O caso Marília Mendonça nos mostra o quanto precisamos falar de transfobia

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Marília Mendonça pediu desculpas, mas isso não muda a necessidade de falarmos sobre transfobia (Foto: Instagram/ Marília Mendonça)
Marília Mendonça pediu desculpas, mas isso não muda a necessidade de falarmos sobre transfobia (Foto: Instagram/ Marília Mendonça)

A segunda-feira (10), já amanheceu com polêmica. Isso porque o caso Marília Mendonça nos atentou para o quanto precisamos falar sobre transfobia. Não à toa, o termo também amanheceu como um dos mais buscados na internet, afinal, em um mundo onde temos questionado tanto sobre preconceitos e exigido posicionamentos que gerem mudanças, deixar a comunidade trans de lado é, no mínimo, hipocrisia.

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A cantora usou as redes sociais para pedir desculpas por um comentário que fez durante uma live no final de semana, em que ria de um caso que relacionava uma pessoa próxima a uma pessoa trans. Aliás, comportamentos como esse são tão comuns que tornam a transfobia algo normalizado na nossa sociedade.

Esse preconceito que começa com comentários dessa natureza (mas que tem bases muito mais profundas), é o que transformou o Brasil no país que mais mata pessoas trans em todo o mundo.

Segundo o levantamento anual da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), em 2019 uma pessoa trans foi assassinada a cada 3 dias por aqui. No total, foram 124 mortes, o que caracteriza uma queda de 24% no número total em relação à 2018, mas ainda assim mantém o país no topo da lista dos mais violentos para essa população - uma posição que mantém desde 2008, segundo os dados da ONG Transgender Europe.

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As pessoas trans, aliás, foram amplamente atacadas nas últimas semanas. Thammy Miranda, que estrelou a campanha de Dia dos Pais da gigante de cosméticos Natura, foi uma delas. Entre pedidos de boicote da marca pela parcela mais conservadora da população, o comercial virou um dos assuntos mais comentados nas redes sociais e levantou um questionamento que, em essência, nem deveria ser feito. Homens trans têm, sim, o direito a serem pais, assim como mulheres trans têm o direito de serem mães, se assim quiserem.

Falado em mulheres trans, impossível não lembrar também da polêmica envolvendo a escritora J.K. Rowling. Autora dos livros Harry Potter, que definiram uma geração, ela fez comentários claramente transfóbicos no Twitter há algumas semanas, dando a entender que mulheres trans não devem ser consideradas "mulheres de verdade" - outro equívoco que leva não só à manutenção do pensamento transfóbico, como também à violência contra essas mulheres ao redor do mundo.

Vale lembrar que uma pessoa trans é aquela que não se identifica com o gênero que lhe foi designado no nascimento. Em termos mais simples, é a pessoa que nasceu com o corpo de uma mulher, mas se identifica como homem, pensa como homem e não enxerga a si mesma no corpo que têm. É algo muito mais profundo e que envolve uma questão de identidade que vai além da orientação sexual, por exemplo.

Por esse motivo, o processo de transição de uma pessoa trans costuma ser longo e, via de regra, precisa de muita orientação e acompanhamento. Muitas vezes, essa pessoa leva muitos e muitos anos para se assumir transexual, principalmente por conta da falta de informação e conhecimento a respeito do próprio assunto e das pessoas ao seu redor. Um caso famoso de transição é o de Caitlyn Jenner, ex-atleta medalhista de ouro, que foi casada com Cris Jenner, matriarca do poderoso clã Kardashian.

Tudo isso para dizer que transfobia vai muito além de dizer se um homem trans pode ser pai ou se é ok um homem ficar com uma mulher trans na balada (atenção: é ok, sim). É preciso, acima de tudo, disseminar conhecimento e começar conversas que desmistificam o que é ser trans no Brasil e no mundo, a fim de mudar uma ideia de base de que aquilo que é diferente é errado - o que gera uma quantidade imensa de violência contra pessoas LGBTQIA+.

Vale sempre lembrar um comercial antigo da marca de cerveja Heineken que demonstrou a importância das conversas. Em uma vivência conjunta, pessoas com ideias opostas foram colocadas juntas com uma missão: montar um bar e compartilhar fatos sobre si mesmas. Ao final, foi revelado o posicionamento de cada um e a dupla ficou diante de uma escolha: sentar para conversar sobre as suas diferenças e tomar uma cerveja, ou ir embora.

No vídeo, que você pode ver abaixo, uma mulher trans é colocada lado a lado com um homem cis conversador que não aceita a transexualidade. Em um momento bastante emocionante do vídeo (e que, claro, não podemos descartar o marketing da empresa), ele decide ficar e conversar o fato de ter sido criado de uma maneira que fechou a sua mente para o que é diferente.

As conversas precisam acontecer com urgência. O conhecimento precisa se tornar acessível a todos - só assim vamos combater o preconceito e a violência. Um sistema judiciário justo, que pune de forma correta casos de homofobia, racismo e transfobia, e um país que coloca na sua base o tratamento igualitário dos seus cidadãos e educação de qualidade, de forma absolutamente laica e que objetiva formar pessoas conscientes e com senso crítico é o que vai transformar uma visão retrógrada de que pessoas trans não merecem respeito ou o direito de serem felizes e viverem a vida que sempre sonharam. Enquanto isso não acontece, que comecemos essas conversas em nossos próprios ambientes, seja na mesa de bar (pós-pandemia, claro) ou na sala de casa.

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