'Marighella’, de Wagner Moura, enfrenta o Estado para poder ser visto no Brasil

Afinal, teremos 'Marighella' no Brasil? (Foto: Reprodução/IMDB)

Por Thiago Ney

Cancelado ou adiado? Até agora, não se sabe exatamente qual é a situação de 'Mariguella', filme dirigido por Wagner Moura baseado na biografia do guerrilheiro comunista. Com 155 minutos de duração, o longa é ambientado entre 1964 (quando um Golpe Militar impõe a ditadura no Brasil) e 1969 (quando Carlos Marighella, interpretado por Seu Jorge, é assassinado pela polícia).

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Já exibido em festivais internacionais, como o de Berlim, ocorrido em fevereiro, a estreia de “Marighella” estava marcada para 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Mas foi adiada (ou cancelada).

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Em nota a este repórter, a assessoria da O2, produtora do filme, utiliza os dois termos para descrever o que houve.

Oficialmente, ocorreu um problema “burocrático”.

Burocracias

O orçamento de “Marighella” foi de cerca de R$ 10 milhões. Por meio do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), que é administrado pela Ancine (Agência Nacional de Cinema), “Marighella” recebeu R$ 3 milhões.

Quando um filme recebe investimento do Fundo, os produtores têm de avisar à Ancine, com 90 dias de antecedência, qual será a data de lançamento nos cinemas. Aí começam os entraves burocráticos. A O2 não fez essa comunicação no prazo. Porque, segundo a produtora, o contrato com a Ancine ainda não havia sido finalizado.

No final de agosto, a Ancine negou dois pedidos feitos pela O2.

O primeiro, um ressarcimento de R$ 1 milhão que foram investidos na produção do filme e que não foram reembolsados. A Ancine justificou afirmando que a verba era parte do orçamento original e não poderia ser ressarcida com dinheiro público.

O segundo pedido, um adiantamento de verba para ser usada na comercialização do filme. Seria uma exceção, já que o contrato com o FSA ainda não estava oficializado. Mas a Ancine negou também esse pedido.

Censura ou processo burocrático?

Em seguida, o vereador Carlos Bolsonaro foi ao Twitter para comemorar: “A produtora do filme Marighella, dirigido por Wagner PIÇÓU Moura, a ‘O2’, pleiteou à ANCINE a bagatela de R$1.000.000 para um suposto ‘ressarcimento de despesas’. Pedido negado! Noutros tempos o desfecho seria outro, certamente com prejuízo aos cofres públicos”.

Em nota à época, a O2 diz que os pedidos “estão dentro da estrita legalidade”. “Reforçamos que não há qualquer tipo de censura ao filme”.

Na teoria, não há censura. Na prática, o governo parece estar se aproveitando de entraves burocráticos para impedir ou dificultar o lançamento do filme nos cinemas do país. Tanto que ainda não há uma previsão da estreia de ‘Marighella” nos cinemas do Brasil.

Mas por que 'Marighella' assustaria tanto o governo brasileiro?

Wagner Moura e os atores Seu Jorge e Bruno Gagliasso (Foto: Hannibal Hanschke/Reuters)

“Devido às ideias que Marighella defendeu e pelas quais lutou”, diz Mário Magalhães, o autor da biografia 'Marighella: O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo’ (Companhia das Letras; 2012), que inspirou o filme.

“Marighella era antifascista; o atual governo é fascistoide. No limite, eis o contraste: Marighella foi torturado pela polícia (21 dias consecutivos, em 1936); o presidente da República já defendeu explicitamente a tortura e tem como ídolo um oficial do Exército declarado torturador pela Justiça”, afirma Magalhães.

O escritor resume: “Ninguém precisa gostar do filme do Wagner. Ninguém é obrigado a se identificar com o personagem histórico Carlos Marighella. Nem a aplaudir a biografia que eu escrevi. Mas é direito dos povos conhecer a sua história. A liberdade de expressão, inclusive a artística, é direito humano e constitucional”.

O que ocorre com “Marighella” pode não ser uma censura declarada, mas é uma jogada de agentes do Estado para “filtrar” o que será visto ou divulgado. No final de semana, o filme 'Chico: Artista Brasileiro’, de Miguel Faria Jr., chegou a ser retirado da programação do Cine Fest Brasil-Montevidéu, que será realizado no início de outubro no Uruguai. O filme narra a trajetória de Chico Buarque, cantor historicamente ligado à esquerda.

Pouco depois, a produtora do evento voltou atrás e decidiu recolocar o longa no festival.

Ao jornal 'O Globo', o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, afirmou que a produtora do evento pediu apoio à embaixada brasileira naquele país. E que a embaixada “indicou quais seriam de sua preferência”. “Se você pede o apoio institucional da embaixada brasileira, é natural que a embaixada fale: 'Eu quero dar apoio para esses que são determinados filmes a serem exibidos'.

Os problemas e questões enfrentados por 'Marighella' e 'Chico’ indicam uma política de Estado para direcionar a produção e a exibição de produtos culturais.

O presidente Jair Bolsonaro não faz questão de esconder que pretende controlar as produções que recebem dinheiro via Fundo Setorial do Audiovisual. Em julho, foi noticiado que o presidente planejava retirar o Fundo das mãos da Ancine. A intenção era passar o FSA para o Ministério da Cidadania, comandado por Osmar Terra.

Bolsonaro já havia inclusive ventilado a ideia de que poderia extinguir a Ancine caso não pudesse implementar um “filtro” sobre o que a agência ajuda a financiar. Traduzindo para o português claro: censura.

Em reportagem de julho, ‘O Globo’ ouviu funcionários da Ancine, que afirmaram estar apreensivos com retaliações do governo. Diziam que temiam aprovar filmes e séries que possam desagradar o governo federal.

Antes, o presidente havia feito duras críticas ao fato de recursos públicos terem sido utilizados para financiar filmes como ‘Bruna Surfistinha’. E Bolsonaro já afirmou que gostaria de ter na Ancine alguém com “perfil evangélico”.

Mais

Em 11 de setembro o governo mandou ao Congresso um projeto de lei que corta 43% do orçamento do FSA em 2020. Se em 2019 o FSA foi autorizado a investir R$ 724 milhões em produções de audiovisual, no ano que vem o valor será de R$ 415,3 milhões.

Em reportagem de maio, à revista ‘Piauí’ traz uma declaração de Alexandre Frota (que fazia parte da base de Bolsonaro) que explicitava as intenções do governo federal na área da cultura. “Também sou contra o ‘Marighella' e o Wagner Moura, é a história de um assassino, bandido, terrorista. Até aí tudo bem. Mas a O2 produz uma série de outras coisas. O importante é o governo andar pra frente e não ser patrulhado ideologicamente”.

A fala de Frota foi dita em meio à demissão de Leticia Catelani de uma diretoria da Apex. Catelani é ligada a Olavo de Carvalho e havia interferido para que a Apex (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos) não renovasse um convênio de patrocínio de empresas brasileiras em eventos internacionais.

Ou seja: já no início do ano 'Marighella era alvo da ala ideológica do governo Bolsonaro, ala que afirma que as produções brasileiras estariam “contaminadas” por um certo “marxismo cultural” e que isso deve ser combatido. Ou asfixiado economicamente.