. "Sou uma pessoa ligada ao meu tempo, meu tempo é hoje. Tem muitas coisas que tomam conta da minha alma, e preciso falar sobre elas. O meu trabalho neste mundo é me expressar. Esta sou eu, e muita gente também; outras pessoas não, mas essas, em geral, eu não me interesso por elas", diz ela, em entrevista por Zoom, com respostas algo poéticas que às vezes parecem saídas direto de suas letras. E por quais artistas ela se interessa? Alice Caymmi, Letrux, Linn da Quebrada, Jup do Bairro e Thiago Petit, para lembrar alguns nomes do pop contemporâneo brasileiro. "Eu gosto desses que se colocam. Eu tentei o melhor que pude ser assim sempre e vou tentar até o fim ser assim." O que esses músicos têm em comum é trazer questões sexuais e de gênero em suas obras ou em suas vidas, assim como Marina fez nos anos 1990 ao assumir publicamente seu namoro com uma mulher. Mas o contexto social naquela época era outro, e se hoje os ouvintes estão preparados para ter estas conversas é em parte por causa da franqueza de Marina lá atrás. Para seu conjunto de novas canções, a cantora escolheu o formato curto do EP, que compara a um conto, em detrimento de um LP, que associa a um romance, pelo fato de só os muito fãs terem disponibilidade para ouvir um disco com 11 faixas hoje em dia, diz ela, diante das infinitas demandas pela nossa atenção. Mas a brevidade de "Motim", com menos de 20 minutos, é resultado de um mergulho total em seu universo e em seus estudos sobre violão durante o isolamento social, conta ela. "A dificuldade é ter tempo para se dedicar a isso, mas, tendo tempo, é como o mar, não tem fim." Está no disco também a Marina do Rio de Janeiro, é claro, a sua versão mais conhecida. Em "Pelos Apogeus", faixa inspirada nos violonistas Luiz Bonfá e Baden Powell, a carioca olha para o passado e repassa em versos e num dedilhado de violão sua infância na cidade, seus anos de adolescente nos Estados Unidos, a volta ao Rio e o que chama de aventuras loucas da meia idade. "Eu estou no inverno da existência, depois dos 60 pode ser considerado o começo do inverno. Mas o meu inverno é claro como o verão, ou seja, eu não sinto um inverno escuro e pesado", afirma, refletindo de maneira sóbria sobre seu momento atual, com 65 anos, morando em São Paulo há mais de uma década. Quando olha para trás, considera a sua obra volumosa o suficiente para que finalmente seja registrada em livro. Seus 40 anos de carreira divididos em 21 discos viraram um "songbook" contendo todas as letras e partituras das músicas lançadas por ela, não só as autorais. A publicação, feita em parceria com o músico Giovanni Bizzotto, está disponível para download também a partir desta sexta. Podem se interessar pelo livro estudantes de música e seus amigos taxistas que tocam violão, ela diz. Mas também uma geração de jovens de 20 e poucos anos que aprenderam a gostar de Marina influenciados por seus pais, eles próprios adolescentes ou novos adultos à época de grandes sucessos da cantora, como "Fullgás" e "O Chamado". Quem está na casa dos 20 e a descobre por conta própria acaba gostando "da minha sonoridade, dos meus temas e da minha postura", ela conclui. * MOTIM (EP); MARINA LIMA: MÚSICA E LETRA (SONGBOOK) Onde Nas plataformas de streaming e no site da cantora Preço O songbook é gratuito Autor Marina Lima Link: https://marinalima.com.br/